A contribuição de Asbury para o debate teológico-eclesiástico sobre avivamentos

Introdução

No início deste ano de 2023 ouviu-se falar de um possível caso de avivamento ocorrido na capela da Asbury University, no Estado americano do Kentucky, mais precisamente na cidade de Wilmore. O local exato da concentração foi o Hughes Auditorium, com capacidade para 1.500 pessoas. Do outro lado da rua situa-se o Asbury Theological Seminary.[1]

A Universidade em questão possui cultos regulares, aos quais os alunos precisam estar presentes com certa frequência. Entretanto, na reunião do dia 8 de fevereiro, iniciado por volta das 10h, verificou-se fenômeno incomum: depois da bênção, cerca de 30 pessoas permaneceram na capela enquanto o grupo de louvor entoava um refrão, e decidiram continuar cultuando a Deus.[2] Muitas pessoas vieram de outras localidades, e a duração do evento estendeu-se por mais de duas semanas, encerrando-se no dia 24 do mesmo mês.[3]

Diante das características notáveis dos eventos verificados em Asbury, que certamente ainda serão debatidos em estudos acadêmicos mais densos, o objetivo deste artigo é propor uma reflexão preambular, à luz das Escrituras e de precedentes históricos, com vistas a uma ponderação sobre como a Igreja brasileira vem abordando o tema do despertamento espiritual.

  1. Considerações preliminares

Antes de adentrar especificamente ao exame do evento de Asbury, cabe tecer alguns apontamentos de cunho metodológico, dada a amplitude de possibilidades de estudo.

O tópico dos avivamentos pode ser explorado por diferentes instâncias da teologia. Senão vejamos:

A teologia exegética contribui naturalmente com a interpretação de textos bíblicos empregados no estudo de avivamentos, auxiliando no exame da terminologia correlata, utilizada pela Igreja, e na análise literária, histórica, cultural e teológica das passagens bíblicas pertinentes. Ademais, é dali que vêm ferramentas capazes de tornar o intérprete mais preparado para a tarefa de reconhecer o verdadeiro ministério do Espírito Santo, que, tendo atuado na Criação, opera na sustentação de todas as coisas, no convencimento do pecador, na qualificação carismática da Igreja e em sua preparação para o encontro com Cristo.

A teologia bíblica apresenta conceitos acerca do papel do Espírito Santo no curso da história da redenção, podendo relacioná-lo com os pilares nos quais se estrutura a revelação progressiva, conforme os esquemas expositivos e concepções atinentes a essa dimensão da teologia (alianças e reino de Deus, por exemplo). Assim, os estudos produzidos pelos especialistas em Bíblia poderão servir para um desenho de como operações gloriosas e poderosas do Espírito Santo estão envolvidas com o anúncio, o advento e o retorno do Messias para buscar a Igreja.

A teologia histórica pode trazer informações sobre como a Igreja, ao longo dos séculos, no âmbito de concílios e na obra de mestres de relevo, avaliou fenômenos tidos por sobrenaturais ocorridos no seio de comunidades ou nações.

A teologia sistemática (a) auxilia no entendimento da linguagem descritiva de avivamentos, frequentemente alusiva a atributos de Deus e Suas maneiras de intervenção no mundo (teontologia); (b) oferece lições sobre aspectos como a ação poderosa do Espírito Santo, dons espirituais, fruto do Espírito e reações físico-emocionais ao poder de Deus, contribuindo para a distinção entre evidências genuínas e comportamentos carnais ou psicologicamente induzidos (pneumatologia); (c) permite a realização de fundamentados estudos sobre grupos cristãos e respectivas formas organizacionais decorrentes de períodos de despertamento espiritual (eclesiologia); (d) fornece informações referentes à condição do Homem, o qual, como criatura forjada à imagem de Deus, precisa ter suas emoções, intelecto e vontade considerados em sua interação com o poder sobrenatural (antropologia cristã); (e) fornece meios para se aferir a propalada conexão entre episódios de avivamento e sinais da Segunda Vinda de Cristo (escatologia).

A teologia prática tem a prerrogativa de (a) veicular orientações úteis à avaliação de pregações proferidas em tempos de avivamento (homilética); (b) versar sobre oração, leitura bíblica, piedade pessoal e busca por santidade em contextos típicos de avivamento (vida cristã); (c) estudar as contribuições de avivamentos históricos no nascimento ou incremento de empreendimentos missionários (evangelismo e missiologia); (d) refletir sobre a função das efusões do Espírito no convencimento dos opositores do Evangelho, como no caso da ocorrência de sinais e prodígios, e registrar insights em torno dos reflexos do derramamento do Espírito na cosmovisão cristã (apologética); (e) perscrutar os frutos de histórias de avivamento no desempenho do serviço cristão e dos ministérios episcopal e diaconal (hiperetologia e poimênica); (f) discutir práticas vedadas ao membro de igreja e ao ministro que fabrica adulterações nominadas como “avivamentos” (ética cristã); (g) observar e avaliar fenômenos psíquicos recorrentes em avivamentos (aconselhamento cristão, disciplina também chamada de “psicologia cristã”).

Afora as peças inerentes ao edifício da teologia propriamente dita, ramos auxiliares podem contribuir com informações, descrições, hipóteses ou propostas, a exemplo  da história da Igreja, da filosofia e das ciências sociais, importando ressaltar a indispensabilidade de que na pesquisa estejam presentes pressupostos válidos de interpretação das Escrituras, a fim de que não haja contaminação das percepções decorrentes — por pressupostos válidos o Cristianismo histórico e ortodoxo reconhece as premissas de que a Bíblia Sagrada é a revelação escrita de Deus, divinamente inspirada, autoritativa, suficiente, inerrante, infalível, compreensível, verdadeira, absoluta, eterna e apta para salvar.

