A disciplina dos sentimentos

Eu tenho muita dificuldade com isso”, disse o aluno. “Quer dizer, eu simplesmente não tenho certeza sobre como resolver isso de forma confortável”.

“Resolver isso de forma confortável?”, perguntou o professor de Bíblia. “O que isso tem a ver com a vontade de Deus?” A fraseologia pode ser nova (“sentir-se confortável” tornou-se terrivelmente importante), mas não há nada de novo sobre a relutância. Jesus tornou-a viva em sua parábola do homem que deu um grande jantar. Quando os convites saíram, as desculpas começaram a chegar: “Eu comprei algumas terras”. “Estou a caminho para experimentar o meu novo jugo de bois”. “Acabei de me casar”.[i] Incapazes de resolver as coisas confortavelmente, eles recusaram o convite.

Os sentimentos, assim como os pensamentos, devem ser levados cativos. Ninguém cuja primeira preocupação é sentir-se bem pode ser um discípulo. Somos chamados a carregar uma cruz e a glorificar a Deus. P. T. Forsyth observa que a fraqueza de muita religião popular se deve ao fato de termos virado ao contrário um dos princípios básicos de nossa fé, fazendo com que “o fim principal de Deus seja glorificar o homem”. As pessoas estão agindo por sugestão, e não por autoridade. Anos atrás, sete homens de Oxford escreveram um livro chamado Foundations [Fundamentos], que era uma tentativa de permitir que todo cristão acreditasse naquilo de que gostasse. Ronald Knox disse: “Eles corrigiram o ‘eu creio’ para ‘eu sinto que’”.

A história de Daniel fornece uma forte lição sobre a vitória de uma vontade dirigida por Deus sobre as emoções naturais. Daniel recebeu visão, percepção e profecia, mas sua compreensão veio a um tremendo custo. Ele teve de ser humilhado. O processo começou, como notamos anteriormente, por sua própria determinação de não se contaminar com a rica dieta do rei. Uma determinação não é um humor. A palavra não descreve os efeitos das circunstâncias sobre a psique. Não tem nada a ver com sentir-se confortável. É uma decisão da vontade, realizada sem levar em conta as emoções. Em jejum, segundo um hino latino do século VI, “Daniel treinou sua visão mística”.

Por causa do desempenho superior do dever, Daniel foi objeto de grande ódio e inveja. Seus rivais traçaram um plano para que ele fosse morto. Podemos adivinhar os sentimentos que ele experimentou enquanto sentia o ódio daqueles homens, enfrentava as possíveis consequências, tomava a decisão de vida ou morte de continuar suas orações ao seu Deus (“Não espere pelo desejo antes de realizar um ato virtuoso, pois razão e compreensão são suficientes”, escreveu São João da Cruz), era apreendido, levado perante o rei e sentenciado. Imagine aquela noite com os leões. Imagine ouvir a voz do rei aterrorizado enquanto ele chegava, tremendo, à cova na manhã seguinte e gritava: “Daniel, servo do Deus vivo! Dar-se-ia o caso que o teu Deus, a quem tu continuamente serves, tenha podido livrar-te dos leões?”[ii]

“Assim, foi tirado Daniel da cova, e nenhum dano se achou nele, porque crera no seu Deus”.

Daniel pagou um alto preço pelas revelações divinas que lhe foram dadas. Não foi um alto nível emocional que ele experimentou. Na verdade, ele escreveu que o espírito dentro de si estava “alarmado e perturbado” pela visão; “os meus pensamentos muito me perturbaram, e o meu rosto se empalideceu” […]. “Havendo eu, Daniel, tido a visão, procurei entendê-la […], “fiquei amedrontado […], enfraqueci e estive enfermo alguns dias; então, me levantei e tratei dos negócios do rei”.[iii]

“Alma perturbada, tu não és obrigada a sentir, mas és obrigada a se levantar”, escreveu George MacDonald.[iv]

O relato prossegue. Quando uma profecia a respeito dos reis da Pérsia foi dada a ele: Lhe custou muito trabalho entender a visão […] Fiquei, pois, eu só […] e não restou força em mim; o meu rosto mudou de cor e se desfigurou, e não retive força alguma […] caí sem sentidos, rosto em terra. Eis que certa mão me tocou, sacudiu-me e me pôs sobre os meus joelhos e as palmas das minhas mãos. Ele me disse: “Daniel, homem muito amado, está atento às palavras que te vou dizer; levanta-te sobre os pés, porque eis que te sou enviado” […] Eu me pus em pé, tremendo […] dirigi o olhar para a terra e calei.[v]

Daniel abriu a boca para falar, mas a força lhe faltou; não ficou nenhum fôlego dentro dele.

