O evangelho do “acredite em si mesma”

O ensino centrado no eu rastejou para dentro, montou acampamento e foi tão amplamente aceito que já nem sequer temos dificuldade com ele. O movimento “acredite em si mesma” é o junk food que percebo fazendo mais estragos hoje, por duas razões. Primeiro, ele é atraente. Somos naturalmente atraídas por nós mesmas. Em segundo lugar, ele é sutil e sorrateiro. O Faça Você Mesma está em voga em todas as áreas: reformas de casa, cursos online, cerimônias de casamento, ortodontia, diagnósticos e prescrições médicas. Por que não a espiritualidade ao estilo FVM?

O evangelho do “acredite em si mesma” está causando estragos na igreja, especialmente nos ministérios de mulheres. Esse falso evangelho diz que Deus quer que você seja feliz, que você é suficiente do jeito que você é, e que cabe a você alcançar isso dentro de si mesma para se tornar bem-sucedida e satisfeita.

Esse falso evangelho é o ‘batuque’ das jovens mulheres, profissionais, mães que trabalham, mães que ficam em casa e mães empreendedoras da atualidade. É um discurso motivacional agradável que damos a nós mesmas e umas às outras para conquistarmos mais um dia de faculdade, de vida solteira, de maternidade ou de vida de trabalho. “Apenas acredite em si mesma”, nós ensaiamos. Temos até essa frase pintada nos travesseiros, nas canecas e em camisetas fofas. Essa frase está escrita em lousas, em blogs e em feeds do Instagram. Ela está em todos os lugares.

O movimento “acredite em si mesma” nasceu de dois outros falsos evangelhos que se infiltraram na igreja nas últimas décadas. Essas duas “refeições com valor extra” se fundiram, fazendo um poderoso combo ao qual é difícil resistir.

O primeiro é o Deísmo Terapêutico Moralista (DTM), que foi cunhado pela primeira vez em 2005, quando os sociólogos Christian Smith e Melinda Lundquist Denton entrevistaram cerca de três mil adolescentes e registraram suas descobertas em seu livro Soul Searching: The Religious and Spiritual Lives of American Teenagers[i] [Pesquisa da alma: a vida  religiosa e espiritual de adolescentes americanos].

O DTM pode ser resumido da seguinte maneira: existe um deus e ele quer que sejamos felizes com nós mesmas e simpáticas com os outros. Ele só é necessário quando um desses valores é ameaçado. E todas as pessoas boas vão para o céu quando morrem. Preciso concordar com os pesquisadores que concluem que “uma parte significativa do cristianismo nos Estados Unidos é, na verdade, [apenas] tenuamente cristã em qualquer sentido que esteja seriamente ligada à tradição cristã histórica real, mas está, ao contrário, substancialmente transformada no infame primo-irmão do cristianismo, o Deísmo Terapêutico Moralista Cristão”.[ii]

Não só os cristãos individuais estão ingerindo uma dieta de DTM, mas a cristandade institucional na América também a está consumindo. Albert Mohler comenta sobre o estudo: “Essa distorção do cristianismo criou raízes não apenas na mente dos indivíduos, mas também ‘dentro das estruturas de pelo menos algumas organizações e instituições cristãs’”[iii].

Isso significa que nossas igrejas, assim como nossas escolas e faculdades cristãs, nossos estudos bíblicos comunitários e ministérios cristãos de bairros estão reforçando as falsas mensagens do DTM. Em múltiplos contextos, os cristãos estão ouvindo que Deus quer que você seja feliz e legal, que ele ficará fora do caminho a menos que precise chamá-lo para qualquer um desses objetivos, e que, desde que seja uma boa pessoa, irá para o céu quando morrer.

Isso soa como uma refeição que você comeu ultimamente? Ou uma que sua igreja ou seu livro de cabeceira têm servido?

Um segundo contribuinte para o movimento “acredite em si mesma” é o evangelho da prosperidade. Em sua forma mais básica, esse falso evangelho diz que você e eu podemos ser saudáveis e ricas se apenas tivermos fé suficiente. Você pode estar imaginando os exagerados pregadores de televisão que claramente se desviaram do ensinamento bíblico. Mas o evangelho da saúde e da riqueza é na verdade sutil e sinistro.

Isso emerge em uma crença não dita, mas amplamente difundida, de que Deus quer que eu seja feliz e bem-sucedida. Como filha dele, eu não deveria esperar sofrimento ou dificuldades nesta vida.

Mas esse falso ensinamento é contrário à Escritura. Jesus disse:

“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mt 16.24-26).