Conquanto nem todos os itens a seguir constituam o escopo deste trabalho, cabe citar alguns dos vários subtemas relacionados ao tópico dos avivamentos: (a) conceito bíblico-teológico; (b) terminologia empregada em depoimentos dados por testemunhas presenciais; (c) igrejas originadas; (d) influência na formação de concepções teológicas; (e) necessidade ou não de evidências físicas, como glossolalia ou outras manifestações carismáticas; (f) relação com o conceito de reforma espiritual ou religiosa; (g) relação com os “movimentos de restauração”; (h) relação com o possível pêndulo histórico entre estabilidade e autenticidade;[4] (i) análise dos preconceitos, riscos e problemas constatados, como comportamentos incomuns; (j) alternância ou conflito entre carisma e ofício; (k) reações físico-emocionais exibidas em situações não caracterizadas por avivamento, a exemplo dos gestos “pseudopentecostais” que alguns classificam pela possível onomatopeia do “reteté”.

Neste artigo, escrito por autor filiado a confissão pentecostal histórica, adotam-se crenças conservadoras, associadas ao Cristianismo Protestante e Evangélico, e, assim, herdeiras dos Credos oriundos dos grandes Concílios Eclesiásticos da Era Patrística, assim como da renovação propiciada pela Reforma do Séc. XVI.

Partindo, pois, dessa arena de convergência, e tendo em vista a configuração eclesiástica brasileira, far-se-á uma abordagem do caso de Asbury com foco nas lições que podem ser apreendidas pelas igrejas evangélicas em solo brasileiro, notadamente as históricas e as pentecostais históricas.

  1. O que aconteceu em Asbury

Antes de se avaliar o tópico do avivamento de modo geral, é necessário perscrutar os elementos fáticos oferecidos pelo caso de Asbury, ponto de partida para os lineamentos aqui pretendidos.

Nessa esteira, afigura-se como de grande valia o testemunho ocular de Thomas H. McCall, professor de teologia que, sendo vinculado ao Asbury Theological Seminary, precisava somente atravessar a rua para visitar o Hughes Auditorium, e, assim, presenciar, em diferentes oportunidades, as cenas que registraria em seu artigo no site Cristianity Today, cujo título, na versão disponível em português, é o professor da Asbury diz: Estamos testemunhando uma obra surpreendente de Deus”. Na linha fina, está escrito: Por que estou esperançoso sobre o avivamento em nossa capela e suas implicações.

Confira-se, pois, alguns excertos do texto do Professor McCall:

Esta última quarta-feira, porém, foi diferente. Após a bênção, o coro gospel começou a cantar um refrão final — e, então, começou a acontecer algo que desafia qualquer descrição simples. Os alunos não saíram da capela. Foram impactados pelo que parecia ser um senso de transcendência silencioso, mas poderoso, e não queriam ir embora. Eles ficaram e continuaram a adorar. E ainda estão por lá.

[…]

Quando cheguei, vi centenas de alunos cantando baixinho. Eles estavam louvando e orando fervorosamente por si mesmos, por seus próximos e por nosso mundo — expressando arrependimento e contrição por pecados e intercedendo por cura, integridade, paz e justiça.

Alguns estavam lendo e recitando as Escrituras. Outros estavam de pé com os braços levantados. Vários estavam reunidos em pequenos grupos, orando juntos. Alguns estavam ajoelhados junto à grade do altar, na frente do auditório. Alguns estavam prostrados, enquanto outros conversavam entre si, com semblantes resplandecentes de alegria.

Eles ainda estavam adorando, quando saí no final da tarde, e quando voltei à noite. Eles ainda estavam adorando, quando cheguei na manhã de quinta-feira — e, no meio da manhã, centenas de estudantes estavam lotando o auditório novamente. Tenho visto vários alunos correndo em direção à capela todos os dias.

Na noite de quinta-feira, havia espaço apenas para ficar em pé. Começaram a chegar estudantes de outras universidades: Universidade do Kentucky, Universidade de Cumberlands, Universidade Purdue, Universidade Wesleyana de Indiana, Universidade Cristã de Ohio, Universidade da Transilvânia, Universidade Midway, Universidade Lee, Georgetown College, Universidade Mt. Vernon Nazarene e muitas outras.

A adoração continuou durante o dia todo na sexta-feira e, de fato, durante a noite inteira. No sábado de manhã, tive dificuldade para encontrar um lugar para sentar; à noite, o templo estava lotado para além de sua capacidade. Todos os fins de tarde, alguns alunos e outras pessoas permaneciam na capela para orar durante a noite.

[…]

Muitas pessoas dizem que lá, na capela, elas mal percebem quanto tempo se passou. É quase como se o tempo e a eternidade se fundissem, quando céu e terra se encontram. Qualquer um que tenha testemunhado o que está acontecendo pode concordar que é algo incomum e totalmente fora do script.

Como teólogo analítico, estou cansado de exageros e sou muito cauteloso com manipulações. Venho de uma formação (em um segmento particularmente avivalista da tradição metodista holiness) onde vi esforços para fabricar “avivamentos” e “movimentos do Espírito” que às vezes eram não somente ocos, mas também prejudiciais. E não quero ter nada a ver com isso.

Mas, verdade seja dita, o que está acontecendo em Asbury não é nada parecido com isso. Não há pressão nem engodo. Não há manipulação. Não há fervor emocional exacerbado.

Pelo contrário, tem sido sobretudo calmo e sereno. A mescla de esperança, alegria e paz é indescritivelmente forte e, de fato, quase palpável — um senso vívido e incrivelmente poderoso de shalom. O ministrar do Espírito Santo é inegavelmente poderoso, mas também muito gentil.

