O êxodo bíblico e a magia da escrita na perspectiva de Gerald Wheeler: uma tentativa de responder ao problema da ausência de evidência

Introdução[1]

De acordo com a maioria dos egiptólogos e historiadores não há qualquer evidência do êxodo dos hebreus em documentos egípcios, o que os leva a concluir que toda a narrativa bíblica é um mito.[2] Para esses estudiosos essa história contada na Torá deve ser considerada como uma mitologia nacional sem mais base histórica do que a saga homérica das viagens de Ulisses ou a saga de Virgílio sobre a fundação de Roma.[3] Mas, é importante destacar que não há consenso entre os estudiosos sobre esse assunto. Na verdade os historiadores são notórios por discordarem uns dos outros sobre quase tudo.[4] Assim, alguns concluíram que a falta de evidências arqueológicas e escritas indicam que o êxodo descrito na bíblia nunca ocorreu.[5] Outros conjecturam que os escritores bíblicos não teriam inventado as origens de Israel na escravidão, e, portanto, o êxodo deve ter alguma base histórica:[6] a falta de registros históricos pode ser simplesmente o resultado da preservação aleatória. O clima seco do Egito não garantiria que tudo sobreviveria. Além disso, incêndios, guerras, acidentes e outros fatores podem ter causado a perda de alguns documentos. [7] Também foi sugerido que os egípcios ignoraram os hebreus por não os considerar importantes.[8] Outros estudiosos viram o silêncio dos egípcios como deliberado, isto é, decorrente de motivações propagandísticas. Porém, como observou Gerald Wheeler, o silêncio em relação ao êxodo bíblico pode ter relação com dois aspectos da cultura egípcia, um que envolveu o propósito de inscrições monumentais e o outro a forma como os egípcios viam a própria natureza da escrita.  Esta pesquisa sugerirá que esses dois aspectos podem ter sido os responsáveis pelos egípcios não terem feito qualquer referência histórica ao êxodo bíblico.

1. Israel em fontes extrabíblicas

A menção mais antiga de Israel num texto extrabíblico foi encontrada no Egito, na estela que descreve a campanha do faraó Meneptah – o filho de Ramsés II – em Canaã, no final do século XIII a.C.[9] A inscrição relata uma destrutiva campanha militar egípcia naquela região, durante a qual um povo chamado Israel foi dizimado ao ponto de faraó se vangloriar de ter destruído a semente de Israel.[10] Algum grupo conhecido como Israel estava em Canaã naquele período: “dúzias de povoados relacionados com os antigos israelitas apareceram na região montanhosa de Canaã na mesma época”.[11] A expressão “hebreu” como um termo que se refere a um povo vai muito mais para trás para se referir a uma classe ou tipo de pessoa.[12] Termos relacionados aparecem em textos sumérios, assírio-babilônicos e egípcios nas formas “SA.GAZ”, “Hapiru” e ”Apiru”, referindo-se  a indivíduos e grupos que não foram aceitos dentro das estruturas políticas de alianças patronais e lealdades que governavam a sociedade: “esses ‘hebreus’ eram literal e figurativamente ‘foras da lei’, não muito diferentes de personagens lendários na história como o Davi de I-II Samuel ou o Abraão de Gênesis 12 e 14, onde são chamados de hebreus”.[13]

1.1. Datação

O êxodo dos hebreus tem sido fonte de controvérsia durante muitos anos, diferentes grupos de estudiosos debateram tanto a sua historicidade quanto a sua data.[14] A cronologia bíblica em 1 Reis 6.1 afirma que o êxodo ocorreu 480 anos antes do rei Salomão começar a construir o Templo em Jerusalém. Os estudiosos que estudam as cronologias bíblicas sugerem a data aproximada do início da construção do Templo entre os anos de 960 a.C. a 1012 a.C., esse intervalo colocaria o êxodo entre 1440 e 1491 a.C., durante o século XV a.C. [15] O problema surge quando os egiptólogos consideram os governantes que presidiram o Egito neste período. [16] Segundo alguns estudiosos, se houve um êxodo histórico deve ter ocorrido no final do século XIII a.C. [17]

