Ressentimentos contra Deus afetam minha vida espiritual?

Transcrição do áudio

Temos uma pergunta muito interessante do Bryan. Eu vou ler agora: 

“Querido pastor John, existe uma forma honesta de ficar bravo com Deus por coisas ruins que acontecem em nossas vidas? Ou estamos completamente errados só em pensar nisso?

Vou tentar interpretar a pergunta do Bryan para que eu possa responder. Eu acredito que o que ele realmente quer saber é se está errado, ou se temos o direito de ficarmos bravos com Deus. 

Preste atenção que o mais importante aqui é a palavra sentir. Então a pergunta seria: 

Podemos sentir raiva contra Deus em nosso coração, e ainda assim manter em nossa vida a santidade, a virtude, a retidão, a inocência ainda que possamos pensar que esse sentimento seja moralmente neutro? Perceba que não falei nada sobre dizer coisas contra Deus, estamos falando sobre o sentimento de raiva.

Sem dúvida fora do lugar

A resposta curta é não, nunca. Nunca conseguiremos manter em nossa vida a santidade, a virtude, a retidão, a inocência ainda que acredite que tenha esse direito. Esse nunca será um sentimento moralmente neutro, sentir raiva de Deus. Em Romanos 9.18-20 Paulo imagina a situação onde o homem vê em Deus, algo que ele não gosta. O homem não aprova o modo que Deus está agindo, então ele expressa isso de um jeito forte demais, que revela seu ressentimento. Escute o que diz Romanos 9.18-20:

“como podem ver, ele escolhe ter misericórdia de alguns e endurecer o coração de outros. Mas algum de vocês dirá: “Então por que Deus os culpa? Não estão apenas cumprindo a vontade dele?”. Ora, quem é você, mero ser humano, para discutir com Deus? Acaso o objeto criado pode dizer àquele que o criou: “Por que você me fez assim?” (Romanos 9.18-20)

“Nunca é certo, nunca é bom e não é certo pensar que sentir raiva de Deus não vai trazer consequências – nunca.”

A situação é a seguinte: O ser humano analisa os atos de Deus e não gosta do que vê. Paulo não diz que isto deixa esse ser humano com raiva. Paulo diz que isso faz o ser humano questionar a Deus: “Quem consegue resistir à sua vontade?” “Por que Deus o culpa?” “Por que você me fez desse jeito” e Paulo responde a esse tipo de questionamento direcionado a Deus da seguinte forma: “Ora, quem é você, mero ser humano, para discutir com Deus?” Isso é um jeito bem forte de confrontar alguém.

Se Paulo está dizendo que questionar a Deus é algo tão incabível para o ser humano, o que ele diria quando esses questionamentos em palavras ainda carregam emoções fortes, como ressentimento e raiva? Ele poderia dizer: “Isso é incabível. Não é certo a criatura questionar o criador, e é incabível essas palavra serem embaladas por um sentimento que se coloque contra Deus” 

Agora não confunda isso com o ato de tentar entender humildemente as formas misteriosas como o Deus em quem você confia trabalha. Isso  é maravilhoso e vale a pena passar a vida inteira pensando nisso! Eu faço isso. Eu tento humildemente, clamar, “Deus, eu quero entender. Eu quero entender tudo o que o Senhor quiser me revelar em sua palavra. Me dê os olhos para ver.” Não é errado perguntar coisas a Deus.

Como em Lucas, quando o Senhor disse a Maria, Ficará grávida e dará à luz um filho, (…)(Lucas 2.31, 34, 38) Maria se ajoelha e pergunta: “Como isso acontecerá? Eu sou virgem!”. Deus não ficou chateado com essa dúvida. Foi uma ótima pergunta, uma pergunta de como Deus iria agir. Uma pergunta humilde para entender o agir de Deus não é algo ruim. Porém é sempre errado questionar a Deus como se não aprovasse o que Ele estiver fazendo.

Respondendo às objeções

Tenho pensado e tentando entender, por que cristãos que acreditam na Bíblia podem achar que podem ter raiva contra Deus sendo que ela nos ensina o contrário (e alguns pensam assim), eu tentei me colocar no lugar deles para entender o que pensam sobre esse assunto. Então vou compartilhar com vocês 5 pontos de vista sobre isso.

O peso moral das emoções

Em primeiro lugar, talvez alguns pensem que como a ira não é uma decisão humana mas uma emoção humana, que aparece espontaneamente do coração, talvez esse sentimento não esteja sujeito às regras de certo e errado em comparação a uma decisão baseada em uma decisão consciente. Mas isso não é o que a Bíblia nos ensina sobre emoções. 

Emoções não são moralmente neutras. Muitas emoções são proibidas por Deus, e outras são incentivadas. Em Mateus 10.28 e 6.25 somos instruídos a não temer ou ficar ansiosos. Já em Efésios 4.31 somos instruídos a nos livrarmos de toda amargura. Se olharmos para 1 Pedro 2.11 vamos aprender a manter distância dos desejos carnais. Fomos instruídos a amar a Deus em Mateus 22.37 e nos alegrarmos Nele em Salmos 37.4. Já nos Salmos 100.1-2 somos ensinados a buscar prazer na presença de Deus, nos Salmos 67.3 a louvar a Deus, e ser grato a ele nos Salmos 107.8, além de regozijar em todas as suas obras nos Salmos 92.4. Olhando para tudo isso chegamos a conclusão que não é correto dizer que emoções são moralmente neutras, porque elas não são. Emoções são moralmente importantes.