O santo amor do Deus triúno é aparente, e há nele uma doçura inexprimível e uma atração inata. Fica imediatamente evidente por que ninguém quer sair de lá e por que aqueles que precisam sair querem voltar o mais rápido possível.

[…]

E qualquer um que tenha passado algum tempo no Hughes Auditorium nos últimos dias pode testificar que esse Consolador prometido está presente e é poderoso. Não consigo analisar — nem sequer descrever adequadamente — tudo o que está acontecendo, mas não tenho dúvidas de que Deus está presente e ativo ali.

Vários alunos e ex-alunos que se formaram recentemente me dizem que, há vários anos, eles têm orado juntos por um mover de Deus, e que estão emocionados, sem palavras em ver o que está acontecendo.

[…]

E o que estamos vivendo agora — esse senso inexprimivelmente profundo de paz, integridade, santidade, pertencimento e amor — é apenas o menor dos vislumbres da vida para a qual fomos feitos.

Claramente, esta não é uma visão beatífica de Cristo em toda a sua glória — mas, se o que estamos vendo for sequer a mais frágil sombra dessa realidade, então, o que temos diante de nós é uma indescritível alegria e um santo amor [destaques acrescidos].

A descrição registrada por aquele professor de teologia é de especial importância acadêmica, não apenas por decorrer de observação in loco, mas também por reunir três componentes, a saber: conhecimento teológico, abordagem não sensacionalista e identificação com a tradição metodista holiness, à qual se filia a instituição onde se deram os fatos.

Tanto a habilitação teológica do autor do referido artigo como sua visão não emocionalista contribuem para que se possa reconhecer especial credibilidade ao testemunho e qualificação para interpretá-lo.

Poder-se-ia objetar com a afirmação de que a linguagem adotada emula a forma como avivamentos foram descritos na história da Igreja, com enfoque nos eventos associados a ramificações do movimento wesleyano, e que, assim, o testemunho consistiria num retrato emocionalmente referenciado, e, portanto, não qualificado para a reflexão teológica.

Entretanto, será preciso considerar os dados objetivos da longa duração do culto, da elevada quantidade de participantes, da ausência de organização prévia e da consonância entre vários depoimentos. É possível, ainda, supor que o testemunho do Professor Thomas McCall tenha sido econômico, moderado ou “conservador”, haja vista a sua ênfase em afirmar uma perspectiva mais sóbria de teólogo analítico.

Por se tratar de acontecimento presenciado por centenas de pessoas em vários dias, com divulgação em tempo real, não será difícil obter testemunhos que confirmem o que foi descrito no artigo acima referido. Para ilustrar esse ponto, recorrer-se-á a texto redigido pelo pastor e teólogo batista Franklin Ferreira:[5]

Um quadro branco diante das portas da frente da capela revela o impacto do que já supera as 120 horas de pregação, cânticos, testemunhos e confissão de pecado: ele estava repleto de manifestações de louvor e pedidos de oração, evidenciando como Deus está operando durante esse período na universidade. Num deles está escrito: “orem por minha família na Ucrânia”. Outros escreveram pedindo por “salvação para nossa nação”, “avivamento em Kodak, Tennessee”, “avivamento na Universidade de Betel”, “restauração do casamento e pelos futuros gêmeos”, por um “adolescente sofrendo com vício”, “pela salvação de papai” etc. O capelão do câmpus, Greg Haselof, disse que os eventos em Asbury fornecem “uma bela experiência de buscar a Deus — é um solo sagrado. Continuará a ser um local de adoração e oração”.

O presidente da Universidade Asbury, Kevin Brown, disse na segunda-feira, 13 de janeiro (quando as reuniões na capela já duravam mais de 120 horas), que ‘este tem sido um momento extraordinário para nós’. Alexandra Presta, editora do The Asbury Collegian, o jornal estudantil da escola, que tem feito a crônica dos cultos na universidade, escreveu: “Estamos aqui no Auditório Hughes há mais de 100 horas — orando, chorando, adorando e nos unindo — pelo Amor”. E concluiu: “Posso proclamar esse Amor com ousadia porque Deus é Amor”. Howard Snyder, professor aposentado de História e Teologia da Missão no Seminário Teológico Asbury, disse que os avivamentos podem trazer esperança em tempos difíceis: “Avivamentos autênticos devolvem a igreja ao que deveria ser”, disse ele — “o povo de Deus seguindo Jesus fielmente” [destaques acrescidos].

Os termos empregados nos depoimentos referidos jamais seriam corroborados por céticos, haja vista o fato reconhecido de que virtudes, atitudes ou sentimentos de “paz”, “amor”, “integridade”, “pertencimento”, “senso de transcendência”, “arrependimento” e “alegria” não seriam compartilhados por pessoas incrédulas, indispostas quanto à operação sobrenatural de Deus. Bem por isso, se é verdade que a pessoa incrédula não reconhece valor no testemunho do crente, por causa do pressuposto da fé, é natural que o crente não reconheça a avaliação do incrédulo, eivada pelo vício original da falta de fé.

Considerando que a Fé Cristã se baseia em “muitas e infalíveis provas” (cf. At 1.3; cf. também 1 Co 15.1-8) , e que a aceitação efetiva das “coisas espirituais” se confere exclusivamente ao “homem espiritual” (cf. 1 Co 2.6-16), por ser “filho de Deus” (cf. Rm 8.16), então os elementos probatórios devem ser coligidos em conformidade com o padrão das Escrituras e os antecedentes registrados na história, tudo sob a iluminação oferecida pelo testemunho interno do Espírito de Deus (cf. Ef 1.18).

