A Salvação como um Êxodo: saindo do Reino das Trevas | Diego dy Carlos

De Gênesis até Apocalipse, as Escrituras nos revelam o desdobramento do drama da salvação. Ela nos mostra como Deus, graciosamente, elaborou um belo plano para salvar os seres humanos da sua condição caída (Gênesis 3). A resposta definitiva de Deus para a condição humana é o clímax deste drama, a saber: Jesus Cristo.

Não importa em qual momento da história nos encontramos, tanto nós, quanto qualquer outro individuo que já pisou nesta terra, participamos deste grande drama da salvação. Ou seja, o significado do que Cristo realizou na cruz impacta diretamente na vida daqueles que respondem com fé a mensagem do Evangelho. Diante disso, como poderíamos compreender os resultados da obra de Cristo na vida do cristão?

O Novo Testamento usa uma variedade de imagens ou metáforas para descrever e explicar a obra de Cristo na cruz. Isso mostra que a sua obra redentora é tão vasta e significativa que não pode ser totalmente compreendida ou expressada por uma única imagem. Por consequência, é por isso que nos deparamos com uma ampla gama de figuras, onde cada uma destaca um aspecto daquilo que Cristo realizou. Em Colossenses, por exemplo, vemos o Apóstolo Paulo apresentando a obra do Filho como uma operação cósmica, isto é, com implicações que vão além do plano terreno no qual Deus resgata os indivíduos das trevas para o reino do seu filho (Colossenses 1.13). Essa ênfase paulina nos aspectos cósmicos da obra da redenção aponta para o cumprimento das profecias do Antigo Testamento sobre os fins dos tempos.

Mas o que tudo isso significa e quais as implicações para a nossa vida hoje? De outra forma, o que a mensagem da cruz pode nos ensinar e onde nos encontramos nesta grande história da salvação?

 

1. Contexto

Ao escrever a carta à igreja de colossos, o objetivo de Paulo foi de alertar e corrigir os crentes a respeito dos ensinamentos que estavam sendo propagados pelos falsos mestres. Esses ensinamentos visavam prejudicar a posição que eles tinham a respeito da divindade, do senhorio e da obra redentora de Cristo. Inclusive, essas distorções estavam afetando a compreensão da vida espiritual dos colossenses. Por consequência, surgia entre eles certa incerteza a respeito de como lidariam com um contexto cercado por influências malignas. Essa insegurança certamente produziria perguntas do tipo: será que estamos vulneráveis a essas forças malignas? Será que estamos à mercê do destino? Ou, qual seria o significado da obra de Cristo para nós, colossenses?

Diante disso, Paulo esclarece a obra de Cristo afirmando que na cruz uma nova era havia sido inaugurada (Colossenses 1.12-14). No entanto, o que seria esta nova era? Tendo em mente que o contexto da igreja de colosso era cercado por oradores que imputavam certas regras e rituais judaicos aos cristãos (Colossenses 2.16), surge o apóstolo dizendo que: “Estas coisas eram sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo” (Colossenses 2.17, NVI). Desta forma, Paulo visa tranquilizar aqueles irmãos, argumentando que as práticas antigas sugeridas pelos falsos mestres não vigoravam mais sobre eles, pois em Jesus, uma nova era havia sido inaugurada.

No entanto, embora uma nova história em Cristo tivesse sido inaugurada, isso não anularia a importância dos relatos do Antigo Testamento. Isso fica ainda mais evidente, quando observamos a linguagem adotada pelo apóstolo Paulo. Ao lermos a carta, é possível identificarmos as suas alusões ao episódio do Êxodo, em particular ao evento onde Deus resgatou o seu povo das mãos de Faraó e os conduziu rumo a terra prometida. Portanto, quando Paulo desenvolve o tema da redenção, ele estava interpretando como o “novo êxodo”. Mas o que isso quer dizer? Será que a linguagem usada pelo apóstolo de fato alude o relato da libertação do povo de Israel? Na próxima seção, analisaremos mais de perto.

 

2. A imagem do Êxodo na carta de Paulo aos colossenses

O primeiro ponto de destaque é a semelhança entre as palavras usadas pelo apóstolo Paulo (Cf. Colossenses 1.12-14) e as expressões usadas por Deus em seu anúncio feito a Moisés (Cf. Êxodo 6.6-8). De outra forma, Paulo fez uma descrição da obra de Jesus por meio de uma série de metáforas que certamente fomentaria na mente dos seus leitores certas lembranças do evento do êxodo. Três imagens são importantes para demonstrar a sua presença na carta de Paulo aos colossenses:

  • Herança (klērou, Colossenses 1.12; cf. Êxodo 6.8).
  • Libertação (ryomai, Colossenses 1.13; cf. Êxodo 6.6).
  • Redenção (apolytrōsis, Colossenses 1.14; Êxodo 6.6).

