Salmo 32: A Misericórdia que nos assiste – (parte 31)

3) Deus nos ensina

 

“Instruir-te-ei e te ensinarei (yârâh) o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho” (Sl 32.8).

 

Figuradamente a palavra aqui traduzida por “ensinar” tem o sentido de mostrar, indicar, “apontar o dedo”; encaminhar (Gn 46.28); disparar (Sl 11.2; 64.4); apontar (Sl 25.8); atingir (Sl 64.4); desferir (Sl 64.7). No hifil[1] tem o sentido de “ensinar”.

 

Analisemos o emprego da palavra no Antigo Testamento.

 

                  a) Davi diz que Deus em sua bondade aponta o caminho aos pecadores

 

“Bom e reto (yashar) (= justo, íntegro, correto)  é o SENHOR, por isso, aponta (yârâh) o caminho aos pecadores” (Sl 25.8).

 

Acrescenta: “Ao homem que teme ao SENHOR, Ele o instruirá (yârâh) no caminho que deve escolher” (Sl 25.12).

 

Diante de tantas e novas opções que se mostram querendo nos tornar cativos de suas percepções – propagadas como “realidade objetiva” – e ações, aprendemos que na realidade, o único caminho viável para aqueles que amam ao Senhor, confiam nos seus preceitos e querem agradá-lo, é seguir as suas instruções.

 

Em geral, os caminhos propostos pelos homens têm vários rótulos com múltiplos adjetivos que falam ao nosso coração encontrando eco em nossos desejos que cultivamos de poder e autonomia.

 

Faz-se necessário que assumamos o compromisso diante de Deus de buscar a sua instrução.

 

Como temos visto, Deus tem prazer em nos orientar e guiar. A sua Palavra tem este propósito. É preciso que não duvidemos, mas, que atentemos para as suas instruções.

 

Ele aponta o caminho para nós. Este caminho poderá consistir, em muitas ocasiões, em um retorno, num recomeço e redirecionamento de nossas prioridades.

 

O caminho de Deus nunca será óbvio diante de uma sociedade materialista e pragmática. Aliás, em um mundo materialista com conceitos fragmentados e contraditórios, o aspecto contracultural da fé cristã se torna cada vez mais evidente, em sua unidade orgânica entre fé e razão que se revela em uma fé operante submissa a Deus.

 

                  b) O salmista pede a Deus que ensine o seu caminho

 

Ensiname (yârâh), SENHOR, o teu caminho e guia-me por vereda plana, por causa dos que me espreitam” (Sl 27.11).

 

Suplicar pela instrução de Deus significa que estamos desejosos não apenas de saber intelectualmente qual é o caminho, como se estivéssemos brincado com um GPS simulando um destino para verificar a rota, distância e tempo de chegada, sem que na realidade tencionemos seguir naquela direção. Não. Queremos saber o caminho porque desejamos de fato fazer a sua vontade, ser realmente guiado pela sua Palavra.

 

É neste sentido que o salmista assume o compromisso diante de Deus:

 

Ensina-me (yârâh), SENHOR, o teu caminho, e andarei (halak) na tua verdade; dispõe-me o coração (lêbâb) para só temer o teu nome. (Sl 86.11).

Ensina-me (yârâh), SENHOR, o caminho dos teus decretos, e os seguirei (natsar) (observar,[2] guardar,[3] preservar[4]) até ao fim. (Sl 119.33).

Não me aparto dos teus juízos, pois tu me ensinas (yârâh). (Sl 119.102).

 

Revelamos nosso caráter no que seguimos

 

Muitas vezes, o caminho denominado de prático, objetivo e realista, se constitui em uma justificativa para desobedecermos ao caminho proposto por Deus. A chamada realidade é, por vezes, uma denominação que atribuímos ao nosso desejo, tornando-o psicológica e socialmente correto, sem maiores traumas.

 

Nas mídias sociais, um indicativo de prestígio e relevância é o número de seguidores. Não importa quem sejam ou porque nos seguem, nem o que dizem. Os números é que geram influência e patrocínios dentro de um círculo vicioso onde a virtude se transforma em números. Na prática somos bastante pragmáticos, pouco nos preocupando com a essência da coisa.

 

O nosso caráter, valores e prioridades se revelam naquilo que seguimos, no que tomamos como norma e padrão de nosso pensar e fazer. Quais conselhos são por nós adotados? O salmista escreve:

 

Faze-me justiça, SENHOR, pois tenho andado (halak) na minha integridade e confio no SENHOR, sem vacilar. 2Examina-me, SENHOR, e prova-me; sonda-me o coração e os pensamentos. 3 Pois a tua benignidade, tenho-a perante os olhos e tenho andado (halak) na tua verdade (…)11Quanto a mim, porém, ando (yalak) na minha integridade; livra-me e tem compaixão de mim. (Sl 26.1-3,11).

