Como viveremos – quando Deus deixou de ser o centro
A transformação de uma cosmovisão e suas consequências para a vida
Na primeira parte desta série, voltamos ao jardim do Éden para compreender onde começou a grande ruptura que continua marcando a história humana. Descobrimos que a queda não começou simplesmente quando Eva tomou o fruto. Antes do ato houve uma mudança na maneira de pensar. A serpente questionou a Palavra de Deus, colocou em dúvida a bondade do Criador e apresentou ao ser humano a possibilidade de viver de maneira independente de Deus: “Sereis como Deus” (Gn 3.5). A primeira grande mentira, portanto, não era apenas uma mentira sobre uma árvore; era uma mentira sobre quem tem autoridade para definir a realidade. A criatura passou a imaginar que poderia interpretar o mundo, definir o bem e o mal e determinar seu próprio destino sem depender do Criador. Por isso, a frase que acompanha toda esta série continua sendo fundamental: a forma como pensamos determina a forma como vivemos.
A partir dessa perspectiva, a segunda pergunta da série é inevitável: o que aconteceu depois do Éden? A humanidade continuou carregando consigo a disposição de viver sem Deus no centro. Os nomes mudaram, as filosofias mudaram, as culturas mudaram e as tecnologias mudaram, mas a antiga tentação permaneceu. O ser humano continuou procurando estabelecer sua própria autoridade sobre a realidade. É exatamente essa trajetória que esta segunda reflexão procura acompanhar. Não se trata de afirmar que houve um determinado dia em que Deus simplesmente desapareceu da cultura ocidental, nem de idealizar períodos anteriores da história. Trata-se de observar uma transformação progressiva nas pressuposições pelas quais o Ocidente passou a compreender autoridade, verdade, conhecimento, humanidade e identidade. Em termos muito simples, podemos acompanhar esse deslocamento por meio de quatro movimentos: Deus ocupando o centro; a razão ocupando progressivamente o centro; o homem ocupando o centro; e, finalmente, o eu e os sentimentos ocupando o centro.
Essa perspectiva possui profunda afinidade com a proposta de Francis Schaeffer em Como viveremos?. Schaeffer não estava simplesmente interessado em denunciar os pecados de sua época. Seu interesse era compreender as ideias que haviam moldado a cultura ocidental. Para ele, uma sociedade não muda apenas porque seus costumes mudam; seus costumes mudam porque suas pressuposições mudam. As pessoas passam a pensar de determinada maneira, essa maneira de pensar produz uma determinada visão de realidade e, posteriormente, essa visão de realidade se manifesta na arte, na filosofia, na ciência, na política, na moralidade, na família e no comportamento cotidiano. A cultura visível é, em grande medida, o resultado de pressupostos invisíveis. É por isso que uma análise cristã da cultura precisa ir além dos sintomas e procurar compreender as raízes intelectuais e espirituais que estão por trás deles.
Deus no centro: o horizonte cristão
Para compreender o que mudou, precisamos primeiro compreender aquilo que existia antes dessa transformação. Durante grande parte da história do Ocidente cristão, Deus funcionava como referência fundamental para a interpretação da realidade. Isso não significa que todas as pessoas fossem verdadeiramente convertidas, nem que as sociedades cristãs fossem moralmente perfeitas. A história da cristandade está marcada por pecado, corrupção, guerras, abusos de poder, injustiças e graves contradições. A própria igreja, em determinados períodos, cometeu erros que precisam ser reconhecidos sem qualquer tentativa de romantização. Portanto, dizer que Deus ocupava o centro do horizonte cultural não significa dizer que todos obedeciam a Deus. Significa que Deus fazia parte da estrutura fundamental pela qual a realidade era compreendida.
Essa distinção é importante porque evita dois erros opostos. O primeiro é o saudosismo, que imagina que houve uma época em que a sociedade cristã era perfeita e que bastaria retornar ao passado para resolver nossos problemas. O segundo é o anacronismo, que olha para épocas anteriores utilizando categorias contemporâneas e não consegue perceber que a própria estrutura de pensamento era diferente. Durante séculos, no horizonte cristão ocidental, a existência humana era compreendida dentro de uma ordem criada por Deus. Havia um Criador, havia uma criação, havia propósito para a existência, havia uma ordem moral objetiva e havia responsabilidade diante de Deus. O indivíduo não era concebido como uma realidade completamente autônoma, capaz de determinar sozinho o significado de sua existência.