1.2. O êxodo com poucas pessoas

No Livro de êxodo lemos que o número de israelitas que saíram do Egito foi de cerca de 600 mil homens a pé, sem contar mulheres e crianças.[18] Isso sugere que o número de hebreus que saíram do Egito pode ter passado de dois milhões de pessoas. Mas, as pesquisas históricas e a falta de evidências não comportam um êxodo com essa multidão. Na verdade as pesquisas têm sugerido um panorama diferente do apresentado na bíblia. Por exemplo, não se pensa em numa multidão, mas em israelitas emergindo de modo gradual como um grupo distinto de Canaã no final do século XIII a.C. [19] Mas, Richard Elliott Friedman sublinhou: “poucos de nós pensaram que esse número fosse histórico de qualquer maneira”.[20] Ele também observou que não há evidências arqueológicas contra a historicidade do êxodo, se foi um grupo menor que deixou o Egito: [21] “(…) a primeira menção bíblica do êxodo, o Cântico de Miriam, que é o texto mais antigo da Bíblia, nunca menciona quantas pessoas estiveram envolvidas no êxodo, e nunca fala de toda a nação de Israel”. [22]  Para esse autor, as alegações de alguns arqueólogos de que o êxodo nunca aconteceu não se baseiam em evidências, mas em grande parte em sua ausência.[23]

 1.3. A ocupação

Já foi defendido que o Livro de Josué era composto das mesmas quatro fontes que encontramos no Pentateuco, a saber: J, E, D e P, E: esses quatro documentos concordavam que as doze tribos entraram em Canaã juntas pelo oriente, sob o comando de Josué, que derrotou as coalizões dos reis cananeus tanto no sul quanto no norte.[24] D e P acrescentam que ele capturou todas as cidades da terra, e deu essas cidades às tribos de Israel.[25] J e E não registram conquistas tão extensas, e em várias passagens J afirma que não foram conquistadas as cidades que D e P afirmam terem sido tomadas por Josué; J também diz que várias cidades foram tomadas por outras pessoas que não Josué.[26] J e E também concordam que os cananeus não foram aniquilados: D e P. J nos dizem que os cananeus ainda “habitam no meio de Israel até hoje”; e na legislação de J (Ex. 34 11-13) é assumido que eles ainda são uma ameaça. [27] O documento E diz o seguinte sobre os cananeus: “não os expulsarei de diante de ti em um ano, para que a terra não fique desolada, e os animais do campo se multipliquem contra ti (…)”.[28] Já no livro de Juízes conhecemos uma relato da conquista diferente: vimos às tribos conquistando seus territórios separadamente, ou no máximo em pares, e não considera os cananeus exterminados, mas retendo todas as cidades importantes. [29]

 1.3. 1. As teorias

Três teorias foram apresentadas numa tentativa de explicar a ocupação de Canaã. Pensou-se em uma conquista única; em uma infiltração; e ainda em uma revolta camponesa.[30] Embora existam variações essas três teorias parecem ser representativas dos argumentos centrais das demais teorias.[31] Os proponentes da teoria da conquista, aceitaram o livro de Josué como base histórica, e os dados arqueológicos são usados ​​para apoiar o relato de Josué sobre a ocupação da terra.[32]

A teoria da infiltração pacífica é baseada principalmente na crítica de texto e declarações em várias partes do Antigo Testamento que se referem a povos migratórios indo e vindo em uma base bastante rotineira.[33] Nessa perspectiva certos elementos nos livros de Crônicas, Samuel e Reis foram lidos como apoio à narrativa de Juízes enquanto interpretava os mesmos elementos como refutando a narrativa de Josué. [34]

A teoria do levante camponês pode ser considerada uma extensão da teoria da infiltração, pois requer a inserção das tribos israelitas como pré-condição.[35] Sugeriu-se que as tribos estivessem presentes por toda a terra, mas posicionadas na base da escala socioeconômica como camponeses.[36] Eventualmente, a população camponesa, tanto os israelitas quanto os cananeus, rebelaram-se por razões desconhecidas e afastaram seus opressores, isto é, a classe dominante.[37] Desta forma, a sociedade hebraica superou a sociedade cananéia por dentro. [38] Os cananeus sobreviventes foram simplesmente assimilados à sociedade israelita. [39]

1.4. O êxodo como mito

A fronteira entre Canaã e o Egito era estritamente controlada.[40] E, se uma grande massa de israelitas fugitivos tivesse passado pelas fortificações de fronteira no regime faraônico deveria existir algum registro.[41] Porém, as abundantes fontes egípcias que descrevem a época do Novo Império em geral, e o século XIII em particular, não fazem referência aos israelitas, e nem mesmo dão uma única pista.[42] A estela de Meneptah se refere a Israel como um grupo de pessoas que já viviam em Canaã:[43]