 

Portanto, Deus deseja que conheçamos o seu caminho não simplesmente para exercitar a nossa curiosidade ou diletantismo intelectual, antes, para que haja um compromisso de vida. A nossa oração por discernimento, da mesma forma, deve vir acompanhada por este senso de dependência e compromisso. Oração é confissão e compromisso. O caminho de Deus é para ser seguido (Sl 32.8).

 

                  c) Os ídolos nada podem ensinar e a sua própria existência, sem vida, moldada pelo homem, conduz-nos ao engano

 

O erro não nos ensina, porém, podemos aprender, ainda que dolorosamente com o erro a fim de não mais seguirmos aquele caminho. Satanás não visa nos ensinar por meio das tentações, contudo, pela graça, podemos e devemos aprender muito por meio delas, ainda que não as busquemos.

 

A idolatria é por si só um engano. O seu caminho é o do vazio e da nulidade que nos conduz à frustração e ao desespero.

 

O profeta Hacabuque, então, pergunta:

 

18Que aproveita o ídolo, visto que o seu artífice o esculpiu? E a imagem de fundição, mestra (yârâh) de mentiras, para que o artífice confie na obra, fazendo ídolos mudos? 19 Ai daquele que diz à madeira: Acorda! E à pedra muda: Desperta! Pode o ídolo ensinar (yârâh)? Eis que está coberto de ouro e de prata, mas, no seu interior, não há fôlego (ruah) nenhum. (Hc 2.18-19).[5]

 

Algumas observações devem ser feitas: Os ídolos, por sua própria nulidade tem que ser construídos de forma externamente atraente: ouro e prata. O caminho de nosso coração, com muita frequência, passa pelos nossos olhos costumeiramente acríticos no que se refere ao pecado. A beleza, com todas as suas nuances,[6] pode ser uma ponte fácil que passa por cima de outros valores que deveriam ser priorizados  (Cf. Gn 3.6).

 

Na declaração do profeta podemos destacar também três assuntos interligados. Há uma questão ontológica: Os ídolos não são; a sua existência enquanto essência é nula. Temos uma questão epistemológica: Se eles nada são, não há conhecimento. Do nada nada se conhece. Nesse caso, o que podemos ter é vislumbres de minha fé que se materializa por meio do que tento criar e conferir significado. Há também a questão lógica: Se o ídolo não existe, exceto na mente de quem o fez, portanto, não tem vida, ele não pode ser conhecido. O conhecido é apenas a matéria que compus. Portanto, ele nada pode fazer para me instruir, socorrer e consolar.

 

A epistemologia antecede à lógica e esta, por mais coerente que seja, se partir de uma premissa equivocada nos conduzirá a conclusões erradas e, portanto, a uma ética com fundamentos duvidosos e inconsistentes. Indo um pouco além, porém, significativamente longe, devemos afirmar com Sire (1933-2018),  que a ontologia antecede à epistemologia.[7]

 

Antes do conhecer, há o ser. Se houver um suposto conhecimento universal, porém, equivocado, isso não mudará a essência da coisa. Se todos negassem a existência de Deus, isso não mudaria o fato de Deus ser o que é. O meu conhecimento, certo ou errado, muda a minha relação com o real, porém, não a essência da coisa.

 

Por isso mesmo, a realidade sempre é mais importante e complexa do que a nossa percepção e experiência. A ontologia é a determinante de nossa possibilidade epistemológica.

 

No entanto, esta não condiciona a outra. As coisas são o que são independentemente de nossa apreensão. Assim como o nome não delimita nem determina a essência da coisa, a nossa percepção, com seus erros e acertos, não estatui por si só a essência e o alcance da realidade.

 

Ídolos começam no coração

 

A idolatria começa em nosso coração por meio daquilo que cultuamos, temos como importante e, por isso, torna-se determinante de nosso culto. O que cultuamos reflete nossos valores e prioridades.

 

A idolatria é pródiga na condução de uma estrutura de pensamento pecaminosa e viciada. Isso é o que resta ao homem sem referências permanentes. A negação de Deus, implica necessariamente na criação de um deus que lhe dê sentido à vida. Porém, somente Deus é o Sentido de tudo, do tempo e da eternidade. Fora dele, nada temos, senão palhas ao vento.

 

Deuses de nossa cultura

 

Muitas vezes seguimos aos deuses de nossa cultura e de nossa mente. Esses ídolos são fascinantes porque falam a nossa língua, conhecem a nossa linguagem e os anseios de um coração idólatra.

 

Toda cultura e cada época criam e moldam seus deuses conforme seus valores e desejos.[8]Cultuamos o que nos fascina. Assim, buscamos de forma estratégica o melhor caminho para atingirmos os nossos objetivos, enaltecendo, colocando no altar os modelos que encarnam o que almejamos.