Ao interpretar a salvação como o novo êxodo, Paulo enfatiza não apenas a libertação individual e espiritual dos crentes, mas também a inauguração de uma nova era redentora em Cristo. Isso significa dizer que a luz dessas imagens, o apóstolo queria demonstrar que os cristãos se encontravam outrora “exilados” no reino das trevas e controlados por Satanás (cf. Atos 26.18). Todavia, Deus os teria resgatado e os transportado para o reino do seu filho Jesus (Colossenses 1.13), e, através do seu perdão, os tornado coherdeiros das suas promessas feitas a Israel, o povo original de Deus.

Embora as duas passagens (Colossenses e Êxodo) compartilhem de palavras semelhantes, é importante reconhecer que Paulo não estava necessariamente fazendo uma referência direta a um texto específico do Êxodo. Na verdade, este evento era um modelo tão importante na tradição do Antigo Testamento, que o povo de Israel acreditava piamente que ele se repetiria no futuro. Por consequência, houve uma generalização do termo no sentido de ser usada em qualquer contexto ou situação adversa. Com esta utilização excessiva, a imagem passou a sofrer certas mudanças e adaptações. Com isso, aqui cabe uma pergunta: quando Paulo utilizou a imagem do êxodo ele estava pensando no evento original ou em algum outro posterior?

O contexto da carta nos ajuda com a resposta principalmente quando percebemos que Paulo filtra a imagem com as lentes escatológicas (que trabalha os temas a respeito dos últimos dias) do profeta Isaías, sobretudo, dos capítulos 40–55. Ou seja, nesses capítulos observamos o profeta aludindo o evento original, mas aplicando em seu contexto de cativeiro Babilônico. Nesse sentido, para Isaías assim como Deus havia libertado o povo do Egito, da mesma forma, Ele restauraria o seu povo libertando-os das mãos dos Babilônicos.

 

3. A imagem do Êxodo no livro do profeta Isaías

Conforme vimos na parte final da seção anterior, Isaías aplicou o evento do êxodo para mostrar ao povo como Deus os libertariam do exilio babilônico. Isso aconteceu no ano de 538 a.C.. Os teólogos bíblicos reconheceram esta conexão e a definiram como “novo” ou “segundo” êxodo. Isto é, destacaram como o profeta havia considerado de forma paralela a ação de Deus diante de ambos os exílios. Especificamente em Isaías 40–55, encontramos diversas alusões do profeta ao evento original, incluindo:

  • A libertação do Egito (por exemplo, Isaías 51.9; 52.12; cf. Êxodo 13.21 e seguintes; 14.19 e seguintes; 43.16 e seguintes);
  • As promessas da terra (por exemplo, Isaías 49.9-12) e da fertilidade de Israel (por exemplo, Isaías 49.19-21; 54.1-3, cf. Gênesis 28);
  • A jornada pelo deserto (por exemplo, Isaías 40.3-5; 43.19; 48.21, cf. Êxodo 17.2-7; Números 20.8);
  • A reintegração na terra prometida (por exemplo, Isaías 49.8; 52.1).

Se por um lado, há entre os estudiosos, certa concordância no que se refere ao fato de Isaias ter usado o livro de êxodo, por outro, não há um consenso ao número de alusões que ele utilizou. Porém, há alguns versículos altamente recomendados e estritamente claros, como por exemplo: Isaías 43.16-21, 48.20-21, 51.9-11 e 52.11-12.

É importante destacar, que enquanto o profeta Isaías desenvolvia o tema do Êxodo como modelo da atuação de Deus em favor do seu povo, ele não tinha em mente uma aplicação literal. Pelo contrário, ele adaptou o evento ao seu contexto objetivando trazer uma mensagem de esperança e confiança em Deus enquanto o povo se encontrava no exilio Babilônico. É possível ver essas adaptações em pelo menos três formas relacionadas. Em primeiro lugar, Isaías o torna escatológico por natureza. Em Isaías 43.18-19, por exemplo, encontramos o profeta contrastando as “coisas antigas” com as “coisas novas”, o que nos leva a considerar, que ele provavelmente estava se referindo ao “primeiro êxodo” e ao “segundo êxodo” (cf. Isaías 50.2; 51.9-11). A seguir, ele também entende que o êxodo possui um aspecto universal. Ou seja, a intervenção de Deus não seria exclusivamente para os judeus, mas abrangeria o mundo inteiro, inclusive os gentios (vj. p. ex. Isaías 40.3-5; 42.4, 6-7; 49.6; 51.4-6; 52.10; 55.5). Por fim, ele redefine o conceito de povo de Deus. Isto significa que a comunidade do povo de Deus não estaria mais restrita a uma única nação ou grupo étnico, mas seria composta tanto por judeus quanto por gentios (p. ex. Isaías 49.6, 8; cf. 45.22-23).

