O Espírito e a Escritura

Nota do Editor: Este artigo é um recurso selecionado para a Semana da Inerrância Bíblica do Ministério Fiel e Voltemos ao Evangelho, uma semana onde estivemos, juntos com a igreja verdadeira, proclamando a inerrância, suficiência e autoridade da Bíblia, que é a Palavra de Deus. Pedimos ao nosso colunista mais assíduo do blog, o Reverendo Hermisten Maia, para escrever sobre o assunto; ele então nos presenteou com mais uma de suas séries, trazendo profundidade ao tema! Desfrute e compartilhe destes conteúdos e tenha sua fé na inerrante Palavra de Deus fortalecida!


Como já vimos, a Bíblia tem apenas um Autor primário que é Deus. Deus é o único Autor das Escrituras. Tudo quanto Ele determinou que ficasse registrado assim permanece; nada de mais ou de menos.

Portanto, por mais bela que seja a Bíblia considerada literariamente,[1] sendo o livro de maior influência na formação na mentalidade ocidental, a sua origem está em Deus que falou por intermédio de homens que Ele mesmo separou para registrar a sua Palavra. Cremos que a Inspiração foi Plenária, Dinâmica, Verbal e Sobrenatural.[2] Vejamos isso:

1) Plenária

Porque toda a Escritura é plenamente expirada. De Gênesis ao Apocalipse, tudo o que foi registrado, o foi pela vontade de Deus (2Tm 3.16; 2Pe 1.20-21).

Machen (1881-1937) apresenta um precioso resumo desse tema relacionando-o com o próximo tópico:

Esta doutrina [da inspiração] significa que a Bíblia não é apenas um relato de coisas importantes, mas que o próprio relato é verdadeiro, tendo os escritores sido preservados de erros, a despeito de uma manutenção total de seus hábitos de pensamentos e expressão, que o Livro resultante é a “regra infalível de fé e prática”.

Essa doutrina da “inspiração plena” tem sido assunto de deturpação persistente. Seus oponentes falam dela como se envolvesse uma teoria mecânica da atividade do Espírito Santo. O Espírito, diz-se, é representado nesta doutrina como se tivesse ditado a Bíblia aos escritores, considerados realmente pouco mais do que estenógrafos. Mas, naturalmente, todas estas caricaturas não têm base de fato, e é surpreendente que homens inteligentes sejam tão obscurecidos pelo preconceito a ponto de nem mesmo examinarem, por si mesmos, as investigações perfeitamente acessíveis nas quais a doutrina da inspiração plena é apresentada. Normalmente se considera como uma boa prática, examinar algo por si mesmo antes de ecoar o ridículo vulgar deste algo. Mas, em conexão com a Bíblia, estas restrições sábias são consideradas, de algum modo, fora de lugar. É muito mais fácil contentar uma pessoa com uns poucos adjetivos ultrajantes como “mecânico” ou semelhantes. Por que engajar-se em um criticismo sério quando o povo prefere o ridículo? Por que atacar um oponente real quando é mais fácil derrubar um espantalho?

Na realidade, a doutrina da inspiração plena não nega a individualidade dos escritores bíblicos; ela não ignora o uso que fizeram de meios ordinários para a aquisição de informação; ela não envolve qualquer falta de interesse nas situações históricas que deram origem aos livros bíblicos. O que ela nega é a presença de erros na Bíblia. Ela supõe que o Espírito Santo informou as mentes dos escritores bíblicos de tal forma que eles foram impedidos de cometerem os erros que danificam todos os outros livros. A Bíblia pode conter um relato de uma revelação genuína de Deus e, mesmo assim, não conter um relato verdadeiro. Mas, de acordo com a doutrina da inspiração, o relato é, na realidade, um relato verdadeiro; a Bíblia é uma “regra infalível de fé e prática”.[3]

2) Dinâmica[4]

Porque Deus não anulou a personalidade dos escritores; por isso, inspirados por Deus, eles puderam usar de suas experiências, pesquisas, aptidões e manter o seu estilo (2Pe 3.15-16). Deus na realidade separou os seus servos antes deles nascerem e, os preparou para desempenharem esta função (Is 49.1,5; Jr 1.5; Gl 1.15-16).[5] A ação de Deus por meio de processos psicológicos penetrava a mente humana de tal modo que ela falava as suas palavras, expressando a vontade de Deus (Jr 1.9).[6]

A questão do caráter humano das Escrituras não é algo acidental ou periférico: os homens escolhidos por Deus para registrarem as Escrituras eram pessoas de carne e osso como nós, com personalidades diferentes, que viveram em determinado período histórico, enfrentando problemas específicos, dispondo de determinados conhecimentos, etc.[7] Aqui, sabe-se que não há lugar para nenhum docetismo:[8] Os autores secundários (humanos) tiveram um papel passivo e um papel ativo no registro da Escritura. Vejamos isso:

