Como viveremos – onde tudo começou

Como viveremos – onde tudo começou

A forma como pensamos determina a forma como vivemos

Estamos vivendo um período de profundas transformações culturais. Aquilo que durante séculos foi considerado evidente passou a ser questionado; valores que pareciam sólidos tornaram-se objetos de disputa; conceitos fundamentais como verdade, identidade, família, moralidade e autoridade passaram a ser reinterpretados a partir de novas categorias. Não é difícil perceber essas mudanças. Elas estão presentes nas conversas dentro de nossas casas, nas escolas, nas universidades, nas redes sociais, nos meios de comunicação, na política e até mesmo, em alguma medida, dentro das igrejas. O desafio, entretanto, não consiste simplesmente em identificar que a cultura mudou. A pergunta verdadeiramente importante é: por que ela mudou? E, sobretudo, como a igreja de Cristo deve viver quando os pressupostos que governam a cultura ao seu redor são cada vez mais diferentes daqueles apresentados pelas Escrituras?

É justamente nesse ponto que a reflexão de Francis A. Schaeffer continua sendo extraordinariamente relevante. Em Como viveremos?, publicado originalmente em 1976, Schaeffer procura demonstrar que a história cultural não é uma sucessão aleatória de acontecimentos, mas possui uma relação profunda com as ideias e pressuposições que os seres humanos adotam. Seu argumento parte de uma percepção fundamental: aquilo que uma sociedade pensa acaba determinando, em grande medida, aquilo que essa sociedade considera verdadeiro, bom, belo e desejável e, consequentemente, aquilo que ela passa a praticar. A edição brasileira publicada pela Cultura Cristã apresenta a obra precisamente como uma análise das raízes da decadência cultural, moral e espiritual do Ocidente, destacando o abandono da verdade absoluta revelada por Deus. Schaeffer, portanto, não começa sua análise perguntando simplesmente o que as pessoas estão fazendo; ele procura compreender as ideias que tornaram determinadas práticas possíveis e aceitáveis. Essa é uma contribuição fundamental para qualquer reflexão cristã sobre cultura: antes de confrontarmos os comportamentos, precisamos compreender as cosmovisões que os produzem.

Essa perspectiva também nos ajuda a compreender por que a conhecida afirmação que acompanha esta série é tão importante: a forma como pensamos determina a forma como vivemos. O princípio está presente na própria estrutura da mensagem que dá início a esta série: se desejamos compreender por que nossa geração vive como vive, precisamos primeiro compreender como ela passou a pensar dessa maneira; e, se desejamos viver de modo diferente do mundo, precisamos aprender a pensar segundo a Palavra de Deus. Essa não é uma afirmação meramente psicológica. Trata-se de uma afirmação antropológica, epistemológica e teológica. O ser humano não vive simplesmente a partir de impulsos isolados; ele interpreta a realidade, estabelece pressupostos, atribui significado aos acontecimentos e, a partir dessas interpretações, organiza sua existência. Por isso Paulo escreve aos cristãos de Roma: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12.2). A transformação cristã começa na mente porque o evangelho não pretende apenas modificar determinados comportamentos externos; ele reconstrói a maneira pela qual enxergamos Deus, o mundo, nós mesmos e a própria vida.

A batalha pela mente começou no Éden

Há, porém, uma questão ainda mais profunda. Quando observamos a crise contemporânea, podemos facilmente imaginar que estamos diante de um fenômeno essencialmente moderno. Talvez atribuamos o problema à internet, às redes sociais, à televisão, às universidades, ao secularismo, ao Iluminismo ou à pós-modernidade. Todos esses elementos podem participar do processo cultural que testemunhamos, mas nenhum deles constitui a verdadeira origem do problema. A crise é muito mais antiga. Antes de existir uma universidade, uma imprensa, uma televisão ou uma rede social, já existia uma humanidade confrontada com a questão fundamental da autoridade. Antes de qualquer sociedade moderna discutir quem define a verdade, o jardim do Éden já havia testemunhado a primeira grande tentativa humana de estabelecer uma autoridade alternativa à autoridade de Deus.