Eu vou ler para vocês Lucas 6, escute o que diz: “Uma árvore boa não produz frutos ruins, e uma árvore ruim não produz frutos bons. (…)A pessoa boa tira coisas boas do tesouro de um coração bom, e a pessoa má tira coisas más do tesouro de um coração mau. Pois a boca fala do que o coração está cheio.” Lendo isso não podemos dizer se a ira contra Deus é certa ou errada, simplesmente reconhecendo que ela é uma emoção. 

Evitando hipocrisia

Em segundo lugar, será que as pessoas que acham que o sentimento de raiva contra Deus é algo bom ou neutro, não estariam confundindo essa raiva, com honestidade e autenticidade. Em outras palavras: será que quando elas se recusam reprovar a raiva contra Deus, o que eles estão realmente recusando é a hipocrisia? Sentir raiva e não expressar essa raiva? Será que essas pessoas pensam que existem várias outras pessoas com raiva de Deus, por coisas ruins que acontecem na vida delas, mas que são hipócritas afirmando que é errado expressar essa raiva? Talvez algumas pessoas que dizem que é certo estar com raiva de Deus, estejam apenas em uma campanha tentando fazer com que outras pessoas sejam honestas e admitam que elas também têm raiva.

Agora minha visão sobre isso é que, se você está sentindo raiva contra Deus, não há razão nenhuma para esconder isso dele. Não tem como. Então fale com Deus como você se sente. Falar para ele não é um problema. Não estou tentando calar as pessoas; estou tentando ensinar as pessoas. Para que a Palavra de Deus mude o coração dessas pessoas. O sentimento de raiva contra Deus é o problema, não  falar para Deus o que você pensa e como você se sente. Então não acrescente pecado a outro pecado: Não acrescente o pecado de hipocrisia ao pecado da raiva. A luta não é contra o que sai da sua boca; é contra o que está no seu coração.

Raiva e Amor

Terceiro, eu me pergunto, se é possível ter raiva de alguém que você ama muito; seu marido, sua mulher, seus filhos e até mesmo Deus? Parece que para alguns sim; é possível. Ou seja, podemos ter um sentimento de raiva contra Deus, enquanto amamos a ele, e esse sentimento não seria ruim. Mas isso não se encaixa com a natureza de Deus e tudo que flui dele. Você peca contra Deus tendo raiva de Deus apesar de dizer que ama a Deus, porque raiva não é algo que flui de um Deus amoroso.

Cuidando daqueles em luto

Em quarto lugar, eu me pergunto se alguns que atuam no ministério cuidando pastoralmente de pessoas, não estão relutantes em condenar a raiva contra Deus porque acham que se fizerem isso, estarão colocando culpa sobre as pessoas que estão sofrendo com a dor de uma perda, e essa perda pode ter sido o que leva alguém a sentir raiva contra Deus.

“É uma falha pastoral de caráter ou sabedoria achar que temos que tolerar o pecado para trazer conforto.”

Agora, pensando na minha experiência de aconselhar centenas de pessoas em tempos de luto durante os últimos 50 anos, lembro que a sabedoria de Deus sempre providencia uma maneira de discipular as pessoas, cuidando de suas necessidades e dor sem comprometer as verdades eternas da bíblia. É uma falha pastoral de caráter ou sabedoria, achar que temos que tolerar o pecado para trazer conforto. Sempre há um jeito melhor.

Nunca censurável

E o meu quinto ponto é, me pergunto se as pessoas que aprovam o sentimento de raiva contra Deus, pararam em algum momento para pensar e entender o que realmente é ter raiva contra outra pessoa. Raiva é uma desaprovação forte e emocionalmente carregada. Deus faz uma coisa; nós avaliamos; nós desaprovamos; nós nos opomos aquilo emocionalmente; nós resistimos. A raiva é a resposta no nosso coração da acusação contra Deus que primeiro acontece na nossa cabeça. Nossa mente julga Deus e diz que ele está errado,  e nossas emoções dizem isso através da raiva. 

Agora o antídoto para isso é aprender que Deus sempre age de forma justa. Deus age com sabedoria e amor além da nossa compreensão. Ele sempre age com amor. Ele nunca faz mal a ninguém. Nenhum ser humano tem capacidade para censurar Deus. Deus é sempre puro, santo, justo e bom. Deus é infinitamente digno de nossa confiança, amor, admiração, e prazer. Quando nós não entendemos como Deus age, devemos nos ajoelhar em humildade e repetir o que Paulo diz em Romanos, vou ler para você: “Como são grandes as riquezas, a sabedoria e o conhecimento de Deus! É impossível entendermos suas decisões e seus caminhos!” (Romanos 11: 33) Nunca esqueça isso.

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