2.1 Papel Passivo

Eles foram inteiramente passivos no sentido de que não interferiram na ação de Deus em se revelar e, também, no fato de que não expressaram a sua natureza pecaminosa. Os escritores foram apenas instrumentos humanos por meio dos quais Deus decretou registrar a sua mensagem (2Pe 1.21; 2Tm 3.16). Eles falaram, todavia, somente à medida em que foram conduzidos pelo Espírito Santo. A Escritura não é maniqueísta: tendo de um lado a Palavra de Deus e, de outro, a palavra dos homens; a Bíblia é “exalada por Deus” em toda a sua extensão.[9]

2.3 Papel Ativo

Conforme já afirmamos, Deus não anulou a personalidade dos escritores; caso contrário, na Bíblia haveria apenas um único e inconfundível estilo, o estilo do Espírito Santo.

No entanto, quer por meio dos originais, quer por intermédio das traduções, é facilmente percebida a diferença entre os escritos de Moisés, Isaías, Amós, etc. Da mesma forma, são perceptíveis de modo claro as características próprias dos escritos de Paulo e de João, bem como as de Mateus, Marcos e Lucas. Portanto, podemos afirmar que, de certa forma, cada livro da Bíblia é fruto do estilo literário do seu autor humano (autor secundário).

Por isso, dentro da inspiração, há lugar para assuntos pessoais, como por exemplo a Epístola de Paulo a Filemon, e também há espaço para recomendações e preocupações específicas (cf. 1Tm 5.23; 2Tm 4.13).

Palmer (1922-1980), comentando esse assunto, escreve:

Deus permitiu que o amor de Davi pela natureza brilhasse em seus Salmos, que o conhecimento que Paulo tinha da literatura pagã se manifestasse em suas cartas, que os conhecimentos médicos de Lucas caracterizassem seus escritos, que a brusquidão de Marcos aparecesse em seu livro. Tanto é que Paulo escreveu em uma forma lógica, João o fez numa forma mais mística.[10]

Essa compreensão harmoniza-se perfeitamente com a soberania de Deus. Deus decretou e controlou os eventos, proporcionando as condições para que os seus servos se tornassem “naturalmente” aptos para a tarefa que ele mesmo lhes confiaria.[11] Na doutrina da inspiração vemos de forma nítida a providência de Deus, que revela o seu governo sobre todas as coisas.

Os escritores sagrados não foram obrigados a escrever algo que fosse contrário à sua vontade; nem Deus fez com que quem só soubesse o hebraico tivesse de escrever em grego. Deus usou as suas aptidões “naturais” de forma misteriosa, de tal modo que o produto final fosse o registro inerrante da Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, houvesse a expressão da individualidade de cada escritor.[12]

Calvino estava convicto de que os profetas não falaram aleatoriamente o que pensavam, antes, “testificaram a verdade de que era a boca do Senhor que falava através deles”.[13]

3) Verbal

Porque Deus se revelou por meio de Palavras e, todas as palavras dos autógrafos originais são Palavra de Deus (2Sm 23.2; Jr 1.9; Mt 5.18; 1Co 2.13). Em Gl 3.16, é interessante observar que Paulo baseia o seu argumento numa só palavra usada no original hebraico.[14] A inspiração se estende aos pensamentos bem como às palavras.[15]

4) Sobrenatural

Por ter sido originada em Deus e produzir efeitos sobrenaturais, mediante a ação do Espírito Santo, em todos aqueles que creem em Cristo. (Jo 17.17; Rm 10.17; Cl 1.3-6; 1Pe 1.23; 2Pe 1.20-21). É por intermédio da Palavra que Deus gera os seus filhos espirituais.[16]

A Bíblia não foi registrada apenas para a nossa satisfação espiritual; mas para que cumpramos os seus preceitos, dados pelo próprio Deus (Dt 29.29; Js 1.8; 2Tm 3.15,16; Tg 1.22). A Bíblia também não nos foi dada para satisfazer a nossa curiosidade pecaminosa (Dt 29.29), que em geral ocasiona especulações esdrúxulas e facções. Ela foi-nos concedida para que conheçamos o seu Autor e, O conhecendo O adoremos e, O adorando, mais O conheçamos (Os 6.3; 2Pe 3.18).[17]