É por isso que Gênesis 3 não deve ser lido apenas como a narrativa de uma desobediência individual. O texto apresenta a matriz teológica da rebelião humana. A questão central não era simplesmente o fruto. O fruto era apenas o ponto final de um processo que havia começado anteriormente, no campo das ideias. A serpente não começou dizendo a Eva: “Coma o fruto”. Ela começou com uma pergunta: “É assim que Deus disse?” (Gn 3.1). A primeira batalha da história da humanidade, portanto, não foi travada contra o fruto, mas contra a Palavra de Deus. Antes que a mão de Eva alcançasse o fruto, sua mente já havia sido confrontada com uma interpretação alternativa da realidade.

Essa observação é essencial para uma teologia cristã da cultura. A tentação começa quando a criatura é levada a reconsiderar aquilo que Deus estabeleceu como verdade. A serpente procura introduzir dúvida onde Deus havia estabelecido certeza, suspeita onde havia confiança e autonomia onde havia dependência. A pergunta “É assim que Deus disse?” parece pequena, mas carrega uma enorme implicação epistemológica: a Palavra de Deus será recebida como autoridade final ou será submetida ao julgamento humano? É nesse ponto que a batalha começa.

Gênesis 2 apresenta uma realidade na qual Deus é a referência absoluta. Ele cria, ordena, estabelece limites, nomeia, define e declara aquilo que é bom. O ser humano recebe a realidade, não a inventa. A criação possui uma estrutura objetiva porque foi estabelecida pelo Criador. Deus não é apenas mais uma voz dentro do universo; Ele é o Senhor do universo. A ordem moral não nasce da preferência humana, mas da vontade daquele que criou todas as coisas. Por isso, quando chegamos ao capítulo 3, a tentação não consiste simplesmente em quebrar uma regra. O que está em jogo é a própria autoridade de Deus para definir o que é verdadeiro e bom.

A serpente percebe exatamente esse ponto. Ela não apresenta inicialmente uma negação absoluta; ela distorce. Deus havia dito: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás” (Gn 2.16-17). A serpente, porém, formula sua pergunta de maneira a ampliar a restrição: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” (Gn 3.1). A generosidade de Deus é transformada em opressão. A liberdade concedida por Deus desaparece da formulação, enquanto a única proibição passa a ocupar o centro da conversa. O resultado é uma imagem completamente diferente do caráter divino.

Eva, por sua vez, também altera a Palavra. Sua resposta acrescenta elementos que Deus não havia estabelecido e modifica a força da advertência divina. Em lugar de “certamente morrerás”, aparece uma formulação mais próxima de uma possibilidade: “para que não morrais”. O texto mostra, portanto, que a distorção da verdade não precisa assumir imediatamente a forma de uma negação completa. Muitas vezes, basta uma alteração aparentemente pequena. A Palavra pode ser diminuída, aumentada, deslocada ou reinterpretada até que diga algo diferente daquilo que Deus originalmente disse. A mensagem da primeira tentação é assustadoramente atual: uma mentira não precisa ser composta inteiramente de falsidades para destruir; basta que a verdade seja suficientemente distorcida.

Da dúvida à negação: a progressão da mentira

A estratégia da serpente possui uma progressão cuidadosamente construída. Primeiro, ela questiona a Palavra: “É assim que Deus disse?” Depois, nega diretamente aquilo que Deus havia declarado: “É certo que não morrereis” (Gn 3.4). Finalmente, lança uma suspeita sobre as motivações do próprio Deus: “Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.5). A questão passa, então, da Palavra ao caráter de Deus. Deus não apenas teria dado uma ordem que deveria ser questionada; segundo a serpente, Deus estaria escondendo algo de Adão e Eva.