“Não tenha medo, homem muito amado; tudo ficará bem com você. Sê forte, sê forte”, foi a palavra do anjo para ele.

Existe um quadro mais vívido e poderoso em toda a Escritura de um homem, completamente humano, atormentado por paixões e medos; um homem de emoções profundas e perturbadoras que ainda se apegou fielmente a seu Deus e agiu por ele apesar da inclinação natural? Somente a imagem do próprio Cristo, o servo perfeito, supera a de Daniel. Está claro na história de Daniel que a compreensão não é barata e que as respostas à oração devem ser processadas, muitas vezes durante um longo período de tempo, exigindo uma resistência firme. Vale a pena parar um momento para refletir sobre o que o anjo disse. Não foi “eu sei como você se sente”, ou “você realmente teve uma vida dura, meu velho”, mas “não tenha medo. Seja forte”. O anjo o lembrou de duas coisas que são verdadeiras para o resto de nós: ele era muito amado e tudo ficaria bem. Da próxima vez que nossos sentimentos parecerem estar prestes a nos afogar, podemos pensar nessas coisas e ser fortes.

Minha amiga Katherine Morgan, de Pasto, Colômbia, escreveu:

Quando se pensa e usa o braço da fé para apoiar o próprio pensamento, então as obras de fé são produzidas. Concordo com você que os sentimentos não são confiáveis. O pensamento humano também não é digno de confiança, mas a fé, que nos faz pensar em direção ao céu, é produtiva, assim como a experiência de Ezequiel quando Deus lhe disse que sua esposa iria morrer. Ele fez o que lhe foi ordenado. Eu acho que você e eu tivemos essa experiência. Nossos sentimentos eram propícios à dúvida quanto às razões pelas quais nossos maridos foram levados, mas sabíamos, por dentro, que tínhamos que fazer o que o Senhor nos ordenara. Em minha opinião, não havia nenhuma virtude particular no que fizemos. Tínhamos recebido nossas ordens, e tínhamos que nos agarrar a elas e levar nossos sentimentos no bolso. Muitas vezes, meus sentimentos teriam me levado a jogar a toalha aqui em Pasto. Eu “sentia” que as pessoas não eram responsivas e estavam desinteressadas, e que o esforço era infrutífero. Eu “senti” tudo, menos o desejo de ficar aqui e trabalhar. No entanto, o plano de Deus tem que ser realizado. Essa é uma lição difícil de aprender, e muitas vezes leva uma vida inteira.

Mas é preciso ter a convicção de que Deus falou e depois é preciso se ocupar e executar o comando.

Eu vi como Katherine faz isso. Sua casa é um refúgio para uma surpreendente variedade de pessoas. Nunca há um momento em que ela não esteja dando abrigo, ajuda, comida, cuidados, conselhos, atenção, dinheiro, roupas e o que mais for necessário para doentes, loucos, pobres e até mesmo criminosos. Eles percorrem um caminho batido até a porta dela. Todos em Pasto conhecem a Señora Catalina. Todos que não sabem para onde mais recorrer, recorrem a ela.

“Missões” sempre significou, pelo menos na conotação cristã desse termo, não apenas o esforço para converter alguém à verdadeira fé, mas também a disposição espiritual do missionário: sua caridade ativa e sua doação ao “objeto” de sua tarefa missionária. De São Paulo a São Nicolau do Japão, não houve missão sem autoidentificação do missionário com aqueles a quem Deus os enviou, sem sacrifício de seus apegos pessoais e de seus valores naturais.[vi]

Tenho certeza de que Katherine Morgan valoriza tanto a privacidade e o sossego quanto eu. Elas estão entre as muitas coisas das quais Katherine renunciou alegremente. Digo isso porque ela nunca fala sobre essa renúncia como um sacrifício, nunca faz muito caso disso, o faz como uma questão natural, dia após dia, ano extenuante após ano extenuante. Ela não se preocupa em consultar seus sentimentos sobre o assunto.