 (…) Israel inexiste como possível inimigo do Egito, como amigo ou como nação escravizada (…). Não há achados no Egito que possam ser diretamente associados à noção de um grupo étnico estrangeiro distinto (em oposição a uma concentração de trabalhadores migrantes de muitos lugares) vivendo em uma área distinta do Delta oriental, como está implícito no relato bíblico dos filhos de Israel vivendo juntos na Terra de Gósen

Como os egípcios deixaram registros escritos tão extensos, seria de esperar alguma alusão ao incidente. Porém, nenhum aparece. [44] Richard Elliott Friedman reconheceu em uma entrevista que um êxodo com dois milhões de pessoas deveria realmente ter deixado alguns vestígios. [45] Além disso, embora o livro bíblico de Êxodo descreva com grande detalhe as calamidades que os egípcios sofreram durante o evento, os registros egípcios não fazem menção aberta sobre esses eventos.[46] Devido à falta de inscrições egípcias que mencionam o êxodo, durante o século XV a.C., alguns estudiosos declararam o evento como um mito ou uma invenção.[47]Em outras palavras, o êxodo nunca ocorreu. [48] Tem sido assumido que a história de Jacó, que lutou com Deus, e que foi o pai de doze filhos, é ficção, baseada na suposta existência de Israel em suas doze tribos:[49] “poucos estudiosos bíblicos duvidariam disso hoje”. De acordo com alguns autores, a linha principal da história de Gênesis-Josué, isto é, a entrada no Egito, o êxodo, coleções completas de leis e o deserto é uma construção literária artificial.[50] Eles também defendem que os escritores do antigo Israel sabiam pouco ou nada sobre a origem de Israel, sobre o êxodo, a conquista, e o período dos Juízes.[51] Aliás, acredita-se que esses períodos nunca existiram.[52] O Israel da bíblia está em nítido contraste com o Israel conhecido dos textos antigos e do trabalho de campo arqueológico.[53]

1.5.  A arqueologia

David Wolpe, o rabino sênior do Templo Sinai em Westwood – Los Angeles, a principal sinagoga conservadora na Costa Oeste, em uma manhã de Páscoa, quando 2.200 pessoas vieram ouvir a Torá, fez a seguinte colocação sobre o êxodo:[54] “a verdade é que praticamente todos os arqueólogos modernos que investigaram a história do êxodo, com poucas exceções, concordam que a maneira como a Bíblia o descreve, não é como realmente aconteceu, se é que aconteceu”. De acordo com alguns estudiosos a evidência de uma conquista histórica de Canaã é fraca.[55] Na verdade assim como acontece com a história do êxodo, a arqueologia descobriu uma discrepância considerável entre a Bíblia e a situação dentro de Canaã na data sugerida da conquista entre 1230 e 1220 a.C.[56] Embora se saiba que um grupo chamado Israel já estava presente em algum lugar de Canaã por volta de 1207 a.C, “as evidências sobre o cenário político e militar geral de Canaã sugerem que uma invasão relâmpago por esse grupo teria sido impraticável e improvável ao extremo”.[57] As descobertas arqueológicas manifestaram um acentuado desacordo com as narrativas bíblicas sobre a ocupação e conquista de Canaã.[58] Por exemplo, descobriu-se que as cidades de Canaã não eram fortificadas e não havia muros que pudessem desmoronar.[59] Aliás, no caso de Jericó, não havia vestígios de qualquer tipo de assentamento no século XIII a.C., e o antigo assentamento de Bronze tardio, datado do século XIV a.C., era pequeno e pobre, quase insignificante e não fortificado. [60] Então temos uma pergunta, as histórias da escravidão, êxodo e da conquista como descritas na bíblia não aconteceram?  Para alguns autores os escritores bíblicos não teriam inventado as origens de Israel na escravidão, e, portanto, supõem que o êxodo deve ter alguma base histórica: “não é o tipo de tradição que qualquer povo inventaria!”[61]A falta de registros históricos pode ser simplesmente o resultado da preservação aleatória.[62] Mesmo o clima seco do Egito não garantiria que tudo sobreviveria. Além disso, incêndios, guerras, acidentes, e outros fatores também poderiam ser a causa da extinção de documentos importantes. [63]