 

4. A influência de Isaías no pensamento de Paulo

Quando examinamos com atenção a carta aos Colossenses, é possível perceber a influência do livro do profeta Isaías presente no pensamento paulino, sobretudo, no que se refere ao tema do êxodo. Isto é, há certa semelhança de ideias e aplicações. Por exemplo, quando Paulo associa “o perdão dos pecados” com a ideia de resgate, libertação e redenção, ele tem em mente as palavras do profeta que frequentemente falava sobre o perdão como parte da obra redentora de Deus (p. ex. Isaías 43.25; cf. Colossenses 1.14). A influência de Isaías se torna ainda mais significativo, quando percebemos que o conceito de perdão de pecados relacionado com a obra de salvação não é um tema muito explorado pelo apóstolo em suas cartas (ele cita apenas seis vezes, sendo que três se encontra em Colossenses: 1.4; 2.13; 3.13). Por isso, tanto em Isaías 40–55 quanto na carta de Colossenses encontramos uma definição de uma salvação universal ligada à imagem de um povo que está sendo liberto de um reino opressor, e, internamente, um movimento divino em favor do indivíduo perdoando-o dos seus pecados (cf. Isaías 44.22-24).

Em Colossenses 1.12-13, Paulo fala sobre indivíduos que eram transferidos do domínio das trevas para um reino de luz, se referindo, portanto, a uma imagem de uma libertação espiritual. No entanto, nos deparamos com esse mesmo movimento em Isaías 42.7,16 quando o profeta desenvolve a ideia de um Deus que abriria os olhos dos cegos e os conduziria do caminho de trevas para outro de luz. No segundo evangelho de Lucas, também vemos o impacto que o livro de Isaias teve no pensamento do Apóstolo. Ao descrever o seu ministério em Atos 26.18, como um servo de YHWH, Paulo estava fazendo uma alusão à passagem de Isaías 42.7,16. Por isso, ao notar o uso paulino do texto de Isaías 42.7,16 tanto em Colossenses 1.12-13 quanto em Atos 26.18, encontramos mais uma evidência da importância que o livro (especialmente Isaías 40–55) do profeta teve no ministério e pensamento de Paulo.

Mas há também no trecho de Colossenses 1.12-14 outra semelhança ligada ao tema da escatologia. Inclusive, esta é a ilustração mais importante, afinal, enquanto Paulo desenvolvia os seus argumentos sobre o processo da obra da salvação, certamente tinha em mente a imagem do “segundo êxodo”.

Com isso, o que significa falar sobre o “novo êxodo” a luz das contribuições de Paulo? Significa que para o apóstolo a salvação por meio de Jesus é o cumprimento da profecia registrada no livro de Isaías. Ou seja, o advento da obra de Cristo na cruz marca o início da tão esperada “nova era” outrora profetizada no Antigo Testamento (por exemplo, Isaías 43; 44.24–45.7; cf. 65.17–25). Inclusive, quando olhamos para os escritores do Novo Testamento, percebemos que eles acreditavam piamente que a obra da cruz não havia apenas cumprido as profecias, mas também inaugurado uma nova era que culminaria com a volta de Jesus, salvando o povo de uma vez por todas. É por isso que Paulo exorta os crentes de Colossos a não se incomodarem com as exigências pregadas pelos falsos mestres, exigências estas, presentes no Antigo Testamento, mas que tinha como função principal, apontar para o Messias e ser cumprida por ele (Colossenses 2.17; cf. Romanos 10.4).

 

5. Correlacionando o êxodo em Cristo

Aqueles que foram salvos por Cristo, experimentaram, nele, uma mudança radical tanto em seus corações (eles morreram e ressuscitaram com Cristo) quanto na esfera da existência (eles foram resgatados do reino das trevas e transplantados para o Reino de Cristo). A última fase escatológica foi inaugurada por Jesus e agora os cristãos vivem iluminados pela esperança de que ele voltará. As antigas leis bem como os hábitos e práticas do Antigo Testamento não são mais exigidos, pois todos foram suplantados pela obra da cruz (Colossenses 2.17).