Podemos perceber aqui quatro movimentos teológicos que permanecem presentes na história humana. Primeiro, Deus não é confiável: “Foi assim que Deus disse?”. Segundo, Deus não é verdadeiro: “Certamente não morrereis”. Terceiro, Deus não é bom: “Deus sabe…”. Quarto, o homem pode ocupar o lugar de Deus: “Sereis como Deus”. A sequência é importante porque mostra que a rebelião moral nasce de uma determinada compreensão da realidade. O homem não simplesmente desobedece porque deseja desobedecer; ele passa a desejar a desobediência porque adotou uma interpretação alternativa da realidade.

Aqui encontramos novamente o princípio que orienta toda esta série: a forma como pensamos determina a forma como vivemos. Eva viu, desejou e comeu, mas o processo não começou quando ela viu o fruto. Começou quando passou a acreditar em uma narrativa diferente daquela que Deus havia estabelecido. O fruto tornou-se desejável porque uma nova interpretação da realidade havia sido aceita. A árvore proibida passou a parecer uma oportunidade de realização. A limitação estabelecida por Deus passou a parecer uma privação injusta. A dependência do Criador passou a parecer inferior à autonomia da criatura.

O pecado, portanto, não é irracional no sentido de não possuir nenhuma lógica. Ele possui uma lógica própria, uma lógica construída sobre uma mentira. A criatura passa a organizar a vida a partir de pressupostos falsos. É por isso que o pecado é tão sedutor. Ele raramente se apresenta como aquilo que realmente é. Ele promete liberdade, mas produz escravidão; promete conhecimento, mas conduz à alienação; promete realização, mas produz vazio; promete vida, mas conduz à morte. A serpente não vendeu simplesmente um fruto. Ela vendeu uma cosmovisão.

A mentira do Éden e a cultura contemporânea

Quando observamos a cultura contemporânea à luz de Gênesis 3, percebemos que a humanidade não inventou uma nova rebelião contra Deus. Ela apenas desenvolveu, sofisticou e institucionalizou a antiga. A antiga mensagem era: “Vocês podem determinar a realidade por si mesmos”. Hoje ela aparece em diferentes formulações: “Minha verdade”, “minha identidade”, “minha realidade”, “eu determino quem sou”, “ninguém pode dizer o que é certo para mim”. Naturalmente, as expressões contemporâneas são muito mais complexas do que essas fórmulas resumidas, e não devemos reduzir toda a cultura moderna a uma caricatura. Entretanto, existe um princípio comum que merece atenção: a autoridade objetiva de Deus é substituída pela autonomia do indivíduo.

Nesse ponto, a análise de Schaeffer se mostra particularmente útil. Para ele, a história cultural deve ser compreendida a partir das mudanças nas pressuposições fundamentais de uma sociedade. A cultura não surge do nada. Há uma relação entre aquilo que as pessoas acreditam e aquilo que elas produzem. A descrição de Schaeffer é justamente a de um fluxo que parte do mundo das ideias e chega às manifestações concretas da cultura. Sua análise da história ocidental acompanha esse desenvolvimento através de filosofia, ciência, religião, arte, literatura e outras expressões culturais.

Isso significa que a igreja não pode responder adequadamente às transformações culturais simplesmente reclamando dos resultados. Se uma determinada sociedade possui uma determinada visão de ser humano, de verdade, de liberdade e de moralidade, os comportamentos produzidos por essa visão não deveriam nos surpreender. A questão mais importante não é apenas perguntar: “O que nossa cultura está fazendo?”, mas: “Que visão de realidade torna essas práticas coerentes?”

É exatamente aqui que Romanos 1 aprofunda o diagnóstico. Paulo não começa dizendo simplesmente que a humanidade possui comportamentos ruins. Ele afirma que os seres humanos “suprimem a verdade pela injustiça” (Rm 1.18), que “tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus” (Rm 1.21) e que “trocaram a verdade de Deus pela mentira” (Rm 1.25). Observe a sequência: verdade, conhecimento, pensamento, adoração e comportamento. A questão moral está ligada à questão epistemológica e à questão espiritual. O problema humano não é apenas que fazemos coisas erradas; é que, em nossa condição caída, recusamos reconhecer Deus como Deus.

