Como ter resiliência?

Em uma rua não muito longe de onde moro, há um ateliê de cerâmica com uma pequena e atrativa vitrine que exibe à venda lindos trabalhos em barro, feitos por artesãos locais. Agora, imaginemos que você e eu estamos nessa pequena loja examinando e admirando os produtos, quando repentinamente entra um homem de feição austera empunhando um bastão de baseball. 

Antes que possamos reagir, ele avança até um vaso bonito e de aparência delicada no mostruário central e dá um golpe forte. Ambos estremecemos, esperando que o vaso exploda em estilhaços. Surpreendentemente, ele recebe o golpe, bate contra a parede dos fundos e cai no chão — intacto. O homem brada frustrado enquanto se dirige ao vaso, pega-o e o joga contra a parede da entrada. Novamente, o vaso se recusa a quebrar. Após gritar um palavrão, o homem se aproxima e acerta um poderoso chute no vaso enquanto corre para fora. O vaso derrapa e rola pelo chão, mas permanece inteiro.

Com a partida do homem do bastão, você e eu andamos e examinamos cuidadosamente o vaso. Ele é claramente feito de barro, no entanto não há uma rachadura ou mesmo lasca. Eu pergunto: “Com que tipo de barro isso é feito?”. Você balança sua cabeça em espanto e responde: “Quem é o oleiro?”. 

Resiliência Indestrutível

Por que você e eu acharíamos esse vaso tão intrigante? Porque todos sabem que esse tipo de cerâmica não é resiliente. É frágil — quebra-se facilmente. Fragilidade e resiliência são antônimos. Algo é frágil ou resiliente, quebradiço ou maleável, mas não ambos.

Ainda assim, a cerâmica resiliente é precisamente a paradoxal metáfora que o apóstolo Paulo escolhe ao descrever a resiliência cristã:

Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. (2Co 4.1-7).

Se você e eu somos cristãos, nós somos tais vasos intrigantes. Nós somos frágeis vasos de barro que deveriam se despedaçar sob os golpes que recebemos dos diversos tipos de destrutíveis atribulações que sofremos. Contudo, nós temos a capacidade de ser indestrutivelmente resilientes, deixando observadores questionando que tipo de força misteriosa é incorporada em nós. Eles se perguntam: “Quem é o oleiro?”.

Agora, se você for como eu, não se sente indestrutivelmente resiliente. Todavia, nossa capacidade de ser “em tudo […] atribulados, porém não angustiados” não depende de nossa autopercepção ou autodeterminação. De acordo com o que diz Paulo alguns poucos versos depois, nossa resiliência (ou a falta dela) depende de onde buscamos esperança.

Antes de nos aprofundarmos nesses versos um pouco mais, vejamos um exemplo vivo da indestrutível resiliência cristã.

Resiliência na Vida Real

Quando Joni Eareckson Tada tinha apenas 17 anos, ela descobriu o quão frágil o seu corpo de vaso de barro era quando, em um quente dia de verão em 1967, ela ficou tetraplégica em um mergulho na baía de Chesapeake. Todos os dias, desde então, sua cadeira de rodas, sua dependência dos outros para ajudá-la com as tarefas básicas da vida, sua experiência de dor crônica quase constante, bem como outras aflições como câncer e COVID, têm sido lembretes marcantes da fraqueza de seu corpo.

Contudo, mais de quinze anos depois, milhões de pessoas ao redor do mundo descreveriam Joni como uma das cristãs mais resilientes, diligentes, frutíferas e contagiosamente felizes que poderiam nomear. Ela é uma influente autora e palestrante, uma exímia artista e é fundadora de uma organização internacional que ministra às pessoas deficientes e seus entes queridos em todo o mundo.

Quando você lê o que Joni escreve, porém, ou a ouve falar e cantar, ou até troca e-mails informais com ela (como eu tive o privilégio de fazer), sua tetraplegia e conquistas incríveis são ofuscadas pelo seu insaciável amor e indômita fé em Jesus. Ela exibe uma força sobrenatural do coração, permitindo-a suportar golpes que podem fazer com que o soldado ou lutador mais feroz fuja para salvar sua vida. Após cada golpe, ela permanece sentada em sua cadeira de rodas, radiando alegre esperança.

Joni é a personificação do vaso de barro que imaginamos no início. Após todos os golpes que ela recebeu, como pode estar inteira? Quem é esse Oleiro de quem ela tanto fala a respeito?

Onde nós encontramos resiliência?