  1. Precedentes históricos

Aspecto digno de registro quanto a Asbury é a alusão a episódios pretéritos reputados como avivamentos, sendo citados eventos de 1905, 1908, 1921, 1950, 1958, 1970, 1992 e 2006 — quanto a 2006, teria havido “um culto de estudantes na capela [que] levou a quatro dias de adoração contínua, oração e louvor”.[6]

Confiram-se novamente informações trazidas no artigo do Professor Franklin Ferreira:[7]

Em fevereiro de 1905, uma reunião de oração no dormitório masculino se espalhou pelo resto da universidade e pela cidade. Em fevereiro de 1908, o avivamento ocorreu enquanto alguém orava na capela; o avivamento durou duas semanas. Em fevereiro de 1921, um reavivamento redundou em três dias de cultos. Em fevereiro de 1950 o testemunho de um aluno levou a confissões de pecados e mais testemunhos. Isso continuou ininterruptamente por 118 horas. Estima-se que 50 mil pessoas renovaram sua fé no Senhor Jesus como resultado desse avivamento. Em março de 1958, o avivamento começou em uma reunião de oração e jejum dos alunos na capela e durou 63 horas.

Em 3 de fevereiro de 1970, o reitor Custer B. Reynolds, que iria falar na capela, foi movido a convidar pessoas a dar um testemunho pessoal. Muitos na universidade estavam orando por avivamento. Logo, um grande grupo esperava na fila para dar testemunho. A capela estava cheia de gente alegre. As aulas foram canceladas por uma semana durante as 144 horas de culto ininterrupto e, mesmo depois que as aulas recomeçaram, em 10 de fevereiro, o Auditório Hughes esteve aberto para oração e testemunho. Cerca de 2 mil equipes de evangelistas saíram dali para igrejas e pelo menos 130 câmpus universitários em todos os Estados Unidos. Em março de 1992, a confissão de pecados de um aluno durante um culto na capela se transformou em 127 horas consecutivas de oração e louvor. Em fevereiro de 2006, um culto na capela dirigido por estudantes redundou em quatro dias de oração e louvor contínuos [destaques acrescidos].

Como já assinalado, a linguagem utilizada para descrever o evento de Asbury lembra o modo como eram retratados avivamentos históricos, e guarda relação com a tradição holiness-metodista, da qual nasceu a instituição onde os fenômenos se desenrolaram.

Nesse sentido, é absolutamente imperativo que se busquem informações acerca do que aconteceu antes para que se possa compreender o que ocorreu naqueles dias.

Aqui cabe lembrar que os Estados Unidos conheceram avivamentos de elevada importância histórica, como o Primeiro Grande Despertamento, no século 18, o Segundo Grande Despertamento, no século 19, e o Movimento Pentecostal, no século 20, que deu origem a igrejas como a Assembleia de Deus.

Muitos daqueles que ouviram relatos sobre o avivamento objeto deste artigo seguramente se recordaram de Francis Asbury (1745-1816), um importantíssimo metodista próximo a John Wesley (1703-1791): estava ele entre os personagens mais destacados do Primeiro Grande Avivamento, além de Jonathan Edwards (1703-1758), John Wesley (1703-1791) e George Whitefield (1714-1770).

O metodismo e o movimento holiness, a que Asbury se filia, são herdeiros da atuação do já referido John Wesley, assim como, de algum modo, o Pentecostalismo.

Observe-se que William Joseph Seymour (1870-1922), principal referência do avivamento na Rua Azusa (1906), era um pastor metodista; o primeiro nome da Assembleia de Deus brasileira foi “Missão da Fé Apostólica”, aludindo ao trabalho liderado por Seymour (Apostolic Faith Mission); e a consolidação histórica da doutrina pentecostal passa pelos desenvolvimentos havidos no seio do gradiente holiness-metodista.

Em lugar de simples coincidência, trata-se de uma conexão histórica evidente e necessária, constituindo um fio que conduz a reflexões teológicas de grande valor sobre a ocorrência de efusões do Espírito na história da Igreja.

Veja-se o sumário deduzido por R. N. Champlin:[8]

Nos Estados Unidos da América do Norte, os historiadores eclesiásticos têm assinalado cinco “grandes colheitas”, a começar nos primórdios do século 18, e daí até dentro do século 20. Pode-se dizer que, a grosso modo, cada geração produz um grande evangelista que é a força principal por trás de tais movimentos. Por ordem cronológica, temos Salomão Stoddard (um pregador da Igreja Holandesa Reformada); George Whitefield; Jonathan Edwards (que foi neto de Stoddard). O segundo grande despertar ocorreu por Lyman Beecher e Nataniel W. Taylor, além de Charles Grandison Finney (falecido em 1875). Entrementes, através da influência de tais homens, várias denominações, como os congregacionais, os metodistas, os presbiterianos e os batistas estiveram intensamente envolvidas em reavivamentos locais, ao ponto de o fenômeno ter se tornado uma característica comum e muito enfatizada da vida eclesiástica. No século 19, literalmente centenas de revivalistas, procurando a salvação dos perdidos, e promovendo uma nova expressão espiritual entre os convertidos, moviam-se por toda a extensão do território norte-americano. Nos finais do século 19 apareceu o espetacular Dwight L. Moody; e, na segunda metade do século 20, apareceu William (Billy) F. Graham, o mais poderoso evangelista e revivalista do século 20.

O historiador Bruce L. Shelley opera uma interessante correlação entre a formação política dos Estados Unidos (“uma nova ordem dos séculos”, segundo os Pais Fundadores) e o “Grande Despertar” (o já citado “Primeiro Grande Despertamento”). Vale citar alguns trechos da obra de Shelley:[9]

Nenhum acontecimento marcou a nova ordem com mais clareza para o cristianismo do que a explosão religiosa que chamamos de Grande Despertar, o primeiro na longa história dos avivamentos americanos;

[…]

O Grande Despertar revelou-se crucial nessa nova ordem, uma vez que convenceu multidões de cristãos de que o voluntariado poderia funcionar e, após as primeiras ondas de êxtase do Espírito, muitos cristãos consideraram os avivamentos um dom de Deus para a criação de uma América cristã. Jonathan Edwards até pregou que a América seria o cenário do milênio vindouro!