  1. A cultura egípcia e o silêncio

O êxodo foi retratado na bíblia como um evento que devastou os egípcios. No entanto, não existem evidências de que o antigo Egito tenha feito qualquer referência histórica a esse evento.[64]O que há é um silêncio absurdo. Mas, Gerald Wheeler comentou que tal silêncio não deveria nos surpreender por causa de certos aspectos da cultura egípcia: “um envolve o propósito de inscrições monumentais e outro a forma como os egípcios viam a própria natureza da escrita”. [65]

2.1. A propaganda

Wheeler escreveu que os monarcas egípcios nunca foram dados a registrar derrotas e desastres, “e certamente não o fariam em relação a uma perda de uma brigada de carruagens durante a perseguição de escravos fugitivos”.[66] Os antigos egípcios queriam colocar a melhor face em tudo o que acontecia. [67] Um exemplo frequentemente citado é o encontro de Ramsés com os hititas em Qadesh, no rio Orontes.[68] O exército hitita esperando na emboscada permitiu que a primeira divisão passasse, depois atacou a segunda divisão enquanto a terceira ainda lutava pelo vau de Shabtuna.[69] Os soldados de faraó começaram a fugir do ataque e o governante egípcio quase foi capturado. Ramsés procurou a ajuda do deus egípcio Amon, e, então reuniu suas tropas e abriu caminho através das forças hititas. No dia seguinte, o líder hitita Muwatdlis enviou um emissário pedindo uma trégua.[70] Aparentemente considerando-o o ponto alto militar de seu reinado, Ramsés teve a batalha registrada nas paredes de muitos de seus templos, incluindo Abidos, Karnak, Luxor, Ramesseum e Abu Simel. [71] Relatos também sobreviveram em papiro, tornando-o o incidente militar mais bem documentado da história egípcia. [72] Mas, os estudiosos modernos veem a batalha de Qadesh sob uma luz bem diferente. Em vez de uma vitória, Ramsés fez pouco mais do que libertar seu exército. [73] Apenas a chegada oportuna de mais de suas tropas o salvou. [74] A batalha recomeçou no dia seguinte, mas terminou em impasse. [75] Ramsés se recusou a fazer um tratado com os hititas, e assim que os egípcios saíram, os hititas recuperaram o controle da região e empurraram a área de influência egípcia de volta para Canaã. [76] Eventualmente, Ramsés teve que fazer um tratado de não agressão com o novo rei hitita, Hattusilis, para que as duas nações pudessem combater a crescente ameaça do império assírio liderado por Salmaneser I. [77] Assim, portanto, o que Ramsés retratou como um grande triunfo foi provavelmente pouco mais do que um empate militar.[78] Alguns autores reconhecendo a natureza propagandista dos registros egípcios destacaram que a falta de qualquer menção egípcia explícita de um êxodo não tem importância histórica, dado seu papel desfavorável no Egito e a perda quase total de todos os registros relevantes em qualquer caso. [79] Porém, o silêncio egípcio em relação ao êxodo pode ter uma razão mais complexa. [80]

2.2. O objetivo das inscrições

De acordo com Gerald Wheeler não poderíamos encontrar um evento como o êxodo registrado em inscrições monumentais no Egito.[81] Isso porque os faraós usavam inscrições no templo para lembrar ao deus particular do templo que eles haviam governado com sabedoria e justiça em favor da divindade.[82] Tais registros ajudariam o rei egípcio quando enfrentasse o julgamento na vida após a morte, demonstrando que ele havia vivido de acordo com os princípios de Ma’at.[83] Assim, inscrições monumentais definitivamente não seriam o lugar para mencionar um evento como o êxodo bíblico.[84] As pragas que precederam a partida dos hebreus pareciam indicar ira (fúria) ou punição por parte dos deuses. [85] Além disso, as pragas podem ser vistas como um ataque à compreensão do Egito sobre criação, ordem e harmonia (Ma’at) no universo.[86] Os egípcios não gostariam de nenhum lembrete público dessa experiência, desse ocorrido.[87]