Essa diferença pode ser percebida nas perguntas fundamentais que organizavam a existência. Em um horizonte fortemente cristão, a pergunta não era apenas “O que quero fazer da minha vida?”, mas “Como devo viver diante de Deus?”. A morte não era apenas um acontecimento biológico; remetia à eternidade. O pecado não era simplesmente uma violação das normas sociais; era uma ofensa contra Deus. A moralidade não era apenas uma convenção estabelecida pela sociedade; estava vinculada à convicção de que existia uma ordem moral objetiva. A existência humana não começava no indivíduo. Ela começava em Deus.
Essa visão pode ser resumida em uma afirmação simples e, ao mesmo tempo, fundamental para toda a antropologia cristã: Deus é Deus e nós somos criaturas. A Bíblia começa justamente dessa maneira: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). A Escritura não começa com o homem perguntando se Deus existe. Ela começa afirmando Deus como Criador e apresentando o universo como criação. Essa estrutura é decisiva. Se Deus é Criador, então o mundo não é autônomo. Se Deus é Criador, o homem não é autônomo. Se Deus é Criador, a existência humana possui uma finalidade que não é simplesmente inventada pelo indivíduo.
Paulo expressará essa verdade de maneira magnífica em Romanos 11.36: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém”. A vida procede de Deus, depende de Deus e encontra nele sua finalidade. Essa é a estrutura fundamental da cosmovisão cristã. O homem não é o centro da realidade porque não é o autor da realidade. Ele é criatura, e sua dignidade não diminui por isso. Pelo contrário: sua dignidade deriva precisamente do fato de ter sido criado à imagem de Deus.
Romanos 1 acrescenta uma dimensão ainda mais profunda. Paulo afirma que os homens, embora tivessem conhecimento de Deus, “não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças” (Rm 1.21). O problema não era simplesmente ausência de informação. O problema era uma recusa em reconhecer Deus em seu devido lugar. O pecado envolve uma desordem fundamental da adoração. O homem deixa de glorificar o Criador como Criador e, consequentemente, passa a reorganizar a realidade ao redor de outra coisa.
Aqui encontramos o princípio que acompanhará toda a nossa análise: o centro determina a estrutura da vida. Aquilo que ocupa o lugar de autoridade última acaba determinando nossa compreensão da verdade, da moralidade, da identidade, da liberdade e do propósito. Se Deus está no centro, o homem recebe sua identidade de Deus. Se o homem ocupa o centro, ele passa a produzir sua própria identidade. Se a razão ocupa o centro, aquilo que pode ser conhecido será definido pela razão. Se os sentimentos ocupam o centro, aquilo que é verdadeiro passa a ser progressivamente determinado pela experiência subjetiva.
A questão, portanto, não é simplesmente se uma sociedade continua mencionando o nome de Deus. Uma cultura pode continuar falando sobre Deus, celebrando determinadas festas religiosas, mantendo símbolos religiosos e preservando tradições cristãs e, ainda assim, ter deslocado Deus do centro. A questão decisiva é outra: Deus ainda funciona como a referência última pela qual a realidade é interpretada?
Quando a razão ocupou o centro
O deslocamento não aconteceu de uma vez. Foi progressivo. Uma das mudanças fundamentais ocorreu quando a confiança humana começou a se deslocar da revelação divina para a capacidade da razão humana. É importante fazer aqui uma distinção que a própria mensagem enfatiza: não existe nada de errado com a razão. Pensar, investigar, perguntar, argumentar e buscar conhecimento são capacidades boas e legítimas, pois fazem parte daquilo que significa ser humano criado à imagem de Deus. O problema não está em utilizar a razão; está em transformar a razão em autoridade absoluta.
O cristianismo nunca ensinou que devemos abandonar a razão para crer. A fé cristã possui conteúdo proposicional, afirma verdades sobre Deus, sobre o mundo, sobre o homem e sobre a salvação, e essas verdades podem e devem ser examinadas racionalmente. A tradição cristã sempre produziu teólogos, filósofos, cientistas e intelectuais precisamente porque a realidade criada por Deus pode ser investigada. A criação é inteligível porque possui um Criador racional. O problema surge quando a criatura transforma sua própria razão no tribunal diante do qual toda realidade deve comparecer, inclusive Deus.