Ampliando o raio geográfico, histórico e confessional, faltaria espaço para aludir a todos os avivamentos que marcaram a Igreja.

Franklin Ferreira[10] oferece uma síntese merecedora de registro, além de uma avaliação não menos considerável:

O fato é que a tradição cristã, desde os primórdios, tem experimentado “tempos de refrigério […] da presença do Senhor” (At 3.20). Na Idade Média podem ser citados o espantoso crescimento da ordem cisterciense na França, Alemanha, Inglaterra, Gales, Escócia, Irlanda, Espanha, Portugal e Itália, no século 12, e a impressionante influência dos Irmãos da Vida Comum na Holanda, Suíça, França e Alemanha, no século 15. A Reforma Protestante no século 16, o movimento puritano na Inglaterra, Escócia, Holanda e nas colônias americanas no século 17, o “Primeiro Grande Despertamento” nos Estados Unidos e o “Avivamento Evangélico” na Inglaterra no século 18, o ‘Segundo Grande Despertamento’ nos Estados Unidos e Grã-Bretanha no século 19 são exemplos de avivamentos experimentados pela Igreja cristã.

[…]

Esses relatos [sobre as experiências do presbiteriano John Livingstone, na Escócia do século 17; do luterano Erlo Stegen, na África do Sul do século 20; e do batista John Hammett nos Estados Unidos, também no século 20] ilustram o que é avivamento, a forma de Deus tratar seu povo de maneira familiar. Numa comunidade cristã em que a fé tenha sido avivada, homens e mulheres que creem em Jesus Cristo não apenas têm certeza de que Deus está presente, mas experimentam a presença poderosa dele por meio do Espírito Santo. Os exemplos históricos poderiam ser multiplicados, mas o mais importante é ressaltar que, durante um avivamento, Deus trata seu povo com familiaridade. Não se trata de uma certeza intelectual de que Deus está presente, uma vez que ele é onipresente, mas da segurança comprovada, que vem do Espírito de Deus, de que ele está entre seu povo, visitando-o com graça e poder [destaques acrescidos].

Na gama de eventos classificados como despertamentos em toda a trajetória da Igreja no mundo, alguns fenômenos recorrentes são relatados, como os que seguem (a) acentuado desejo de orar, louvar a Deus, exercitar a comunhão fraternal e participar das atividades da Igreja; (b) forte interesse por evangelismo e missões; (c) percepção clara, intensa e extraordinária dos atributos divinos (amor, justiça, poder, transcendência, santidade etc.); (d) distribuição de dons espirituais (profecia, glossolalia, interpretação de línguas, dons de curar, operação de maravilhas); (e) reações físicas e emocionais fora do comum; (f) espontaneidade, entusiasmo e serviço; (f) atuação destacada de personagens usados por Deus.

  1. Conceito bíblico-teológico de avivamento

É necessariamente nas Escrituras Sagradas que se deve buscar o conceito fundamental de avivamento.

O substantivo “avivamento”, largamente empregado como sinônimo de “despertamento”, “despertar”, “efusão”, “renovação”, “derramamento”, “reavivamento” ou “revivalismo”, está relacionado a recebimento de nova vida, vivificação, restauração, revigoramento.

Informações lexicais são fornecidas pelo Dicionário Bíblico Wycliffe:[11]

As duas palavras principais são o termo heb. haya, “viver, recobrar, vir à vida” (Qal, caule); “conservar vivo, vivificar, reavivar” (Pi’el); “fazer viver, voltar à vida, reavivar” (Hiph’il),[12] e o termo gr. anazao, “estar vivo novamente, vir à vida novamente, saltar para a vida, reavivar”.

Por não olvidar que o significado de um vocábulo depende sempre do seu contexto histórico e literário, é necessário verificar como, onde, por que motivo e para que finalidade os autores bíblicos mencionam alguma palavra relativa à vivificação.

Prestigiando esse princípio hermenêutico essencial, deve-se explorar a variegada soma de empregos de termos similares para que se possa compreender o sentido teológico que a história eclesiástica reconheceu ao conceito de avivamento.

Com essa questão em mente, confiram-se os dados oferecidos pelo Dicionário Bíblico Wycliffe[13] sobre como um termo traduzido por “reavivar”, a depender do contexto, pode estar relacionado a ressurreição e restauração espiritual e política, entre outros:

Na versão KJV em inglês, o termo ‘reavivar’ às vezes significa literalmente voltar da morte para a vida física, como no caso do filho da viúva (1Rs 17.22), do homem lançado no túmulo em que Eliseu estava sepultado (2Rs 13.21), e do Senhor Jesus Cristo (Rm 14.9). A palavra pode descrever a recuperação de alguém que está saindo da tristeza e do desânimo (como Jacó, Gênesis 45.27), ou da fraqueza física (como Sansão, Juízes 15.19). Em Romanos 7.9, ela fala de como o pecado reviveu em Paulo, quando o mandamento a respeito da cobiça o condenou.