2.3. Os poderes mágicos das palavras

A ausência de documentos escritos descrevendo o êxodo dos hebreus por parte dos egípcios pode ser creditada a uma crença nos poderes mágicos das palavras. [88] O termo egípcio para escrever, “medu netcher”, significa “as palavras dos deuses“, “palavras divinas“.[89] As palavras escritas eram a contrapartida humana das palavras dos próprios deuses e, portanto, compartilhavam seus poderes mágicos. [90]Para os antigos egípcios, as palavras eram criativas em um sentido muito real. [91] Elas continham o modelo para dar vida às coisas que representavam. [92] O deus criador “Ptah” trouxe os outros deuses e outras coisas à vida através da fala performativa. [93]Um texto antigo descreveu Ptah como “a boca que pronunciava o nome de tudo”.[94] Suas palavras criativas não eram apenas “o que a cabeça pensava e a língua comandava, mas eram mágicas, contendo a essência do que representavam. [95] Por exemplo, um insulto, uma maldição ou uma ameaça tinha o poder de se tornar realidade.[96] A palavra falada era uma arma que tinha o poder de subjugar ou aniquilar os inimigos.[97] Nomear algo era fazê-lo realmente existir.[98] “Quando um visitante piedoso de uma tumba lia em voz alta a fórmula de oferenda inscrita ali: mil pães, mil jarras de cerveja, isso trazia os itens à existência para o falecido”.[99]

A magia e o poder inerentes às palavras, também eram intrínsecos a elas quando escritas.[100] Da mesma forma que com a palavra falada, cada signo hieroglífico continha o modelo ou a essência de um ser, uma coisa ou o mundo, que os deuses poderiam querer trazer à existência.[101] Acreditava-se que um signo continha a propriedade da própria vida.[102] Os egípcios criam que se algo estivesse comprometido com a escrita poderia repetidamente acontecer por meio de magia.[103] Mas, essa “magia” tinha uma base altamente racional. [104] Textos religiosos em tumbas e templos, textos mágicos e feitiços funcionavam todos com base no princípio de que as palavras acionavam “heka”, a potência primordial que deu poder ao deus criador no início. [105] Os modernos tendem a pensar na magia como invocando a ajuda de forças sobrenaturais ou ocultas. [106] Mas, os egípcios também consideravam a magia como forças ativadoras inerente à estrutura do próprio cosmos. [107] A magia escrita e falada era um tanto análoga à construção de uma máquina que operava com leis físicas naturais. [108] No antigo Egito, a magia era a ferramenta ou mecanismo de controle para restaurar todas as formas de ordem e harmonia.[109] E escrever era um aspecto importante dessa magia.[110] A escrita podia trazer os poderes do mundo invisível ou espiritual para o mundo físico e visível. [111] Seja um ritual ou um feitiço mágico, um texto constituía palavras cuja eficácia cruzava a fronteira entre os dois reinos.[112] Como as mensagens escritas podiam a qualquer momento se transformar em realidade, era preciso ter cuidado com o que se escrevia. [113] Se escrever podia fazer algo acontecer, o inverso também era verdadeiro. [114] “Tal era o poder da palavra escrita que ao excluir toda menção de um ato específico de um texto, o ato em si poderia ser entendido como não tendo ocorrido”. [115]

2.4.  Remoções

De acordo com Wheeler, a remoção de algo de um texto já escrito é um aspecto fácil de detectar.[116] Ele lembra, por exemplo, da tentativa de apagar o nome do faraó feminino Hatschepsut da história, talvez porque o conceito de uma governante feminina forte não se encaixasse em como os egípcios pensavam que o universo deveria ser governado. [117] Se o nome de Hatschepsut fosse completamente apagado, seria como se ela nunca tivesse existido.[118] Outro exemplo de remoção tem a ver com o faraó Akhenaton. Este faraó procurou eliminar ou reduzir a existência dos deuses tradicionais do Egito destruindo sistematicamente inscrições contendo seus nomes; então seus sucessores tentaram removê-lo da história erradicando (apagando) todos os seus próprios registros.[119] Como se pode perceber, os egípcios eram cuidadosos com o que registravam. [120] Por causa do poder mágico inerente às próprias palavras, o que eles escreviam poderia acontecer novamente. [121] Por isso, teriam relutado em registrar qualquer evento que pudesse ameaçar sua existência.[122] Eles tentariam evitar qualquer coisa que pudesse perturbar o que eles chamavam de “ma’at”. [123]