Esse deslocamento tornou-se especialmente importante na modernidade e no Iluminismo. A razão humana adquiriu um papel cada vez mais decisivo como instrumento de conhecimento e autoridade. A pergunta começou a mudar. Já não era somente “O que Deus revelou?”. Passou a ser também — e, em determinados ambientes, predominantemente — “O que posso conhecer pela minha própria razão?”. A questão não é que essa pergunta seja ilegítima. Ela se torna problemática quando pressupõe que aquilo que não pode ser validado segundo determinados critérios humanos não pode ser verdadeiro.
Um exemplo contemporâneo ajuda a compreender a questão. Imagine alguém afirmando: “Só acredito naquilo que a ciência consegue observar, medir e reproduzir em laboratório; portanto, Deus não existe”. Parece uma afirmação científica, mas não é. A ciência não realizou um experimento que demonstrou a inexistência de Deus. Antes da conclusão, foi estabelecido um pressuposto filosófico: somente aquilo que pode ser submetido ao método científico possui validade cognitiva. O método foi transformado em uma teoria sobre a totalidade da realidade. Nesse momento, já não estamos diante de uma conclusão científica, mas de uma afirmação filosófica que utiliza a ciência como fundamento de uma visão de mundo.
A diferença entre ciência e cientificismo é fundamental. A ciência investiga aspectos observáveis e mensuráveis da realidade por meio de métodos apropriados. O cientificismo, por outro lado, transforma a ciência em uma espécie de metafísica total, afirmando que somente aquilo que a ciência pode investigar existe ou possui significado. O problema é que essa própria afirmação não pode ser demonstrada cientificamente. Não existe experimento de laboratório capaz de provar que somente aquilo que pode ser testado em laboratório é verdadeiro. Trata-se de uma pressuposição filosófica.
Isso também aparece quando discutimos moralidade. A ciência pode investigar como determinada ação afeta o cérebro, quais hormônios estão envolvidos, quais consequências sociais podem ocorrer ou como determinados comportamentos se desenvolvem. Mas descrever o que acontece não é necessariamente determinar o que deve acontecer. O fato de uma determinada prática produzir determinada consequência não responde, por si só, à pergunta moral sobre se aquela prática é certa ou errada. A passagem do “é” para o “deve ser” envolve pressupostos éticos que não podem ser simplesmente extraídos de dados empíricos.
Portanto, o cristão não precisa temer a ciência. Pelo contrário, podemos estudar a criação justamente porque cremos que existe um Criador. Descobrir como a criação funciona não significa descobrir que o Criador não existe. A questão decisiva é outra: quem possui autoridade para interpretar o significado último da realidade? A razão é uma excelente serva, mas um péssimo deus.
Quando o homem ocupou o centro
O passo seguinte é ainda mais significativo. À medida que a razão humana ganhou confiança, o próprio homem começou a ocupar um lugar cada vez maior no centro da cosmovisão. Romanos 1.23 descreve esse processo com a linguagem da troca: “mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível”. O homem não suporta permanecer sem um centro de adoração. Quando Deus é deslocado, alguma outra coisa precisa ocupar seu lugar.
A modernidade alimentou uma confiança extraordinária na capacidade humana de conhecer, organizar e transformar a realidade. A ciência poderia avançar; a tecnologia poderia desenvolver-se; a educação poderia transformar as pessoas; a política poderia reorganizar a sociedade; o progresso poderia construir um futuro melhor. Há elementos verdadeiros nessas expectativas. Ciência, educação, tecnologia e instituições podem produzir benefícios reais e extraordinários. O problema aparece quando essas coisas recebem uma expectativa que ultrapassa aquilo que podem legitimamente oferecer.
A esperança no progresso pode se transformar em uma espécie de soteriologia secular. O homem passa a acreditar que pode salvar a si mesmo por meio do conhecimento, da ciência, da política, da tecnologia ou da reorganização social. A criatura começa a esperar da criação aquilo que somente o Criador pode oferecer.