Esdras agradeceu a Deus por conceder aos judeus ‘um pouco de vida’, uma restauração espiritual e política de sua escravidão e exílio na Babilônia (Ed 9.8, 9). Isso ocorreu em resposta às orações por um reavivamento nacional como nos Salmos 80.18 e 85.6, e na profecia de Oséias de que Deus iria reavivar seu povo quando o buscassem sinceramente e se voltassem a ele (Os 5.15-6.2; cf. 14.7). Na visão que Ezequiel teve dos ossos secos, a ressurreição nacional — isto é, o renascimento de Israel política e espiritualmente — é retratada pela reconstrução dos esqueletos humanos e então pelo sopro do Espírito neles para que “vivessem” (Ez 37.5, 9, 14; heb. haya). Habacuque roga que o Senhor reaviva sua obra de redenção nos próprios dias do profeta, assim como Deus havia demonstrado, muito tempo atrás, ao julgar o Egito e libertar Israel (Hc 3.2: cf. Sl 44.1-8; 77.12-15).

Em razão da pertinência das informações bíblicas constantes do Dicionário Bíblico Wycliffe,[14] seguem outros comentários nele contidos:

(1) Quanto ao uso do termo “vivificar” ou “reavivar”, entre outros, para designação de “reavivamento pessoal”:

As passagens que falam do reavivamento pessoal incluem aquelas que usam o termo “vivificar” na versão KJV em inglês frequentemente traduzido como “reavivar” em versões mais recentes. Davi suplica que o Senhor o reavive e tire sua alma da tribulação (Sl 143.1, e em um outro salmo ele expressa sua confiança de que Deus o reavivará (ou, o manterá vivo) e o salvará de seus inimigos (138.7). No Salmos 119, o salmista repetidamente pede ao Senhor para “vivificá-lo” ou “reavivá-lo”, de acordo com sua Palavra (v. 25, 107, 154; cf. v. 50, 93), em seus caminhos (v. 37), através de sua justiça (v. 40), de acordo com sua bondade (v. 88, 159), e de acordo com os seus juízos ou ordenanças (v. 149, 156). O Deus exaltado, eterno, santo e transcendente é aquele que se deleita em habitar com o homem quebrantado e humilhado de espírito, a fim de ‘vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos’ (Is 57.15). O choro do pai com relação ao seu filho pródigo é o epítome do reavivamento: ‘porque este meu filho estava morto e reviveu (gr. anazesen, Lc 15.24). Paulo exorta Timóteo a ‘reavivar’ ou ‘despertar’ o dom que Deus lhe havia dado (2Tm 1.6). Mas no Salmos 71.20, o crente de idade avançada parece além da mera esperança de um reavivamento quando expressa sua confiança de que Deus o restaurará: ‘Me darás ainda vida e me tirarás dos abismos da terra’; aqui a ressurreição da sepultura está em foco”.

(2) Quanto a avivamentos na Bíblia:

Além dos tempos periódicos de arrependimento na era dos juízes, pelo menos oito reavivamentos de larga escala são descritos no AT: o reavivamento no monte Sinai (Êx 32—34), o reavivamento em Mispa sob a liderança de Samuel (1Sm 7), o reavivamento no monte Carmelo (1Rs 18), o reavivamento em Judá durante o reinado de Asa (2Cr 15), o reavivamento em Nínive (Jn 3), o reavivamento liderado por Ezequias (2Cr 29—31), o reavivamento sob a liderança do rei Josias (2Cr 34—35) e o reavivamento pós-cativeiro (Ed 9—10; Ne 8—10). O NT registra como os primeiros cristãos em Jerusalém foram reavivados quando oraram pedindo ousadia, e todos foram cheios do Espírito Santo para testemunharem a respeito [da] ressurreição do Senhor Jesus (At 4.29-33). O pecado de Ananias e Safira foi soberanamente julgado, e nenhum dos incrédulos ousou associar-se aos cristãos, enquanto multidões estavam sendo salvas e curadas (5.1-16).

Além destes reavivamentos, grandes líderes espirituais destacaram-se, quer tenham sido instrumentos humanos ou produtos dos próprios reavivamentos.

(3) Quanto à atuação divina em avivamentos:

Os autênticos reavivamentos, de acordo com os padrões bíblicos, são uma obra soberana de Deus. Há sempre um elemento divino ou miraculoso neles (Êx 34.29-35; 1Sm 7.10; 1Rs 18.38; Jn 2.10; 2Cr 14.11, 12; 30.20; 34.14; Ne 8.10, 17; At 4.31; 5.5, 10). “Nenhum ser humano pode despertar o interesse, vivificar a consciência de um povo ou gerar aquela intensidade de fome espiritual a um reavivamento” (F. Carlton Booth, “Revival”, BDT, p. 460). Contudo, os grandes reavivamentos nunca são enviados de forma separada da oração, da intercessão e da confissão do pecado (Êx 32.30-32; 1Sm 7.5-9; 1Rs 18.36,37; Jn 3.5-9; 2Cr 34.26, 27; Ed 9.5-10.1; Ne 9.2,3). A palavra profética (2Cr 15.1-8) ou a palavra escrita (2Cr 34.18-21; Ne 8) são elementos vitais dos reavivamentos.

(4) Quanto ao importante tema dos efeitos dos avivamentos:

O reavivamento enviado por Deus produz uma revolução espiritual e um fervor emocional. Grande temor (At 5.11), pranto (Jl 2.12; Ed 10.1; Ne 8.9), ou alegria (2Cr 30.21-26; Ne 8.17) são, geralmente, juntamente com o canto (2Cr 29.30), os resultados de um reavivamento. Acima de tudo, há um retorno ao próprio Senhor, à justiça moral e a uma vida piedosa. O texto em 2Crônicas 7.14 permanece como a maior promessa de reavivamento da Palavra de Deus: “Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei sua terra”.

Tecnicamente, avivamentos são episódios de visitação poderosa de Deus sobre uma comunidade, uma região, um país.

Pode-se falar de uma “igreja avivada” em termos de busca perseverante das virtudes cristãs, mas, por definição, avivamentos são fatos pontuais, situados, datados, específicos. De modo geral, sente-se que algo sobrenatural está a ocorrer, por iniciativa do Espírito Santo, desdobrando-se em atitudes morais, reações físico-emocionais e fenômenos espirituais que tipificam o evento como especial.