  1. O êxodo e o autor de Hebreus

O autor da carta aos Hebreus no Novo Testamento apresentou uma leitura do êxodo que destoa daquela apresentada no livro de Josué: Israel foi tirado do Egito, mas nunca entrou na terra que Deus lhes havia prometido.[124] Ao longo da carta aos Hebreus, o autor demonstra que a terra da promessa nunca foi realmente possuída, mas apenas peregrinada.[125] Ele apresenta uma releitura do êxodo, mas sob a perspectiva da jornada espiritual dos crentes nesse mundo.[126]Por meio dessa reconfiguração o autor da epístola demonstra que a experiência de seus leitores está em continuidade com toda a história de Israel, e deve ser considerada como evidência do fato de que eles são filhos de Deus, a quem o descanso tão esperado ainda está em aberto.[127]

Conclusão

A falta de evidências escritas (e de outro tipo) sobre o episódio conhecido na bíblia como o êxodo dos hebreus, tem levado a muitos a duvidar que o tal evento tivesse realmente acontecido. Mas, a ausência de documentos egípcios que indiquem o êxodo dos hebreus pode ter a ver, como bem argumentou Wheeler, com a crença dos egípcios no poder mágico inerente às próprias palavras. Eles acreditavam que escrever era empregar uma tecnologia que controlava as próprias forças do cosmos.[128] Acreditavam que aquilo que foi escrito poderia vir a acontecer novamente. Por conta disso, os escribas egípcios teriam relutado em mencionar qualquer evento que já tivesse trazido o caos para o seu país.[129] Pois criam que o próprio relato histórico poderia explodir espontaneamente e novamente mergulhar a nação no desastre.[130] Por isso, os egípcios não eram afeitos a registrar suas tragédias e derrotas. E, nesse caso, se o êxodo descrito na bíblia realmente aconteceu, os escribas e historiadores egípcios teriam boas razões para não tê-lo mencionado. Entretanto, essa e outras informações parecem ser irrelevantes para aqueles que defendem que o êxodo e outros eventos relacionados com o Israel da Bíblia são apenas criações literário-teológicas. Contudo, o autor da carta aos hebreus, com o êxodo dos hebreus em mente, escreve sobre um descanso que está aberto ao povo de Deus, um descanso a ser desfrutado ao final da peregrinação espiritual.[131]Esse êxodo ainda não terminou!

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Referências[132]

BÍBLIA Almeida Revista e Atualizada, 2ª edição. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. The Bible Unearthed. New York. Touchstone, 2002.

[1] Publicado anteriormente na AZUSA – REVISTA DE ESTUDOS PENTECOSTAIS, Volume XIV, Número 2, jul./dez. 2022.

[2] GERTOUX, Gerard.  Moses and the Exodus: what evidence? Disponível em:<https://www.academia.edu/13001480/Moses_and_the_Exodus_what_evidence>. Acesso em: 22 jul. 2022.

[3] FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. The Bible Unearthed. New York. Touchstone, 2002, p.36.

[4] GRIM, Valerie; PACE, David; SHOPKOW, Leath. Learning to use evidence in the study of history. New directions for teaching and learning, 2004, 57.

[5] WHEELER, Gerald. Ancient Egypt’s Silence about the Exodus. Andrews University Seminar Studies, vol.40, No. 2, 2002, p.257.

[6] WHEELER, 2002, p.257.

[7] Ibidem, p.257.

[8] Ibidem, p.257.

[9] FINKELSTEIN; SILBERMAN, 2002, p.57.; O  texto  da estela apresenta apenas o uso mais antigo conhecido de um nome, ver: THOMPSON, Thomas L.  The mythic past: biblical archaeology and the myth of Israel. London: Basic Books, 1999, p.79.

[10] Ibidem.

[11] Ibidem.

[12] THOMPSON, 1999, p.79.

[13] Ibidem.

[14] HOFFMEIER, James K. What is the Biblical date for the Exodus? A response to Bryant Wood. Journal of the Evangelical Theological Society, 50,2 p. 225- 247, 2007, p.225.

[15] KLENCK, Joel. The Exodus from Egypt: archaeological data and expectations. Flórida: Prc Press, 2010, p. IV.

[16] Ibidem, p. IV.

[17] FINKELSTEIN; SILBERMAN, 2002, p.57.

[18] Êx. 12.37.

[19] FINKELSTEIN; SILBERMAN, 2002, p.57.

[20] THE EXODUS is not Fiction. An interview with Richard Elliott Friedman. Disponível em:<https://reformjudaism.org/exodus-not-fiction>. Acesso em: 22 jul. 2022.