Apesar do que relatam as Escrituras, o ensino da prosperidade “pode parecer uma inferência necessária de alguns textos e ensinamentos cristãos, e pode ser absorvido das atitudes de outros em uma comunidade”.[iv] Quer a afirmemos ou não, muitas de nós estamos subsistindo do evangelho da saúde e da riqueza e influenciando outros a fazerem o mesmo na prática de nossa fé de fast-food.

Quebrando nosso vício em McLanche Feliz

O movimento “acredite em si mesma”, o crescimento do DTM e o evangelho da prosperidade são as refeições que provavelmente mais pediremos nos dias de hoje. Ela é perigosa porque parece boa, tem um gosto bom e contém um pedaço de verdade. É realmente bíblico dizer que você e eu fomos criadas por um Deus bom que nos fez à sua boa imagem e nos deu bons dons, aptidões e habilidades para trabalharmos arduamente a fim de realizamos muitas coisas enquanto estivermos aqui.

Mas esse pensamento se torna imediatamente falido quando confiamos em nós mesmas e nos voltamos para dentro de nós em busca de força. Ele passa a ser um falso evangelho porque é um evangelho interior. Na verdade, é uma forma de legalismo. Esperamos bênçãos baseadas em nossos próprios esforços autodidatas. Esperamos ganhar a nossa salvação cavando fundo e tentando mais arduamente. Ele diz “faça isso” e assim você “conseguirá aquilo”. É uma receita para nos comportarmos de determinada forma a fim de alcançarmos certos resultados.

Vemos esse tipo de pensamento destilado na tese de um livro recente e popular. O autor escreve: “Você, e somente você, é o responsável final por quem se torna e por quão feliz é”.[v]  Em vez de estar em Cristo, o foco está no eu. Quando sucumbimos a esse paradigma, somos obrigadas a ser nossas próprias salvadoras.

Minha amiga Steph recentemente expôs os estilhaços desse falso ensinamento. Steph tem dois filhos pequenos e está no meio de uma época esgotante da vida da qual me lembro bem. É a estação em que um estirão de cinco horas de sono parece uma hibernação de inverno e uma ida sozinha ao shopping parece um dia no spa. Steph veio cansada e sobrecarregada para estudar a Bíblia em minha casa. Ela não conseguia conter as lágrimas.

Reagindo às mensagens de texto de seus amigos que acreditavam que ela precisava fazer mais para se sentir feliz, Steph disse: “Isso me deixa péssima. Isso me faz sentir como se tivesse que fazer tudo acontecer. Não consigo viver à altura do que minhas amigas estão me dizendo para fazer. Ainda nem tomei banho essa semana”.

Você, eu e Steph nunca seremos resgatadas por causa do nosso bom comportamento. Nunca seremos capazes de escrever nossa própria felicidade. A alegria duradoura vem de Jesus, não de dentro. Como diz o autor e pastor Jared Wilson: “A essência da mensagem cristã não é ‘comporte-se’, mas ‘contemple!’”.

O cerne do junk food espiritual é que ele nos diz como nos comportarmos em vez de nos chamar para contemplar. Contemplar quem? Jesus. Desvios do cristianismo bíblico podem ser detectados quando nos é dito para voltarmos nossas práticas e hábitos para dentro de nós mesmas, em vez de nos voltarmos para fora, para o nosso maravilhoso Salvador.

 

 

Artigo adaptado do livro Que Eu Diminua, de Jen Oshman. Publicado pela Editora Fiel.

Para se aprofundar neste assunto, recomendamos a palestra “A idolatria do ego”, por Renata Gandolfo, disponível no Youtube do Ministério Fiel.


[i] Christian Smith and Melina Lundquist Denton, Soul Searching: The Religious and Spiritual Lives of American Teenagers (New York: Oxford University Press, 2005).

[ii] Smith and Denton, conforme citado em Albert Mohler, “Moralistic Therapeutic Deism—the New American Religion,” 11 de abril de 2005, website Albert Mohler, https://albertmohler.com/2005/04/11/moralistic-therapeutic-deism-the-new-american-religion-2/.

[iii] Mohler, “Moralistic Therapeutic Deism.”

[iv] Timothy Keller, Making Sense of God: Finding God in the Modern World (New York: Penguin, 2016), 51.

[v] Rachel Hollis, Girl, Wash Your Face: Stop Believing the Lies About Who You Are So You Can Become Who You Were Meant to Be (Nashville: Nelson Books, 2018), xi.


Fonte: https://voltemosaoevangelho.com/blog/2024/05/o-evangelho-do-acredite-em-si-mesma/

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