Aqui a trajetória se torna muito clara: primeiro Deus; depois a razão; finalmente o próprio homem.
A pergunta deixa de ser apenas “O que Deus quer?” e passa a ser “O que somos capazes de fazer?”. É nesse ponto que o conceito de autonomia se torna fundamental. Autonomia, nesse contexto, significa a tentativa de determinar os rumos fundamentais da existência a partir do próprio indivíduo, sem uma autoridade transcendente que possua a palavra final. O homem passa a enxergar a si mesmo como capaz de estabelecer sua própria direção.
E novamente estamos diante da antiga promessa do Éden: “Sereis como Deus”. A linguagem filosófica pode ser sofisticada; os argumentos podem ser intelectualmente elaborados; os instrumentos tecnológicos podem ser impressionantes; mas a tentação permanece. A criatura deseja ocupar o lugar do Criador.
É importante, entretanto, evitar uma caricatura. A modernidade não produziu apenas coisas negativas. A expansão do conhecimento científico, avanços médicos, desenvolvimento tecnológico, alfabetização, instituições jurídicas e inúmeras outras conquistas trouxeram benefícios concretos à humanidade. Uma crítica cristã séria não precisa negar essas conquistas. A questão é perguntar qual é o fundamento último da esperança depositada nelas. A ciência pode curar enfermidades, mas não pode eliminar a morte. A educação pode transmitir conhecimento, mas não pode regenerar o coração. A tecnologia pode ampliar nossas possibilidades, mas não pode reconciliar o pecador com Deus. A política pode organizar sociedades, mas não pode remover a corrupção moral do coração humano.
O problema não está em reconhecer aquilo que o homem pode fazer. O problema está em imaginar que o homem pode fazer aquilo que somente Deus pode fazer.
Quando o eu ocupou o centro
Se a modernidade colocou enorme confiança na razão e no progresso, o século XX abalou profundamente essa confiança. Guerras mundiais, totalitarismos, genocídios, armas de destruição em massa e outras tragédias produziram uma crise na crença de que a razão humana e o progresso seriam suficientes para conduzir a humanidade a um futuro inevitavelmente melhor. A própria história passou a questionar o otimismo moderno.
É nesse ambiente que a pós-modernidade desenvolve uma crítica profunda às grandes narrativas, à ideia de verdade universal e à confiança em sistemas totalizantes. Se a modernidade dizia, em linhas gerais, “existe uma verdade e a razão pode encontrá-la”, a pós-modernidade passou a perguntar: “Quem disse que existe uma única verdade?”. A consequência é uma subjetivação crescente da verdade. A pergunta muda de “O que é verdade?” para “O que é verdade para mim?”.
Nesse processo, ocorre mais uma mudança de centro. O eixo passa de Deus para a razão, da razão para o homem e do homem para o eu. O indivíduo torna-se progressivamente a referência de sua própria identidade, de suas escolhas e de sua experiência. O que antes era avaliado à luz de uma verdade objetiva passa a ser avaliado cada vez mais a partir da experiência pessoal.
Chegamos, então, a uma característica particularmente marcante da cultura contemporânea: o sentimento passa a exercer função de autoridade.
Não basta mais afirmar “esta é a minha verdade”. Surge uma linguagem ainda mais subjetiva: “é assim que eu me sinto”. “Siga seu coração.” “Seja fiel a quem você é.” “Faça aquilo que faz você feliz.” “Ninguém pode dizer quem você deve ser.” Essas expressões podem parecer apenas frases motivacionais, mas carregam uma determinada antropologia. Elas pressupõem que o indivíduo possui dentro de si a autoridade necessária para determinar sua identidade e sua verdade.
O problema não é reconhecer que sentimentos são importantes. Eles são. Deus criou seres humanos capazes de sentir, amar, sofrer, alegrar-se e desejar. A fé cristã não é uma religião de pessoas emocionalmente anestesiadas. O problema surge quando o sentimento deixa de ser uma dimensão da pessoa e passa a ser o juiz da realidade.
Quando isso acontece, a lógica se torna: “Eu sinto, portanto, isso é verdadeiro para mim”. Mas sentimentos são reais sem serem necessariamente normativos. Eu posso sentir medo e, ainda assim, não estar diante de um perigo real. Posso sentir-me rejeitado sem ter sido rejeitado. Posso desejar algo profundamente e, ainda assim, aquilo que desejo ser prejudicial. Posso sentir que uma determinada decisão é certa e descobrir posteriormente que estava errado.