Por isso Paulo pode dizer que “os seus pensamentos tornaram-se fúteis, e o coração insensato deles se obscureceu” (Rm 1.21). O pecado afeta a totalidade da pessoa. A queda não destruiu a capacidade humana de pensar, estudar, criar, pesquisar ou desenvolver conhecimento; mas corrompeu sua relação com a verdade e com o próprio Deus. O ser humano continua sendo portador da imagem divina e, por isso, continua produzindo ciência, arte, filosofia, tecnologia e cultura. Entretanto, quando procura interpretar a realidade sem submissão ao Criador, sua inteligência torna-se instrumento de autonomia.

É por isso que Romanos 1 termina dizendo que a humanidade “trocaram a verdade de Deus pela mentira, adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador” (Rm 1.25). Essa é, em essência, a repetição do Éden. A criatura toma o lugar do Criador. O ser humano passa a procurar na criação aquilo que somente Deus pode oferecer.

A idolatria moderna e a busca pela autonomia

A idolatria bíblica não deve ser compreendida apenas como a adoração de imagens de madeira, pedra ou metal. Esses ídolos existem, mas a Escritura revela algo mais profundo: idolatria é conceder à criatura aquilo que pertence exclusivamente ao Criador. É procurar segurança, identidade, significado, prazer ou esperança em algo que não é Deus.

Por isso, embora os ídolos tenham mudado de aparência, o coração humano permanece essencialmente o mesmo. Alguns procuram segurança no dinheiro; outros, no poder; outros, no prazer; outros, no reconhecimento; outros, na carreira, na ciência, na política, na tecnologia ou mesmo na religião. O problema não está necessariamente no objeto em si. Dinheiro, conhecimento, trabalho, tecnologia, reconhecimento e influência podem ser dons legítimos da providência divina. O problema surge quando uma coisa criada recebe o lugar que pertence ao Criador.

É nesse sentido que a primeira grande mentira continua operando. Ela afirma que a criatura pode encontrar vida afastando-se de Deus. O coração humano continua ouvindo a promessa: “Você será como Deus”. A linguagem muda, os meios mudam, as instituições mudam, as tecnologias mudam, mas o centro da rebelião permanece. O homem deseja determinar sua própria existência independentemente de Deus.

E aqui a igreja precisa tomar cuidado para não transformar essa análise em uma simples condenação da cultura. Não estamos diante de “eles” e “nós”. O problema do Éden também está dentro de nós. O diagnóstico de Romanos 3 é universal: “não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10); “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). A cultura secular não criou a pecaminosidade humana. Ela apenas fornece novos ambientes nos quais a velha natureza encontra novas formas de expressão.

Esse ponto é pastoralmente decisivo. É possível denunciar a idolatria do mundo e, ao mesmo tempo, cultivar ídolos dentro da própria igreja. É possível combater o relativismo moral e, simultaneamente, transformar nossas preferências pessoais em mandamentos divinos. É possível defender a autoridade das Escrituras e, ao mesmo tempo, interpretar a Bíblia segundo aquilo que desejamos que ela diga. A serpente não está interessada apenas em levar pessoas para fora da igreja; ela também procura distorcer a Palavra dentro dela.

O problema é mais profundo do que comportamento

A mensagem de Gênesis 3 nos impede de acreditar que a solução para a crise humana seja simplesmente fornecer mais informação. Se o problema fosse falta de conhecimento, a educação resolveria. Se fosse falta de dinheiro, o desenvolvimento econômico resolveria. Se fosse falta de tecnologia, a inovação resolveria. Mas a história humana demonstra repetidamente que conhecimento, riqueza e tecnologia podem coexistir com violência, injustiça, exploração, corrupção, solidão e desespero.

O problema está no coração humano. A queda afetou nossa relação com Deus, com o próximo, com a criação e conosco mesmos. O pecado desordenou nossos afetos e nossa vontade, de modo que frequentemente desejamos aquilo que nos destrói e rejeitamos aquilo que poderia nos conduzir à vida. O problema da humanidade não é apenas que ela precisa aprender novas regras; ela precisa ser reconciliada com Deus.

