A igreja do metaverso pode dar passos à verdadeira ekklesia?

Apesar de recente, a era do metaverso, ambientes com múltiplas interações na realidade virtual aumentada ou mista, tem ganhado um novo espaço ao surgirem matérias que mostram igrejas virtuais.

Por esse motivo, este texto visa responder como o sentimento de descentralização, instigado por usuários do metaverso, pode ou consegue fazer com que as pessoas por trás dos avatares deem passos à compreensão da verdadeira adoração presente na reunião dos santos, a Igreja de Cristo Jesus.

O assunto sobre a descentralização de informação e dados ganhou uma nova página em 2008, na idealização do audacioso projeto conhecido hoje como Bitcoin[1], uma criptomoeda que carrega muitos conceitos da área de ciência computacional e de anseios antropológicos. Em paralelo, anos mais tarde a isso, o grande escândalo[2] da Meta (antigo Facebook) com o assunto sobre dados e informação de usuários começou a ganhar mais espaço com o público final. Também é nesse momento, meados de 2018, que a busca por maior segurança dos dados de usuários na internet recebeu avanços, até mesmo de cunho jurídico[3].

Nessa onda, usuários da internet passam a compreender que uma das melhores maneiras de se relacionar com os meios digitais é através do anonimato e da descentralização. Neste artigo, trataremos apenas da descentralização. Esse é o sentimento que impulsiona uma grande comunidade que percebeu como a centralização dos dados eram prejudiciais à segurança de qualquer usuário logado em uma plataforma de rede social. A partir desse momento, a dinâmica do avanço tecnológico nas vias da programação passaram a desenvolver um ecossistema que priorizaria mais tecnologias descentralizadas.

Para esses usuários, a descentralização é a forma de se manterem seguros e de não ter suas informações nas mãos de grandes corporações que as utilizam como moeda de troca e venda. A premissa da descentralização é o fator mais decisivo para o investimento em projetos no universo das criptomoedas, afinal, a liberdade financeira buscada por esses investidores é de conseguir movimentar e trabalhar seus recursos da forma que acharem melhor. Ao menor sinal de centralização de dados ou de gerência por parte dos projetos, derruba-se uma criptomoeda em 10% naquele dia ou em poucas horas.[4]

Como parte desse ecossistema descentralizado, um dos desenvolvimentos de aplicação para essa tecnologia são os chamados metaversos que, por vezes, podem ser ambientes visualmente oitentistas, mas com premissas descentralizadas e que incentivam a governança financeira por meio de bens digitais. Para isso, entrar em uma igreja no metaverso implica que você seja um usuário que pagou por algum ativo digital, o qual lhe deu acesso a esse ambiente, mas, antes de pagar por algo, a maior premissa é ainda que aquele é um ambiente descentralizado, que foi construído e é mantido por pessoas entusiastas do projeto, não por um grupo de gerentes que trabalham com colaboradores em algum formato CLT de contrato.

O que atrai um usuário do metaverso a participar de algo é o retorno que aquele ativo digital pode trazer e o quanto ele está familiarizado ou interessado em participar daquele ecossistema. Recebendo esses motivos como comuns, o que levaria alguém a participar de uma reunião online no metaverso onde seus criadores dão o nome ao ciberespaço de igreja? Como uma instituição, como a igreja, conhecida pela sua centralização do conteúdo na Bíblia, na governança de uma liderança, regida por um clérigo, pode atrair um investidor do mundo cripto? Como uma adoração centralizada pode aproximar amantes de um mundo descentralizado? Ou mais, é possível se achegar a uma igreja no metaverso e conseguir caminhar em direção a uma ekklēsia?

Essa é palavra usada para expressar a união de homens e mulheres por meio da mensagem do evangelho de Jesus Cristo. É este termo que “pode ser traduzido como ‘congregação’ e ‘assembleia’, mas na maioria das vezes é traduzido como ‘igreja’” (FERREIRA, 2007, p. 948). O que ressalta ainda mais esse aspecto centralizador é que a ekklēsia não é por si só detentora da verdade, existe uma relação de verdade centralizadora ainda maior que ela. Essa verdade maior, essa forma correta de se viver e de se relacionar é o próprio Cristo que junta para si “congregações locais (At 9.31; 15.41; Rm 16.4) ou comunidade dos redimidos, a igreja invisível e universal (1Co 1.2; 1Pe 2.9-10)” (FERREIRA, 2007, p. 948) e os ensina como toda a Escritura diz a respeito dele (Lucas 24.27).

Quando se observa o Antigo Testamento, há uma carga ainda mais centralizadora do que a ekklēsia do Novo Testamento. Deus, no Antigo Testamento, escolhe para si um povo. A centralização da verdadeira adoração acontece apenas por meio desse povo. O termo bíblico qahal “é a palavra que frequentemente descreve a assembleia do povo de Deus. O termo significa uma multidão ou grupo que se reúne especialmente para propósito religioso” (FERREIRA, 2007, p. 946). Ou seja, a única forma de se relacionar com Deus pelos aspectos do Antigo Testamento é sendo parte do qahal que fora estabelecido na nação de Israel.