[1]“O Cristianismo é a religião mais literária do mundo. Isso não deveria nos surpreender, visto que o livro sagrado do Cristianismo é uma obra inteiramente literária” (Leland Ryken, A Bíblia como literatura: In: Philip W. Comfort, ed. A Origem da Bíblia, Rio de Janeiro: CPAD, 1998, p. 157). Criswell (1909-2002) escreve: “No Livro Sagrado encontramos romance, como na história de Sara, de Rebeca, de Raquel e de Rute. Encontramos legislação, como nos incomparáveis preceitos de Moisés. Na história dos reis de Israel e de Judá e dos reinos do mundo, encontramos verdadeira história. E nela temos poesia real, como essa contida no lindo Salmo 23; e ainda encontramos provérbios e profecia. Um terço da Bíblia é profecia” (W.A. Criswell, A Bíblia para o Mundo de Hoje, Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1968, p. 32). Quanto à forma sistemática e contínua de Criswell expor as Escrituras e os efeitos colaterais em sua comunidade no Texas, veja-se: Timothy George, Lendo as Escrituras com os reformadores: como a Bíblia assumiu o papel central na Reforma religiosa do século XVI, São Paulo: Cultura Cristã, 2015, p. 192.

[2] Para uma visão panorâmica comparativa de diversas escolas de interpretação quando à inspiração das Escrituras, veja-se: Gordon R. Lewis; Bruce A. Demarest,  Integrative Theology, Grand Rapids, Mi.: Zondervan, 1987, v. 1, p. 131-171 (Para os nossos propósitos, p. 131-138)

[3]J. Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 78-79. Veja-se: R. Laird Harris, Inspiração e canonicidade da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 17.

[4]A inspiração é também chamada de “orgânica”, porque a Escritura pode ser comparada em certo sentido a um organismo, onde há uma interação harmoniosa de forças, havendo uma operação “concursiva” ou autoria confluente. Deus preparou os seus servos desde à eternidade, tornando-os “órgãos da inspiração”. “A interpretação adequada da inspiração bíblica é a orgânica, que salienta a forma servil da Escritura. A Bíblia é a Palavra de Deus em linguagem humana. A inspiração orgânica é inspiração ‘gráfica’, e é tolice distinguir pensamentos inspirados de palavras e letras inspiradas” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Prolegômena, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 389).  (Vejam-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 431ss.;  B.B. Warfield,  A Inspiração e a autoridade da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 67-68; Homer C. Hoeksema, The Doctrine of Scripture, Grand Rapids, Michigan: Reformed Free Publishing Association, 1990, p. 78ss.; Gordon R. Lewis; Bruce A. Demarest,  Integrative Theology, Grand Rapids, Mi.: Zondervan, 1987, v. 1, p. 135-138).

[5] Veja-se: L. Boettner, A Inspiração das Escrituras, Lisboa: Papelaria Fernandes, [s.d.], p. 30; B.B. Warfield, The Inspiration of the Bible: In: The Works of Benjamin B. Warfield, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1981, v. 1, p. 101.

[6] Cf. J.I. Packer, A suficiência da linguagem humana: In: Norman Geisler, org. A Inerrância Bíblica. São Paulo: Editora Vida, 2003,  [p. 233-268], p. 238.

[7]Encontramos uma abordagem útil e esclarecedora deste ponto em: Augustus Nicodemus Lopes, A Bíblia e Seus Intérpretes, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 23-29.

[8] Ver: Robert Laird Harris, Inspiração e Canonicidade da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 96.

[9] Vejam-se:  B.B. Warfield, The Inspiration of the Bible: In: The Works of Benjamin B. Warfield, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1981, v. 1, p. 101; Edwin H. Palmer, El Espiritu Santo, Gran Bretaña: El Estandarte de la Verdad, [s.d.], p. 58.

[10] E. Palmer, El Espiritu Santo, p. 59-50.

[11] Ver: Homer C. Hoeksema, The Doctrine of Scripture, p. 80ss.

[12] Ver: B.B. Warfield, The Inspiration of the Bible: In: The Works of Benjamin B. Warfield, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1981, v. 1, p. 101.

[13] João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 3.16), p. 262.

[14]Veja-se: L. Boettner, A Inspiração das Escrituras, Grand Rapids, Michigan: Reformed Free Publishing Association, 1990, p. 11

[15] Vejam-se: Cornelius Van Til, An Introduction to Systematic Theology, Phillipsburg, New Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1974, p. 152; J. Ligon Duncan III, A natureza, os benefícios e os efeitos da Escritura: In: John MacArthur, org., A Palavra inerrante,  São Paulo: Cultura Cristã, 2018, [p. 93-102], p. 98

[16] Veja-se: J.M. Boice, O Pregador e a Palavra de Deus: In: James M. Boice, ed. O Alicerce da Autoridade Bíblica, São Paulo: Vida Nova, 1982, p. 162.

[17]Veja-se: J. Calvino, As Institutas, I.5.10; Agostinho, Confissões, 9. ed. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1977, I.1.1. p. 27-28; J.I. Packer, O Conhecimento de Deus, São Paulo: Mundo Cristão, 1980, especialmente, p. 26-35.


Fonte: https://voltemosaoevangelho.com/blog/2024/05/o-espirito-e-a-escritura-capitulo-6/

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