Seja pela grave degeneração moral e espiritual, seja pela simples precariedade humana, fato é que o transcurso do tempo demonstra a carência de maior intensidade, sinceridade e zelo para com o Senhor. É verdadeiro pensar que o âmago das exortações cristãs consiste em procurar “vida com Deus”, sendo esta justamente a chamada “vida cristã”, gerada pelo Espírito e renovada por Ele mesmo (cf. Jo 1.4; 3.1-21; 4.10-14; Rm 6.1-11; 8.1-17; Ef 2.1-10; Cl 3.1-7; Tt 3.4, 5; 1Pe 1.3; 1Jo 3.9).

  1. A urgência do avivamento

O tema dos avivamentos oferece eventualmente um paradoxo que se sustenta, de um lado, na consciência da necessidade de uma vida mais agradável a Deus, e, de outro lado, no receio do que pode acontecer, principalmente se a pessoa houver conhecido exemplos negativos imputados a experiências de avivamento.

Se se quer efetivamente saber o que tem feito a mão de Deus, será necessário parar, escutar, ouvir, abrir o coração. Especificamente quanto a Asbury, até o momento são positivas e alvissareiras as notícias recebidas.

Para quem está confuso ou, pelo menos, desejoso de maior segurança quanto ao que ocorreu em Asbury, sugere-se pensar nas balizas oferecidas por John White[15] (1924-2002) no livro Quando o Espírito vem com poder.

Segundo White, é preciso avaliar os “frutos” e o “pomar”: os “frutos” consistem nos efeitos do movimento (transformação pessoal, interesse pela leitura da Bíblia, paixão pelas almas, disposição para evangelizar, ânimo para o serviço eclesiástico etc.); já o “pomar” é o cenário em que os frutos são produzidos (o tipo de pregação, os louvores, o ambiente do culto, a condução por parte do líder…).

É de inestimável grandeza consultar o otimismo fundamentado de D. Martyn Lloyd-Jones (1899-1981), pastor anglicano de linha puritana e evangélica cujo anseio pela extraordinária manifestação de Deus forneceu à Igreja uma das contribuições mais destacadas ao tema, como consta do seu formidável livro intitulado Avivamento.

Escrevendo em 1959, ao tratar da necessidade de avivamento, Lloyd-Jones[16] observou que a Igreja precisa fazer um diagnóstico de sua situação, a fim de entender qual o seu estado, quais os seus problemas e deficiências — em sua época, além da imoralidade crescente, o liberalismo teológico, regido pelo racionalismo do Homem Moderno, propunha uma visão cientificista, na qual a autoridade da Bíblia não teria lugar. Mais adiante, em sua abordagem das falsas soluções para contornar o dilema da Igreja, o ministro galês aponta a insuficiência da apologética, da arqueologia, dos meios de comunicação (em seus dias, televisão e rádio) e das técnicas de evangelismo pessoal. E, como forma de resolver o dilema moral e espiritual, Lloyd-Jones propõe a busca do poder de Deus.

Como ensina o teólogo pentecostal Paulo Romeiro[17] na palestra A espiritualidade pentecostal, movimentos religiosos passam por fases de inspiração, evangelização, organização, educação e estagnação.

A fase da inspiração seria caracterizada por entusiasmo, alegria, poder, convicção de uma nova identidade e propósito; a evangelização consiste na proclamação do que se recebeu do Senhor; adiante, a etapa de organização enseja a criação de ofícios e procedimentos que conferem estabilidade ao grupo; depois, a fase da educação surge com a produção de escritos e transmissão a novos discípulos; a estagnação, por sua vez, deveria chamar a atenção para a proposta bíblica de que se busque vida nova no próprio Deus.

Examinando a Era Apostólica, por meio de Atos dos Apóstolos e das Epístolas, é possível obter uma noção de como se desenrolaram as referidas etapas, aqui sumariadas para fins didáticos: (a) inspiração com o derramamento do Espírito Santo em At 2; (b) evangelização narrada no Livro de Atos dos Apóstolos e mencionada nas Cartas de Paulo; (c) organização representada pela instituição de presbíteros e diáconos, plantação de igrejas, primeiro concílio eclesiástico e socorro ordenado a pessoas carentes; (d) educação veiculada por Epístolas apostólicas; (e) estagnação com a paulatina incursão de falsos líderes, como os judaizantes, os gnósticos e os aproveitadores de todo gênero.

Pode-e afirmar que alguns grupos parecem se limitar à fase do entusiasmo inaugural, desconsiderando os bons frutos da organização ou da educação teológica. Desejando evitar a estagnação, podem se tornar místicos, fanáticos e extravagantes, recorrendo quiçá a fórmulas canhestras e até ridículas de reprodução do que seria, em sua concepção, o derramamento do poder de Deus, como se dá frequentemente em certas comunidades que a sociologia da religião insiste em denominar “neopentecostais”, possivelmente à falta de designação mais técnica e precisa.

Conclusão

Não pode ser negligenciado o fato de que o evento de Asbury é o primeiro caso amplamente noticiado de avivamento do século 21, o que, além de ensejar o compartilhamento dos fatos em tempo real, encarece a demanda por análises refletidas, numa época embebida em subjetivismo, intempestividade, superficialidade, espetacularização, fragmentação dos posicionamentos pessoais, religiosidade sem religião e prevalência da aparência sobre a substância.