A Bíblia nunca nos ensina a ignorar nossos sentimentos, mas também nunca os transforma em autoridade final. Pelo contrário, a Escritura chama o coração à submissão à verdade de Deus. O cristão não é alguém que não sente; é alguém que aprende a interpretar seus sentimentos à luz da verdade revelada.
Essa diferença é crucial. A cultura contemporânea frequentemente diz: “Seja fiel a si mesmo.” Jesus diz: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8.34). A primeira mensagem coloca o eu no centro; a segunda coloca Cristo no centro.
Deus → razão → homem → eu
Quando observamos essa trajetória em conjunto, percebemos que não estamos simplesmente diante de uma sucessão de filosofias. Estamos diante de uma mudança de centro.
No primeiro estágio, a pergunta fundamental era: “O que Deus revelou?”
Depois, ganha força a pergunta: “O que a razão humana pode conhecer?”
Em seguida: “O que o homem pode construir?”
E finalmente: “O que eu sinto e o que isso significa para mim?”
Podemos resumir essa trajetória assim:
Deus → razão → homem → eu → sentimentos.
Essa sequência não pretende oferecer uma descrição exaustiva de toda a história intelectual do Ocidente, nem deve ser utilizada como uma cronologia rígida. A história é muito mais complexa. Houve cristãos usando a razão, houve filósofos modernos profundamente religiosos, houve pensadores pós-modernos com posições muito diferentes entre si e houve elementos de subjetividade presentes muito antes do século XX. Portanto, o mapa é uma ferramenta interpretativa, não uma cronologia absoluta.
Ainda assim, ele nos ajuda a perceber uma tendência importante: o deslocamento progressivo da autoridade transcendente para a autoridade humana e, finalmente, para a autoridade subjetiva do indivíduo.
E esse deslocamento tem consequências. Quando a visão de Deus muda, a visão do homem muda. Quando a visão do homem muda, a visão da moralidade muda. Quando a moralidade muda, a visão da família muda. Quando a família muda, a compreensão da identidade muda. E quando a identidade passa a ser construída subjetivamente, o próprio eu torna-se a medida pela qual a realidade deve ser interpretada.
É justamente aqui que a tese de Schaeffer se torna pastoralmente importante. Se queremos compreender uma cultura, não basta observar seus comportamentos. Precisamos perguntar quais pressuposições estão por trás deles. Uma sociedade não chega simplesmente a determinadas conclusões morais; ela chega a essas conclusões porque primeiro adotou determinada compreensão de Deus, do homem, da verdade e da realidade.
Por isso, a forma como pensamos determina a forma como vivemos.
O problema não está apenas “lá fora”
Existe, entretanto, um perigo pastoral nessa discussão. Podemos facilmente terminar este artigo apontando o dedo para a cultura e dizendo: “Veja como o mundo está perdido”. Podemos denunciar o relativismo, a cultura do eu, a subjetivização da verdade, a crise da família e a centralidade dos sentimentos. Podemos lamentar aquilo que nossos filhos encontram nas escolas e nas redes sociais. Podemos criticar televisão, internet, universidades e movimentos culturais.
Mas Romanos 1 não foi escrito para que nos sentíssemos superiores aos pecadores.
O texto precisa primeiro nos examinar.
A pergunta mais importante não é simplesmente: “Quando Deus deixou de ser o centro da sociedade?”. A pergunta que o texto de Romanos 1 coloca diante de cada cristão é muito mais pessoal: “Deus ainda é o centro da minha vida?”
É perfeitamente possível viver dentro da igreja e, ainda assim, colocar outra coisa no centro. É possível cantar louvores, conhecer a Bíblia, defender a doutrina correta e organizar a vida em torno do dinheiro. É possível falar sobre Deus e viver para a aprovação das pessoas. É possível professar fé em Cristo e ser governado pelo desejo de controle. É possível defender a verdade objetiva e, ao mesmo tempo, fazer dos próprios sentimentos a autoridade final quando a Palavra confronta nossos desejos.