Essa é uma distinção fundamental entre o evangelho e qualquer projeto meramente moralista de transformação cultural. O cristianismo não oferece apenas uma lista melhor de comportamentos. O evangelho anuncia uma nova realidade em Cristo. Deus não enviou seu Filho simplesmente para tornar pessoas ruins um pouco melhores. Cristo veio para salvar pecadores, reconciliá-los com Deus e conceder-lhes nova vida. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

A esperança cristã, portanto, não está no homem. Está em Deus. A resposta para o Éden não é simplesmente uma humanidade mais educada, mais informada ou mais civilizada. A resposta é Cristo. Aquele que foi prometido imediatamente após a queda é o Descendente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3.15). A história da redenção começa justamente no lugar em que a história da rebelião humana começa.

A verdade que vence a mentira

Há uma impressionante contraposição entre Gênesis 3 e o evangelho. No jardim, a serpente diz ao homem que a vida está em afastar-se de Deus. No evangelho, Deus demonstra que a verdadeira vida está em reconciliar-se com Ele. No Éden, a criatura deseja ocupar o lugar do Criador. No evangelho, o próprio Filho de Deus assume a condição humana e humilha-se até à morte de cruz (Fp 2.5-8). No jardim, Adão tenta esconder sua vergonha. No evangelho, Cristo toma sobre si a vergonha do pecador. No Éden, o homem foge de Deus. Na redenção, Deus vem ao encontro do homem.

A pergunta divina “Onde estás?” (Gn 3.9) não deve ser entendida como uma busca por informação, como se Deus não soubesse onde Adão estava. É uma pergunta que revela a iniciativa divina em direção ao pecador. O homem havia se escondido, mas Deus veio procurá-lo. Desde então, a história da redenção pode ser vista como a história da graça de Deus buscando pecadores perdidos. O mesmo Deus que entrou no jardim depois da queda é aquele que, na plenitude dos tempos, enviou seu Filho ao mundo para salvar aquilo que estava perdido.

Essa verdade também corrige qualquer leitura excessivamente pessimista da análise cultural de Schaeffer. Sim, a cultura humana pode afastar-se da verdade. Sim, civilizações podem entrar em decadência. Sim, ideias falsas produzem consequências terríveis. Sim, a rejeição dos absolutos bíblicos pode produzir relativismo, niilismo e desordem moral. Mas o cristão não olha para tudo isso como alguém que perdeu a esperança. Nossa confiança não está na capacidade da cultura de se regenerar por si mesma, nem na capacidade da igreja de controlar a história. Nossa esperança está no Deus que reina sobre a história e no evangelho que continua sendo “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16).

É justamente por isso que Romanos 12.2 precisa ocupar lugar central em nossa reflexão: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. A igreja não pode simplesmente copiar a cultura, mas também não deve fugir dela. Somos chamados a discerni-la. Não podemos abandonar a verdade para sermos aceitos, mas também não podemos abandonar as pessoas porque discordamos de suas pressuposições. Schaeffer foi importante precisamente porque insistiu na necessidade de compreender o pensamento do mundo para comunicar o evangelho a pessoas reais. A editora brasileira destaca essa dimensão apologética de sua obra: ele procurava dialogar com questões de arte, história, ciência e cultura, levando o pensamento contemporâneo cativo a Cristo.

Como viveremos?

Chegamos, então, à pergunta que dá nome à série: como viveremos?

A primeira resposta precisa ser: viveremos reconhecendo que Deus é Deus e que sua Palavra é a verdade. Não podemos construir nossa existência a partir das tendências do momento. A cultura muda. As ideologias mudam. As gerações mudam. Os valores sociais mudam. As tecnologias mudam. Mas “a palavra do nosso Deus permanece eternamente” (Is 40.8).