[21] Ibidem.

[22] Ibidem.

[23] Ibidem.

[24] PATON, Lewis Bayles. Israel’s Conquest of Canaan. Journal of Biblical Literature. Vol.XXXII, 1913, p.1.

[25] Ibidem, p.1-2.

[26] Ibidem, p.2.

[27] Ibidem.

[28] Ibidem.

[29] Ibidem.

[30] HARGUS, Coyt David. Theories of the Israelite occupation of the Land of Canaan. Austin, 2000, p.6.

[31] Ibidem.

[32] Ibidem, p. 6 -7.

[33] Ibidem, p.10.

[34] Ibidem.

[35] Ibidem, p.16.

[36] Ibidem.

[37] Ibidem.

[38] Ibidem.

[39] Ibidem.

[40] FINKELSTEIN; SILBERMAN, 2002, p.57.

[41] Ibidem.

[42] Ibidem, p.59.

[43] Ibidem, p.60.

[44] WHEELER, 2002, p.257.

[45] THE EXODUS is not Fiction. An interview with Richard Elliott Friedman. Disponível em:<https://reformjudaism.org/exodus-not-fiction>. Acesso em: 22 jul. 2022.

[46] KLENCK, 2010, p. v.

[47] Ibidem.

[48] WHEELER, 2020, p.257.

[49] THOMPSON, 1999, p.78.

[50] HOFFMEIER, 2007, p.225.; THOMPSON,1999, p.78.

[51] HOFFMEIER, 2007, p.225.

[52] Ibidem.

[53] THOMPSON, 1999, p.78.

[54] NEUSNER, Jacob. How should we teach the history of Judaism? The Case of Rabbi Wolpe. Journal of Jewish Education, Vol. 68, No. 2, p.4-6, 2006, p.4.; WATANABE, Teresa. Doubting the Story of Exodus. Los Angeles Times, 2001. Disponível em:<https://www.latimes.com/archives/la-xpm-2001-apr-13-mn-50481-story.html>. Acesso em: 31 jul. 2022.

[55] FINKELSTEIN; SILBERMAN, 2002, p.73.

[56] Ibidem, p.76.

[57] Ibidem.

[58] Ibidem, p.82.

[59] Ibidem, p.81.

[60] Ibidem, p.82.

[61] WHEELER, 2002, p.257.

[62] Ibidem.

[63] Ibidem.

[64] Ibidem.

[65] Ibidem.

[66] Ibidem.

[67] Ibidem.

[68] Ibidem.

[69] Ibidem, p.257-8.

[70] Ibidem, p.258.

[71] Ibidem.

[72] Ibidem.

[73] Ibidem.

[74] Ibidem.

[75] Ibidem.

[76] Ibidem.

[77] Ibidem.

[78] Ibidem.

[79] Ibidem.

[80] Ibidem.

[81] Ibidem , p.259.

[82] Ibidem.

[83] Ibidem.

[84] Ibidem.

[85] Ibidem.

[86] Ibidem.

[87] Ibidem.

[88] Ibidem.

[89] Ibidem.

[90] Ibidem.

[91] Ibidem.

[92] Ibidem.

[93] Ibidem.

[94] Ibidem.

[95] Ibidem.

[96] Ibidem, p.260.

[97] Ibidem.

[98] Ibidem.

[99] Ibidem.

[100] Ibidem.

[101] Ibidem.

[102] Ibidem.

[103] Ibidem.

[104] Ibidem.

[105] Ibidem.

[106] Ibidem.

[107] Ibidem.

[108] Ibidem.

[109] Ibidem.

[110] Ibidem, p.260-1.

[111] Ibidem, p.261.

[112] Ibidem.

[113] Ibidem , p.262.

[114] Ibidem.

[115] Ibidem.

[116] Ibidem , p.262-3.

[117] Ibidem.

[118] Ibidem.

[119] Ibidem.

[120] Ibidem.

[121] Ibidem.

[122] Ibidem.

[123] Ibidem.

[124] THIESSEN, Matthew. Hebrews and the End of the Exodus. Novum Testamentum, 49, 2007, p. 354-5.

[125] Ibidem, p.355.

[126] Ibidem.

[127] Ibidem, p.369.

[128] Ibidem, p.263-4.

[129] Ibidem, p.263.

[130] Ibidem.

[131] Hb 4.8-11.

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Bibliografia:

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