Aquilo que ocupa o centro governa o restante da existência. Se o dinheiro ocupa o centro, nossas decisões serão orientadas pelo dinheiro. Se o sucesso ocupa o centro, sacrificaremos coisas importantes para alcançá-lo. Se a aprovação das pessoas ocupa o centro, viveremos tentando agradar aos outros. Se nossos sentimentos ocupam o centro, seremos governados por aquilo que sentimos em cada momento. Mas quando Deus ocupa o centro, as outras coisas começam a encontrar seu devido lugar. O dinheiro deixa de ser senhor e passa a ser instrumento; o trabalho deixa de ser identidade e passa a ser vocação; a família deixa de ser um ídolo e passa a ser uma responsabilidade recebida de Deus; os sentimentos deixam de ser o senhor da vida e passam a ser submetidos à verdade da Palavra.
Essa é uma das grandes contribuições de uma cosmovisão cristã: ela não exige que abandonemos as coisas criadas; exige que as coloquemos no lugar correto. O problema não é possuir dinheiro, mas fazer dele um deus. Não é trabalhar, mas transformar o trabalho em identidade absoluta. Não é amar a família, mas permitir que ela ocupe o lugar de Deus. Não é sentir, mas transformar o sentimento em autoridade final.
A idolatria não consiste somente em ajoelhar-se diante de uma imagem. Ela consiste em colocar uma criatura no lugar do Criador.
O centro determina o modo de viver
Talvez seja possível compreender toda essa discussão a partir de uma pergunta simples: quem tem a palavra final?
Quem determina o que é verdadeiro?
Quem determina o que é bom?
Quem determina quem somos?
Quem determina para que existimos?
Quem determina o que devemos amar?
Quem tem a palavra final quando nossos desejos entram em conflito com a Palavra de Deus?
Essa é a verdadeira questão por trás da batalha cultural.
A cultura contemporânea frequentemente nos diz: “Faça o que fizer você feliz”. A Escritura nos conduz a uma pergunta diferente: “O que glorifica a Deus?”
A cultura diz: “Siga seu coração”. A Escritura nos chama a guardar o coração e submetê-lo à verdade.
A cultura diz: “Seja fiel a você mesmo”. Cristo diz: “Negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”.
A cultura coloca o eu no centro. O evangelho coloca Cristo no centro.
É aqui que percebemos que o problema da nossa geração não pode ser resolvido apenas por uma mudança de comportamento. Não precisamos simplesmente ensinar pessoas a terem comportamentos mais cristãos. Precisamos anunciar o evangelho que reconcilia pecadores com Deus e transforma a maneira como eles compreendem a realidade.
O homem não precisa simplesmente aprender a administrar melhor sua vida. Ele precisa ser reconciliado com seu Criador.
O evangelho: Deus vem ao encontro do homem
É neste ponto que precisamos fazer uma distinção essencial. O evangelho não é simplesmente uma ordem para “colocar Deus novamente no centro”. Se fosse apenas isso, ainda estaríamos dependendo da capacidade humana. O evangelho é muito mais glorioso: Deus veio ao encontro do homem quando o homem havia se afastado de Deus.
No Éden, Adão se escondeu, mas Deus foi ao seu encontro. Na história da redenção, Deus continua tomando a iniciativa. O Senhor chama Abraão, estabelece aliança com Israel, envia os profetas e, na plenitude dos tempos, entra na própria história humana na pessoa de Jesus Cristo.
O Criador entrou na criação.
Aquele que foi rejeitado pelo homem veio buscar o homem que o rejeitou.
Aquele contra quem pecamos tomou sobre si a culpa do pecado.
Aquele cuja autoridade questionamos entregou-se voluntariamente na cruz para nos reconciliar com Deus.
Essa é a grande diferença entre uma filosofia moral e o evangelho. Uma filosofia pode dizer: “Mude sua maneira de viver”. O evangelho anuncia: “Cristo morreu e ressuscitou para dar nova vida ao pecador.” Uma filosofia pode oferecer princípios. O evangelho oferece reconciliação. Uma filosofia pode tentar reorganizar a sociedade. O evangelho começa regenerando o coração.