Viveremos também reconhecendo que a batalha cultural é, antes de tudo, uma batalha por cosmovisões. Precisamos ensinar nossos filhos não apenas o que pensar, mas como pensar biblicamente. Precisamos formar cristãos capazes de compreender as perguntas de sua geração e respondê-las sem abandonar os pressupostos do evangelho. Precisamos de uma fé que não seja meramente emocional, mas intelectualmente coerente; não simplesmente defensiva, mas apologética; não isolada da cultura, mas capaz de discerni-la; não conformada ao mundo, mas transformada pela renovação da mente.

E precisamos começar por nós mesmos. Antes de perguntarmos onde o mundo está errado, devemos perguntar onde nós estamos sendo conformados. Em quais áreas temos permitido que a cultura determine nossa compreensão de felicidade, sucesso, identidade, família, sexualidade, dinheiro, poder, beleza e realização? Quais ideias absorvemos sem perceber? Quais pressupostos da nossa época entraram silenciosamente em nossa maneira de pensar? Onde temos acrescentado à Palavra de Deus aquilo que Deus não disse? Onde temos diminuído aquilo que Deus afirmou? Onde estamos ouvindo a voz da serpente enquanto imaginamos estar simplesmente seguindo a nossa própria consciência?

A primeira grande mentira não foi simplesmente “Deus está errado”. Foi algo mais sutil: “Você pode interpretar a realidade sem precisar submeter-se à Palavra de Deus.” É essa mentira que atravessou os séculos. E é essa mentira que o evangelho confronta.

A resposta cristã não é simplesmente trocar uma ideologia por outra. É voltar à realidade criada por Deus, reconhecer sua autoridade, receber sua Palavra e encontrar em Cristo a verdadeira vida. O homem tentou encontrar liberdade tornando-se independente de Deus, mas descobriu a escravidão. Cristo chama o homem à rendição e oferece verdadeira liberdade: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32).

A primeira grande mentira começou com uma pergunta sobre a Palavra de Deus. A restauração começa com uma resposta à Palavra de Deus. A serpente disse: “É assim que Deus disse?” O discípulo de Cristo precisa responder: “Sim, Deus falou, e porque Deus falou, nós ouvimos, cremos e obedecemos.”

Uma pergunta permanece

Mas se a batalha começou no campo das ideias, precisamos dar um passo além. Como exatamente chegamos à sociedade em que vivemos? Como uma cultura que durante séculos foi profundamente influenciada pelo cristianismo passou a questionar os próprios fundamentos sobre os quais havia sido construída? Que mudanças aconteceram no pensamento ocidental para que a autoridade de Deus fosse progressivamente substituída pela autoridade do homem?

Essa será a questão da próxima mensagem.

Se nesta primeira palavra voltamos ao Éden para descobrir onde tudo começou, na próxima precisamos avançar pela história das ideias para compreender como aquela antiga rebelião foi assumindo novas formas ao longo dos séculos. Precisaremos olhar para o desenvolvimento da cultura ocidental e perceber como mudanças filosóficas e intelectuais acabaram produzindo mudanças morais, sociais e espirituais.

A pergunta continuará sendo a mesma:

Como viveremos?

Mas, para respondê-la, precisaremos compreender primeiro como chegamos até aqui.

Referências

SCHAEFFER, Francis A. Como viveremos? São Paulo: Cultura Cristã, 2025. A edição brasileira corresponde à obra originalmente publicada em inglês como How Should We Then Live?, cuja primeira edição apareceu em 1976.

BÍBLIA SAGRADA. Gênesis 2–3; Salmo 119; Isaías 40.8; João 3.16; João 8.32; Romanos 1.18-25; Romanos 3.10,23; Romanos 12.1-2; Filipenses 2.5-11; Apocalipse 22.18-19.

EDGAR, William. Francis Schaeffer e a vida cristã: a espiritualidade contracultural. São Paulo: Cultura Cristã, 2018. A obra examina especialmente a espiritualidade de Schaeffer e sua compreensão da vida cristã em confronto com a cultura.

Soli Deo gloria