Para responder à pergunta, vamos primeiro retornar à 2Coríntios e ouvir Paulo descrever de onde vem a resiliência cristã:

Por isso não nos desanimamos. Ainda que o nosso exterior esteja se desgastando, o nosso interior está sendo renovado todos os dias. Pois nossa tribulação leve e passageira produz para nós uma glória incomparável, de valor eterno, pois não fixamos o olhar nas coisas visíveis, mas naquelas que não se veem; pois as visíveis são temporárias, ao passo que as que não se vêem são eternas. (2Co 4.16-18; A21)

Você percebe? O que fortalece o “interior” do cristão e o impede de desanimar mesmo que seu “exterior” esteja se desgastando? É onde ele escolhe focar a visão de seus olhos do coração.

Paulo sabe que aquilo para que o cristão decide olhar tem o poder de ou encher ou drenar as reservas de esperança dos seus “homens interiores”. Se focarmos nas temporárias e visíveis realidades da futilidade, do pecado e do sofrimento, nós perderemos a esperança (desanimamos) e não seremos capazes de suportar as tribulações que sofremos. Mas, se focarmos na eterna e invisível realidade, aquilo que Paulo chama de “iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” (2Cor 4.6), então “o Deus da esperança [nos encherá] de todo o gozo e paz no [nosso] crer, para que [sejamos] ricos de esperança no poder do Espírito Santo” (Rm 15.13), mesmo que passando pelos piores tipos de tribulação.

De fato, esse foco tem o poder de transformar nossa perspectiva de tal forma que até mesmo aflições graves se tornam “leves” e “momentâneas” comparadas à glória que experimentaremos. A indestrutível resiliência cristã vem do olharmos para a realidade correta.

O segredo da resiliência de Joni

Esse exercício de fé é o porquê de Joni ainda estar inteira, por assim dizer. Ela não faz parte de uma categoria especial de cristãos super-heróis que são simplesmente abençoados com um vigor incomum ou um temperamento extraordinariamente alegre. Leia qualquer um de seus livros, ouça qualquer uma de suas palestras e você a ouvirá descrever com sinceridade como a vida pode ser sombria para ela — como ela é semelhante a você e a mim. O segredo de sua resiliência é onde ela escolhe focar a visão de seus olhos do coração. 

Recentemente Joni escreveu um livro devocional, Songs of Suffering: 25 Hymns and Devotions for Weary Souls. Esse não se trata de um devocional comum; é um manual para construir a resiliência cristã. Em um dos registros, ela escreve:

Eu vivi com uma tetraplegia por mais da metade de um século e tenho lutado contra dores crônicas por muito desse tempo. Eu sofro com problemas de respiração e estou em uma contínua batalha contra o câncer. Tudo isso possibilita uma tempestade perfeita de desânimo.

No entanto, quando meu quadril e minhas costas estão congelados de dor, ou quando é simplesmente mais um dia cansativo de simples paralisia, eu me fortaleço com o exemplo de Jesus [de cantar hinos] no cenáculo [pouco antes de sua crucificação]. Meu Salvador sofredor me ensinou a sempre escolher um cântico — um cântico que fortaleça minha fé contra o desânimo e dê esperança ao meu coração. E assim, diariamente, tomo minha cruz ao som de um hino. (18)

Então, a incrível resiliência de Joni vem de… cantar canções? Não. A incrível resiliência de Joni vem de visualizar sua tribulação no contexto da realidade suprema. Mas ela usa canções substantivas de fé para ajudá-la a ver.

Onde você buscará esta força?

Qualquer pessoa pode admirar a resiliência de Joni, mas o que talvez não percebamos é que a resiliência dela realmente pode ser a nossa, independentemente das provações que enfrentamos. Se nossas aflições são menos graves do que as dela, isso não significa que precisamos menos de renovação espiritual diária, e essa renovação é possível — todos os dias. Compartilhamos com Joni a mesma fé e a mesma esperança. O mesmo poder do mesmo Espírito Santo é acessível a nós. Isso significa que podemos ser tão indestrutivelmente resilientes em nossas aflições quanto Joni é nas dela — e como Paulo foi nas dele.

O exemplo de Joni, que canta para alcançar a esperança do evangelho, é uma estratégia que tem sido usada por milhões de santos ao longo dos séculos (e é por isso que temos um livro de Salmos em nossas Bíblias). Mas essa é apenas uma estratégia dentre muitas disponíveis para nós. Cada um de nós deve aprender sobre si mesmo o suficiente para saber quais estratégias são mais eficazes para nos ajudar a concentrar o olhar de nosso coração na realidade invisível e eterna revelada a nós nas Escrituras. E então, como Joni, devemos cultivá-las em hábitos de graça para que possamos empunhar a armadura de Deus na luta da fé com resiliência.

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