A internet está revolucionando a vida cristã e a vida da igreja?

Perto da virada do século, há uns 20 anos atrás, quando a internet ainda não era tão difundida, cidadãos bem informados poderiam ter 20 possíveis fontes de notícias. Eles assistiam a um noticiário local e a um nacional, escolhiam um ou dois jornais para serem entregues todas as manhãs em suas casas, esperavam cada semana ou mês por uma revista de assinatura, encaminhavam alguns e-mails com ameaças bizarras e ouviam a uma ou duas estações de rádio de entrevistas nos trajetos diários.  

Contudo, nos últimos 20 anos o número de fontes expandiu para 200 … 2.000 … 200.000 … 2 milhões … 200 milhões … 2 bilhões e assim por diante para qualquer pessoa ao redor do mundo que possa criar um perfil no facebook, contas privadas no Twitter, uma conta pública no Instagram e outra escondida dos pais, e muito mais. 

Essa revolução gera implicações em cada canto de nossas vidas, mas talvez a maior consequência seja vista na formação cristã e no discipulado.

Da imprensa para o algoritmo

Quando os pastores subiam no púlpito 20 anos atrás, eles tinham uma vantagem intelectual sobre a maior parte dos membros da igreja. Eles sabiam mais sobre a Bíblia, sobre outros cristãos ao redor do mundo, mais sobre história e teologia. Isso não significava que as congregações sempre concordavam com eles. Eles podiam ler a Bíblia por si mesmos. Poderiam comprar livros sobre a história da igreja em uma livraria ou na Amazon. Eles poderiam assinar a revista Christianity Today. Contudo, esse estudo requer tempo, dinheiro e esforço.

Na época, o mundo era controlado por editores e produtores. Como os pastores, esses guardiões se beneficiavam de um acordo geral. Programas de TV e revistas podiam vender mais propagandas dessa forma. Os pastores podiam se concentrar em estudar e pastorear suas ovelhas apenas assistindo aos noticiários da TV aberta e talk shows mais populares entre sua congregação.

Em grande parte, o mundo comandado pela imprensa desapareceu. O editor ordinário foi substituído pelo algoritmo opaco. O algoritmo sabe mais sobre nós do que qualquer pastor ou editor jamais poderia saber. Ele nos dá o que talvez nem admitamos que queremos. Os líderes da Igreja só podem nos dar o que eles acham que precisamos.

Cristãos formados pela internet

Comparando com 20 anos atrás, hoje a internet – não a igreja local – se tornou o principal local onde cristãos são formados. Antes que seus líderes falem, os membros da igreja já sabem no que acreditam. E, eles esperam que seus líderes se conformem – porque senão… Não é de se admirar que tantos líderes de igrejas sintam que perderam sua função nos últimos dois anos. 

Hoje a internet – não a igreja local – se tornou o principal local onde cristãos são formados.

Cada pastor, claro, é levado a acreditar que sua situação é única. Líderes se afastam de seus cargos por acusações de erros teológicos. Membros jovens saem por frustração, porque seus pastores não mudaram seu sermão para falar sobre o último vídeo que viralizou na internet. Diáconos rompem amizades de décadas depois que descobrem um novo canal favorito no YouTube.

Como consequência, os pastores refletem sobre o que fizeram de errado. Eles ofenderam alguém involuntariamente? Deveriam ter desenvolvido uma nova política para quando rever a oração pastoral? A pessoa que eles mais gostam de citar fez realmente todas as coisas terríveis que algum podcast sugeriu?

Enquanto isso acontece com um pastor, é bom analisarmos nossa própria situação. Quando está acontecendo com toda uma denominação, é melhor olharmos para a cultura de treinamento de líderes. Mas, quando está acontecendo em todas as igrejas, é uma revolução. 

A Reforma (tecnológica)

A revolução não é necessariamente algo ruim.

Martinho Lutero viveu durante uma revolução. Mais de um século antes de Lutero involuntariamente iniciar a Reforma Protestante, Jan Hus levantou muitas das mesmas questões em relação às ofensas étnicas produzidas pela Igreja Católica medieval. Hus também tinha o suporte de poderosos líderes políticos da região em que ele nascera na Europa. Entretanto, ele foi executado como um mártir em 1415 no Concílio de Constança. Lutero morreu de forma natural em 1546 depois de causar um cisma em Roma. Sob a provisão de Deus, em que se deu a diferença entre os dois?

Lutero se utilizou da revolução da imprensa no início do século dezesseis. E, segundo o biógrafo Andrew Pettegree em Brand Luther, ele efetivamente inventou o tratado teológico popular. Ele não colocou sua esperança sobre a hierarquia da igreja. Ele não escreveu somente em latim acadêmico. Ele  tirou seu caso diretamente da Bíblia, e entregou diretamente para o povo. Essa revolução de graça prevaleceu em grande parte da Europa e agora continua a se espalhar em todos os continentes habitados.