Embora ekklēsia e qahal tenham aspectos muito semelhantes, a instituição de cada uma delas estão baseadas em centralização e descentralização. Para uma correta adoração e serviço era necessário fazer parte do povo com o qual Deus havia feito aliança com seus pais (Abraão, Isaque, Jacó e Moisés), no deserto ao Sinai. “Aquelas alianças significavam a inclusão ou pertencimento à nação” (FERREIRA, 2007, p. 948), uma centralização em um povo escolhido e que detinha a correta observação daquilo que Deus havia estabelecido como Lei. Já a descentralização que aparenta ocorrer no Novo Testamento deixa suas evidências ainda no Antigo Testamento quando “o profeta Jeremias previu uma aliança que só incluiria os regenerados (Jr 31.31-34)” (FERREIRA, 2007, p. 948).

Quanto a essas distinções, Franklin Ferreira elucida a história das duas alianças quando escreve:

Com o advento da nova aliança, aconteceram algumas mudanças na congregação do povo de Deus. Essas mudanças refletem as diferenças entre as alianças. No Antigo Testamento, para os judeus e para os gentios, a adoração era centralizada não apenas em Israel, mas em Jerusalém […] No Novo Testamento, a adoração é descentralizada. Em primeiro lugar, a igreja se tornou universal para todos os povos, existindo uma nova nação santa, uma comunidade espiritual (1Pe 2.9). Em segundo lugar, o culto ao Senhor não se restringe mais a Israel, a Jerusalém e ao templo. (2007, p. 950-951).

Os movimentos de centralização e descentralização jogam luzes no caminho ainda obscuro das igrejas no metaverso. Mesmo que exista um afã pelo conceito de descentralização no mundo virtual, há uma necessidade de compreender como o cristianismo atual é descentralizado em relação a sua própria história com Israel. Dessa maneira, é importante ressaltar alguns cuidados para que possa existir uma ponte real entre o metaverso e a ekklēsia: igrejas no metaverso precisam estar comprometidas com o contexto histórico e a cultura das Escrituras Sagradas.

É de extrema importância contar biblicamente como o Senhor Jeová fez um povo para si e a relevância que dá continuidade a essa história até os dias atuais. Faz-se necessário também um cuidado maior para não criar qualquer tipo de antissemitismo, algo que poderia ganhar mais força caso as Alianças sejam colocadas em contraste como velho e novo ou bem e mau. Ambas fazem parte de uma mesma história. Há urgência em levar o povo que se ajunta virtualmente a perceber que só se tornam uma verdadeira ekklēsia quando há a correta administração dos sacramentos, bem como a reunião física do corpo de Cristo. A descentralização da adoração, do sacerdócio de todos os cristãos e o ensinamento sobre os meios de graça devem ser inclusos no ensino, apontando não para a separação e o distanciamento, mas para a união que a ekklēsia exige dos seus membros participantes.

Entende-se então que há pontos de atenção e cuidado quanto ao enfoque do ensino sobre a centralização e descentralização no contexto de igreja e que é possível trilhar um caminho para que aqueles que estão apenas virtualmente conectados a um ambiente digital, possam, ao compreender a correta descentralização bíblica da ekklēsia do Novo Testamento, trilhar caminhos à verdadeira ekklēsia de Cristo Jesus.


BIBLIOGRAFIA

BERKOF, Louis, 1873-1957. Teologia Sistemática. 4ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

FERREIRA, Franklin e MYATT, Alan. Teologia sistemática: uma análise histórica, bíblica, e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.

 

[1] Bitcoin é uma criptomoeda livre e descentralizada, um dinheiro eletrônico para transações financeiras ponto a ponto (sem intermediários), com primeira citação no artigo descrevendo a implementação em 2008. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Bitcoin> Acesso em: 1 de jul, 2021.

[2] Escândalo sobre vazamento de dados Facebook–Cambridge Analytica. Disponível em:  <https://pt.wikipedia.org/wiki/Esc%C3%A2ndalo_de_dados_Facebook%E2%80%93Cambridge_Analytica> Acesso em: 1 jul, 2021.

[3] Criação da GDPR, Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados 2016/679. É um regulamento do direito europeu sobre privacidade e proteção de dados pessoais, aplicável a todos os indivíduos na União Europeia e Espaço Económico Europeu que foi criado em 2018. No Brasil foi criado a LGPD, Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais.

[4] Criptomoedas continuam existir nesse ecossistema por causa das premissas descentralizadas e ainda assim, algumas delas tem um bom programa de lançamento ao mercado, mas que por falhas acabam ruino, como foi o caso do Terra (LUNA). Disponível em: <https://cointelegraph.com.br/explained/the-rise-and-fall-of-earth-luna> Acesso em: 1 jul, 2021.

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