Aproveitando-se a experiência norte-americana, é mais do que oportuno pensar sobre a urgente necessidade de avivamento em solo brasileiro, o que se mostra altissonantemente relevante por diversas razões, entre as quais podem ser mencionadas as seguintes:

(1) aumento, entre os evangélicos, do número de divórcios e crescimento de casos de desestruturação familiar;

(2) escândalos, entre os evangélicos, de natureza sexual, financeira e política;

(3) relaxamento doutrinário, apagando-se as convicções confessionais que asseguram limites à heresia;

(4) infiltração de teologias sócio-críticas e pós-modernistas em meio a instituições de ensino tidas por ortodoxas;

(5)  idolatria política, com distorcido entendimento da interação entre Igreja e Estado, Religião e Política;

(6) galopante imoralidade social, corrupção empresarial, institucional e cotidiana;

(7) exacerbação das divisões eclesiásticas e quantidade extraordinária de novos grupos que se nominam como “igrejas”, mas por motivos errôneos;

(8) constrangedor analfabetismo bíblico;

(9) arrogância espiritual;

(10) ênfase maior nos interesses eclesiásticos corporativos do que na promoção dos valores do reino de Deus;

(11) crescente perda de confiança na autoridade bíblica;

(12) fragilização da autoridade pastoral;

(13) disseminação de falsos dons espirituais, na forma de gestos e comportamentos que não encontram respaldo bíblico;

(14) confusão sobre a identidade evangélica;

(15) ampla falta de discernimento para avaliar o cenário eclesiástico nacional;

(16) avanço desavergonhado de pregações alegoristas, triunfalistas, espalhafatosas, infantilizantes e biblicamente débeis.

Outro aspecto digno de registro reside na maneira como crentes de igrejas históricas e de igrejas pentecostais lidam com a ideia de avivamento, o que passa por eventuais noções preconcebidas e impressões demasiado autocentradas.

Numa singela observação, não será impossível o leitor deparar com pentecostais que pensam ser o avivamento um monopólio do seu arraial, assim como alguns crentes de igrejas históricas talvez imaginem que o Movimento Pentecostal não possa ser caracterizado como genuína obra do Espírito.

Independentemente de qualquer ponto doutrinário-teológico que se possa discutir, é preciso ressaltar o fato de que todo cristão verdadeiro reconhece a indispensabilidade do poder de Deus: pentecostais, reformados, metodistas, luteranos…, todos os crentes que se entendem por conservadores da Sã Doutrina sabem que o poder de Deus é conditio sine qua non para a ação cristã no mundo (cf. Jo 15.5).

A Igreja brasileira carece de avivamento como quem se acha sequioso no deserto, demandando águas abundantes de refrigério (cf. Sl 23.2, 3; Is 44.3; At 3.19). Para isso, é imperioso buscar a face do Senhor em oração perseverante, fervorosa e sincera, semeando em justiça, a fim de que “chova a justiça sobre vós” (cf. Os 10.12; Mt 7.7-14; Lc 11.5-13; Rm 12.12; 1Ts 5.17).

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Referências bibliográficas:

CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia (São Paulo: Hagnos, 2014).

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: puma história ilustrada do cristianismo — a era das trevas (São Paulo: Edições Vida Nova, 1981).

GUSSO, Antônio Renato. Gramática instrumental do hebraico. 4. ed. (São Paulo: Edições Vida Nova, 2021).

LLOYD-JONES, D. Martyn. Avivamento (São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1993). Tradução de Inge Koenig.

PFEIFFER, Charles F. et al. Dicionário bíblico Wycliffe (Rio de Janeiro: CPAD, 2000).

SHELLEY, Bruce L. História do cristianismo: uma obra completa e atual sobre a trajetória da Igreja cristã desde as origens até o século XXI (Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018). Tradução de Giuliana Niedhardt.

WHITE, John. Quando o Espírito vem com poder: sinais e maravilhas entre o povo de Deus (São Paulo: ABU Editora: 1998).

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[1]Veja esta citação em https://www.christianitytoday.com/ct/2023/february-web-only/asbury-avivamento-universidade-metodista-espirito-santo-pt.html.

[2]Idem.

[3]https://pt.wikipedia.org/wiki/Avivamento_de_Asbury#cite_note-39, consultado em 14 de março de 2023.

[4]Justo L. González, em sua obra Uma história ilustrada do cristianismo, no V. III (p. 37), aponta como, entre os séculos 5 e 8, o monasticismo e o papado foram protagonistas de um processo histórico que permitiu a preservação da cultura antiga e a conversão dos bárbaros. Esta referência será importante para considerações ulteriores neste artigo, porque associadas à tensão entre estabilidade e autenticidade.

[5]https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/franklin-ferreira/avivamento-universidade-asbury/. Consultado em 17 de março de 2023.

[6]https://www.christianitytoday.com/ct/2023/february-web-only/asbury-avivamento-universidade-metodista-espirito-santo-pt.html. Consultado em 14 de março de 2023.

[7]Texto citado anteriormente.

[8]Champlin, p. 570.

[9]Shelley, p. 370-1.

[10]Idem.

[11]Pfeiffer et al, p. 1.650.

[12]Para os fins deste artigo, basta informar que Qal, Pi’el e Hiph’il são tempos dos verbos hebraicos na voz ativa, correspondendo, respectivamente, a aspectos de ação simples, de ação intensiva e de ação causativa (por exemplo, “governar”, “governar mesmo” e “fazer governar”. Mas esta é apenas uma nota singela. Explicações robustas e esclarecedoras podem ser encontradas na Gramática Instrumental do Hebraico Bíblico, de Antônio Renato Gusso, devidamente citada na seção própria.

[13]Pfeiffer et al, p. 1.650-1.

[14]Idem, p. 1.650-1.

[15]White, p. 89-90.

[16]Lloyd-Jones, p. 11-24.

[17] https://www.youtube.com/watch?v=MhVtS0KuWk8, consultado em 19 de março de 2023.

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