Hoje, estamos vivendo o início de uma revolução da mesma escala, mas com um desfecho incerto. 

Temor para o mal ou para o bem?

Lutero e Hus continuam sendo heróis para youtubers e criadores de podcasts que denunciam líderes corruptos de nossos dias. Se alguma figura da história da igreja tivesse se destacado na onda inconstante do Twitter, seria Lutero. Hus só gostaria que o TikTok tivesse estado disponível no caminho para Constance. Se você já foi ferido ou desprezado por líderes denominacionais corruptos, a Internet é o seu lugar seguro. Você não precisa de um editor de revista ou produtor de TV para investigar sua história. Eles ficarão em casa e farão reportagens em seus Espaços do Twitter. Você tem o poder.

Essa revolução é uma espada de dois gumes. É um terror à má conduta. Mas, por vezes, também corta o que é bom. Como podemos, então, aproveitar essa revolução para a glória de Deus?

Lutero não explorou a cultura crescente da celebridade e da imprensa por causa da revolução. Sua revolução reconduziu  os cristãos à autoridade máxima da Palavra de Deus, que é “viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hebreus 4.12; ARA). Esta palavra de Deus condena todos os que negam o dom gratuito do Evangelho (Gálatas 5.12). Esta palavra de Deus extermina a raça de víboras que falam sobre o bem, mas praticam o mal (Mateus 12.34).

       Qualquer revolução tecnológica que retorne com a Palavra de Deus para o centro da vida e prática cristãs será abençoada por Deus.

Qualquer revolução tecnológica que retorne com a Palavra de Deus para o centro da vida e prática cristãs será abençoada por Deus. Todo líder verdadeiro é agradecido pela autoridade da Palavra de Deus.  Damos graças pelos vídeos do BibleProject, sermões do John Piper e pelos pequenos grupos feitos pelo Zoom durante a pandemia. Por causa da ordem de Paulo para que o nosso discurso seja “sempre gracioso, temperado com sal” (Colossenses 4:6), somos gratos – e pedimos a Deus por dedos mais lentos.

Onde quer que a Palavra governe, ninguém que pertence a Deus deve temer.

Tropeçando em direção à sobriedade

Este é o dia que o Senhor fez. Em última análise, a Internet não se mantém por causa de torres de satélite na Califórnia, mas pelo poder da palavra de Deus. E, no entanto, os líderes da igreja  de hoje em dia não podem ignorar a internet, assim como o papa não pôde ignorar Lutero como um javali alemão selvagem.

Então, qual é a solução para a crise da liderança da igreja no alvorecer da revolução da Internet?

Transferir todo o nosso ministério para a Internet pioraria o problema. Na verdade, os líderes de igrejas fariam bem ao ter cuidado e até considerar a possibilidade de se afastar das redes sociais. Você não passa mais uma cerveja para o glutão e espera que ele vá cambaleando em direção à sobriedade. Às vezes, a melhor defesa contra as intermináveis pseudo-polêmicas da Internet é a ignorância. Talvez não seja possível ignorar a Internet, mas você provavelmente deveria ignorar a maior parte das brigas do Twitter.

Como a Internet expandiu nossos horizontes para o mundo todo, a maioria dos líderes de igrejas deveria se sentir liberada para se concentrar em seu ministério local. Ministérios como Desiring God e Coalizão pelo Evangelho cresceram nos últimos 20 anos para ajudar a preencher o vazio do discipulado digital e combater as mensagens anti evangélicas a partir da verdade bíblica. Mas o melhor que nossa equipe pode fazer é ajudar a apoiar os líderes da igreja local – aqueles que conhecem o seu verdadeiro eu, não a selfie do Instagram. Não podemos e não vamos ministrar a Ceia do Senhor para que você possa relembrar a bondade de Deus por meio do perdão dos pecados. Quando você se desvia da Palavra, não podemos bater à sua porta e oferecer incentivo e oração. Não podemos pregar a Palavra com poder depois de nos sentarmos ao lado de sua cama quando você estiver sofrendo.

A melhor defesa para nossas almas

A internet expõe os falsos mestres na mesma medida que permite que eles espalhem suas heresias destrutivas (2 Pedro 2.1). Em toda revolução, pessoas boas sofrem por causa de lobos vestidos de cordeiros (2 Coríntios 11.4). A melhor defesa ou discernimento na era digital é um líder de uma igreja local que se submeta à Palavra de Deus, que saiba quem você é, conheça suas fraquezas e que ame a todos do mesmo modo.

Quando nos voltamos para a igreja local, a revolução da Internet reforçará – não ofuscará – o ministério da palavra. Uma outra Reforma, em que o povo de Deus lê e dá ouvidos a sua Palavra, pode desdobrar-se em tempo real. E o nome de Deus será louvado na nossa unidade espiritual, em vez de ser insultado em toda a divisão feita pelo homem.

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