 

A idolatria assume várias formas. Após a Queda o desejo idólatra está permanentemente dentro de nossos corações ávidos pelos seus próprios interesses e a intenção imperativa de satisfazê-los. Logo, o meu desejo é o meu “deus”. Portanto, é preciso que arranquemos os ídolos de nosso coração, tão pródigo em suas promessas de satisfação.[9]

 

Quando ignoramos a Deus e rejeitamos seu Filho, já não sabemos bem quem somos; daí uma compreensão errada da realidade e uma postura equivocada no mundo, fornecida pela invenção de uma nova divindade criada à nossa imagem e semelhança.[10]

 

No entanto, Deus pela sua Palavra tem continuamente apontado o caminho para nós. Nas Escrituras vemos estampadas as consequências desastrosas e devastadoras da desobediência e os efeitos abençoadores da obediência aos ensinamentos de Deus.

 

A Palavra do Senhor permanece:

 

11No caminho da sabedoria, te ensinei (yârâh) e pelas veredas da retidão te fiz andar. 12Em andando por elas, não se embaraçarão os teus passos; se correres, não tropeçarás. 13 Retém a instrução (musar) e não a largues; guarda-a, porque ela é a tua vida. (Pv 4.11-13).

[1] Devemos ter em vista que o hifil é causativo; ou seja: o sujeito pratica ou leva o sujeito a causar a ação.

[2] Sl 119.145.

[3] Sl 25.10; 40.11.

[4] Sl 31.23; 32.7; 61.7; 64.1.

[5]O Antigo Testamento emprega a palavra (ruah), para “espírito”, sendo traduzida por “vento”, “espírito”, “alento”, “hálito”, “sopro”, etc. Quando ahUr é empregado para Deus, denota o Seu poder incorruptível e preservador (F. Baumgärtel, Pneu=ma: In: G. Friedrich; G. Kittel, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982, v. 6, p. 364). Portanto, a ideia de vento aponta para o poder soberano de Deus que se manifesta algumas vezes como juiz, outras vezes como consolador (Ver: Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 362) e, também, que se movimenta livremente, figuradamente, como uma tempestade, um tufão incontrolável, daí a impossibilidade de prender, domesticar ou dominar o Espírito de Deus. O Antigo Testamento mostra o Espírito como onisciente (Is 40.13), onipresente (Sl 139.7) e onipotente (Is 34.16), evidenciando assim, a impotência e inércia dos ídolos, visto que estes não têm espírito, não têm vida (Hc 2.19/Jr 10.14). (Para um estudo mais detalhado, ver: Hermisten M.P. Costa, https://www.hermisten.com.br/a-pessoa-e-obra-do-espirito-santo-3/).

[6]“A beleza nunca foi algo de absoluto e imutável, mas assumiu rostos diversos segundo o período histórico e o país: e isso não somente no que diz respeito à beleza física (do homem, da mulher, da paisagem), mas também à beleza de Deus, ou dos santos, ou das Ideias” (Umberto Eco, Nos ombros dos gigantes: escritos para La Milanesiana, 2001-2015, Rio de Janeiro: Record, 2018, p. 38).

[7]James W. Sire, Dando nome ao elefante: Cosmovisão como um conceito, Brasília, DF.: Monergismo, 2012, p. 77-109.

[8] “Tanto nas épocas antigas como hoje, os ídolos se conformam à imaginação de quem os cria. Os ídolos têm, com o verdadeiro Deus, semelhanças o bastante para serem plausíveis, mas diferem no sentido de que nos deixam confortáveis e com a satisfação de manipular os substitutos que construímos” (Vern S. Poythress,  Redimindo a Matemática: uma abordagem teocêntrica, Brasília, DF.: Monergismo, 2020, p. 20-21). “Essa é a essência da idolatria: substituir a realidade por uma imitação. Distorcemos a verdade do Senhor e reconfiguramos nosso entendimento acerca dele de acordo com nossas próprias preferências, ficando com um Deus que é tudo, exceto santo” (R.C. Sproul, A santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 205).

[9]Na primeira carta que Calvino escreveu depois de ter se fixado em Genebra (1536), alegra-se com o avanço da Reforma e a consequente diminuição da superstição e idolatria. Então diz: “Deus permita que os ídolos sejam erradicados também do coração” (Carta escrita ao seu amigo Francis Daniel no dia 13 de outubro de 1536. In: João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 30).

[10] “Tão logo tenhamos deixado Cristo, nada mais teremos senão os ídolos de nossa fabricação, porém em Cristo nada há senão o que é divino e o que nos mantém em Deus” (João Calvino, Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 2, (Jo 14.11), p. 96). “Todos quantos pensam que conhecem algo de Deus à parte de Cristo inventam para si um ídolo no lugar de Deus” (João Calvino, Colossenses: In: Gálatas – Efésios – Filipenses – Colossenses, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2010, (Cl 2.1-5), p. 532).

Autor: Hermisten Maia. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Editor e Revisor: Vinicius Lima.

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