 

Qual o lugar dos cristãos no plano da salvação?

Neste momento, destacaremos algumas implicações das interpretações que Paulo fez a respeito da obra de Cristo como cumprimento do “novo êxodo”.

Primeiramente, em Cristo, o conceito de povo de Deus é redefinido. Isto está ligado ao aspecto universal, ou seja, Isaías tinha profetizado que o Servo de YHWH traria a salvação para Israel e também para todas as nações (Isaías 53.10-13; cf. 49.5-6, 8). Inclusive está promessa de salvação universal havia sido dada por Deus a Abraão (v. Gênesis 12.1-3). Paulo também trabalhou esse assunto em outra passagem. Desta vez, ele citou um trecho do profeta Oséias para destacar como a obra de Jesus não apenas cumpriria as promessas feitas ao povo de Israel, mas também se estenderia aos gentios: “Chamarei “meu povo” a quem não é meu povo; e chamarei “minha amada” a quem não é minha amada” (Romanos 9.25; cf. Oséias 2.23). Paulo também definiu essa obra como um mistério (basicamente, significando “segredo”) que Deus revelou por meio de Cristo após a apresentação deste como o salvador dos gentios (Colossenses 1.26-27). Por fim, Paulo define o novo povo de Deus: como judeus e gentios que foram resgatados por Jesus do exilio espiritual.

Em segundo lugar, o povo de Deus não só ganhou uma nova definição, mas também uma nova comunidade. Os integrantes são todos àqueles a quem Deus reconciliou consigo por meio do sacrifício do seu Filho Jesus (Colossenses 1.20). No entanto, essa reconciliação não restaurou apenas o relacionamento do cristão com Deus, mas também dos cristãos entre si. Aqueles, que foram reconciliados por Ele, constituem agora “um só corpo”, que é a Igreja (Colossenses 1.18; 3.15) e uma “nova humanidade” que foi criada à imagem do seu Criador (Colossenses 3.10). Nestes termos, não há mais exclusividade étnica, pois “Cristo passa a ser tudo em todos” (Colossenses 3.11) e a consumação final, onde os cristãos estarão no novo céu e na nova terra, conforme foi profetizado em Isaías 61, se torna a grande esperança para o futuro. Finalmente, a obra da salvação não anula o compromisso da vida prática. O cristão precisa levar em consideração e reflexão o seu testemunho (Colossenses 3:1-4).

Por fim, a nova era do Messias inaugurada pela obra de Cristo na cruz é caracterizada pelo restabelecimento da paz (shalōm). Em Isaías 53.5,10 vemos que através da morte vicário do Servo de sofredor, Deus restabeleceria a sua paz com os homens, eliminando através da obra do seu filho, as suas transgressões. Na carta aos Colossenses, encontramos o desfecho, principalmente quando Paulo afirma que tudo havia sido cumprido em Cristo. Este, de fato, nos trouxe a paz reconciliadora, e, todo cristão que se encontrar Nele, poderá se relacionar com Deus (Colossenses 1.20). Assim, como o Servo sofredor de Isaías, Deus perdoou os pecados do seu povo e lhes deu a paz por meio do sangue do seu filho Jesus (cf. Colossenses 1.14; 2.13-14).

Portanto, o que aconteceu na cruz não foi apenas uma repetição do êxodo do Antigo Testamento, mas sim algo novo e definitivo. Aqui se inaugurou a nova criação (cf. 1 Coríntios 5.17) que aguarda pela consumação resultante da segunda vinda de Cristo. O ato salvífico de Deus em Cristo não foi apenas uma operação de resgate onde os crentes foram extraídos do reino das trevas. A sua ação foi seguida por uma “operação de realocação”, que consistiu em transferi-los para o reino do Filho que Ele ama (Colossenses 1.13). Sob o novo senhorio de Jesus Cristo, os cristãos agora são a comunidade messiânica, o novo povo de Deus, no qual a paz marca seu relacionamento com Deus e com os outros.

Diego dy Carlos Araújo é Ph.D em Estudos Bíblicos pelo London School of Theology, Reino Unido. É Escritor Associado na Tyndale House, Cambridge, Reino Unido, e professor-pesquisador no SETECEB na área de Novo Testamento com foco em Estudos Paulinos. É autor do livro Peacemaking through blood in Colossians, Mohr Siebeck, 2023 (no prelo). Diego é casado com Ana Paula Nunes.

 


Fonte: https://cruciforme.com.br/a-salvacao-como-um-exodo-saindo-do-reino-das-trevas/

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