Por isso a nossa esperança não está simplesmente em reconstruir uma sociedade que volte a mencionar Deus. Nossa esperança está em Cristo. Precisamos, sim, pensar biblicamente, educar biblicamente, viver biblicamente e testemunhar biblicamente. Mas fazemos tudo isso porque fomos alcançados pela graça de Deus em Cristo.
O Deus que o homem retirou do centro não abandonou o homem. Deus veio ao encontro do homem.
Afinal, quem está no centro?
Depois de percorrermos essa trajetória, a pergunta que fica não é apenas histórica. É profundamente pessoal.
Quem está no centro da sua vida?
Talvez seja você mesmo.
Talvez sejam seus sentimentos.
Talvez seja o dinheiro.
Talvez seja sua carreira.
Talvez seja um relacionamento.
Talvez seja sua imagem.
Talvez seja a aprovação das pessoas.
Talvez seja o desejo de controlar tudo.
É possível que você tenha passado anos correndo atrás de alguma coisa acreditando: “Quando eu conseguir isso, finalmente serei feliz”. “Quando ganhar mais dinheiro, estarei seguro.” “Quando aquela pessoa me amar, estarei completo.” “Quando alcançar aquele cargo, minha vida terá sentido.” “Quando todos reconhecerem meu valor, finalmente ficarei em paz”.
Mas nenhuma criatura consegue ocupar satisfatoriamente o lugar do Criador.
O dinheiro pode comprar conforto, mas não pode comprar paz com Deus. O conhecimento pode ampliar nossa compreensão do mundo, mas não pode reconciliar o pecador com seu Criador. A ciência pode produzir tratamentos extraordinários, mas não pode solucionar o problema fundamental do pecado. A tecnologia pode colocar uma quantidade gigantesca de informação em nossas mãos, mas não consegue preencher o vazio da alma. O prazer pode proporcionar satisfação momentânea, mas não consegue produzir a alegria profunda de uma vida reconciliada com Deus. O reconhecimento humano pode alimentar o ego, mas não pode determinar nosso verdadeiro valor diante do Criador.
Tudo aquilo que colocamos no lugar de Deus, cedo ou tarde, nos mostrará que é pequeno demais para carregar o peso da nossa existência.
A grande questão, portanto, não é simplesmente saber se acreditamos que Deus existe. A questão é se Deus é Senhor.
Podemos acreditar que Deus existe e ainda assim viver como se Ele não fosse necessário. Podemos falar sobre Deus e não glorificá-lo como Deus. Podemos preservar uma linguagem religiosa e, ao mesmo tempo, construir a existência em torno de nós mesmos.
Romanos 1 nos chama de volta ao centro.
E o centro não somos nós.
O centro não é a razão.
O centro não são os sentimentos.
O centro não é a cultura.
O centro é Deus.
“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas” (Rm 11.36).
Essa é a realidade para a qual precisamos retornar.
Uma ponta para o próximo artigo
Mas aqui surge uma pergunta inevitável.
Se o centro mudou, quem está formando a nossa mente?
Porque não basta saber que a cultura mudou. Não basta reconhecer que o eu e os sentimentos ganharam enorme influência. Precisamos descobrir como essas ideias chegam até nós, como entram em nossas casas, como moldam nossos filhos, como influenciam nossa linguagem e como, muitas vezes, passam a determinar nossas próprias categorias sem que percebamos.
Se a primeira mensagem nos levou ao Éden, para descobrir onde começou a grande mentira, e esta segunda nos levou pela trajetória do deslocamento do centro — Deus, razão, homem, eu e sentimentos —, a próxima precisa tratar de uma questão ainda mais próxima de nós:
Quem está formando a nossa mente?
Porque o mundo não precisa necessariamente nos convencer a abandonar Deus de uma vez. Basta formar nossa maneira de pensar pouco a pouco, até que passemos a interpretar a realidade com categorias que já não vêm das Escrituras.
A batalha, portanto, não terminou quando descobrimos quem está no centro.
Agora precisamos descobrir quem está ocupando a nossa mente.
E essa será a pergunta do próximo artigo:
Quem está formando sua mente?
A forma como pensamos determina a forma como vivemos. E, se quisermos viver biblicamente em uma cultura pós-moderna, precisaremos aprender não apenas o que pensar, mas também quem está nos ensinando a pensar.
Soli Deo gloria