As pessoas que fazem o trabalho real para Deus são, no entanto, pessoas com sentimentos reais. Em certa ocasião, durante a reconstrução do muro de Jerusalém, o povo comum levantou um grande alvoroço contra seus companheiros judeus sobre seus métodos de levantar dinheiro para comprar comida e pagar impostos. “Fiquei muito irritado quando ouvi o clamor deles e a história que eles contaram”, disse Neemias. “Eu dominei meus sentimentos e raciocinei com os nobres e magistrados. Eu disse: ‘O que vocês estão fazendo é errado’”.[vii] Note que dominar seus sentimentos não significava sorrir docemente e dizer “Está tudo bem. Vocês estão bem”.

De fato, o povo tinha feito mal em aceitar pessoas como penhoras de dívidas, e a ira de Neemias era justificada. Mas o calor gerado não contribuiria em nada para sua edificação. A ira precisava ser resfriada antes que ele pudesse raciocinar com os nobres e magistrados. Ele viu claramente qual era a questão, apesar dos argumentos a favor da prática, e declarou que ela estava errada.

A mente moderna confunde facilmente emoções e fatos. Se isso lhe trouxer uma sensação boa, faça-o! O que é bom, geralmente se supõe, deve nos fazer sentir bem. Por exemplo, se for a vontade de Deus, nós nos sentiremos bem com isso. Esse, porém, nem sempre é o caso. Jonas não tinha bons sentimentos em relação a ir a Nínive. Ele preferiu Jope e começou a ir nessa direção, para sua própria tristeza e a de seus companheiros de navio.

O apóstolo Paulo, que parece para muitos de nós o homem da Bíblia que mais controla seus sentimentos, teve que lembrar à multidão que ele ainda tinha sentimentos. Foi em Listra, quando ele havia ordenado a um aleijado que ficasse de pé, e o homem o fez. Isso convenceu as multidões de que os deuses tinham descido em forma humana. Eles chamaram Paulo e Barnabé de Mercúrio e Júpiter e estavam preparados para oferecer sacrifícios a eles. “Senhores, por que fazeis isto?”, gritou o apóstolo. “Nós também somos homens como vós, sujeitos aos mesmos sentimentos”.[viii]

Elias era um homem com sentimentos, assim como todos nós, mas quando ele orou sinceramente para que não chovesse, “não choveu sobre a terra durante três anos e meio”.[ix]

Não há nada na Bíblia que sugira que as pessoas verdadeiramente santas são aquelas sem sentimentos. O contrário é verdadeiro. Jesus era plenamente homem e totalmente sujeito às tentações humanas. Ele mostrou sentimentos profundos e ternos (tomando bebês em seus braços, chorando por Jerusalém e por seu amigo Lázaro), ira poderosa (quando virou as mesas dos cambistas de cabeça para baixo e os expulsou do templo com um chicote), e antes de seu verdadeiro sofrimento físico no momento da crucificação, ele estava em angústia de alma tanto na mesa da ceia quanto mais tarde, no Getsêmani.

 

Este artigo é um trecho adaptado e retirado do livro Uma vida de obediência, de Elisabeth Elliot, Editora Fiel.

 

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[i] Lucas 14.16-20

[ii] Daniel 6.20, 23.

[iii] Daniel 7.15, 28; 8.15, 17, 27.

[iv] George MacDonald, Unspoken Sermons (London: Longman’s, Green & Co.,1906).

[v] Daniel 10.1, tradução direta da versão New English Bible (NEB); 8-12, 15.

[vi] Alexander Schmemann, Church, World, Mission (Crestwood, NY: St. Vladimir’s, 1979), 124.

[vii] Neemias 5.6-7,9; tradução direta da versão NEB.

[viii] Atos 14.15.

[ix] Tiago 5.17.


Fonte: https://voltemosaoevangelho.com/blog/2024/06/a-disciplina-dos-sentimentos/

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