Cristo e os poderes espirituais em Colossenses

Uma das questões mais fundamentais que pessoas na época do Novo Testamento enfrentavam era o problema perturbador de como viver em um mundo dominado por poderes espirituais malignos. Eles acreditavam que o universo era povoado por divindades vingativas e caprichosas que tinham o poder de interferir no dia-a-dia das pessoas e até mesmo determinar seu destino. A existência humana era marcada por um profundo sentimento de medo e ansiedade diante do divino. Os romanos chamavam esse sentimento de deisidaimonia, ou “medo do sobrenatural.”

Estudiosos do Novo Testamento têm chamado a atenção para a importância do sentimento de deisidaimonia para entendermos como alguns falsos mestres conseguiram perturbar os crentes colossenses com seus ensinamentos sobre poderes espirituais do mal. A interpretação mais natural desses poderes é que eles se referem a seres espirituais pessoais. Sua importância para o “sistema” do falso ensino em Colossos poder ser deduzido pelo número de referências que Paulo faz a eles em uma carta tão pequena (Colossenses 1.13, 16; 2.8, 10, 15, 18, 20). O apóstolo chama o falso ensino de “filosofia vazia e enganosa” (Colossenses 2.8). Ela tinha potencial para enganar os colossenses e causar sérios danos à sua fé.

Mas exatamente como os poderes poderiam incomodar os colossenses? A resposta que Paulo apresenta na carta sugere que os crentes poderiam estar com medo ou fascinados com eles, ou talvez ambos. O apóstolo enfatiza a superioridade de Cristo sobre os poderes espirituais (Colossenses 1.16; 2.9), sua vitória definitiva contra eles na cruz (Colossenses 2.15) e a participação dos crentes na vitória de Cristo por meio de sua identificação com ele (Colossenses 2.20). Além disso, Paulo também menciona algumas questões envolvendo “adoração de anjos” (Colossenses 2.18). Em suma, em sua resposta à ameaça representada por esses seres espirituais, Paulo tranquiliza os colossenses ao reafirmar a supremacia de Cristo sobre todo o cosmos, incluindo os poderes, bem como sua suficiência para a fé e a vida do crente.

Mas antes de examinarmos isso mais de perto, precisamos primeiro dar um passo atrás e abordar uma questão preliminar: o que Paulo realmente quer dizer com toda essa conversa sobre poderes espirituais? Para os contemporâneos do apóstolo, a resposta seria óbvia. Já em algumas partes do mundo hoje, a resposta não é assim tão evidente. O mundo ocidental pós-iluminista, por exemplo, é, no geral, predisposto a rejeitar qualquer coisa que não possa ser cientificamente comprovada. Não há espaço para o sobrenatural na era da razão. Por outro lado, isso ainda não é tão forte no Brasil, onde a cosmovisão acomoda sem dificuldade a crença no sobrenatural. Para nós, brasileiros, a percepção do mundo espiritual é diferente da do ocidente.

Seja como for, o que realmente importa é a percepção que o próprio Paulo tinha do mundo espiritual. A pergunta, portanto, é: ele entendia os poderes como meros mitos ou como entidades espirituais pessoais reais?

Mito ou verdade?

O apóstolo Paulo não gastou muita tinta articulando sua visão do mundo angelical. Mas, a partir de suas cartas, podemos concluir que ele certamente acreditava na existência de seres espirituais pessoais. Ele também acreditava que alguns deles são hostis a Deus e que, apesar de já estarem sujeitos a Deus e a seu Filho Jesus Cristo, continuavam ativos no mundo (cf., Romanos 8.38–39; 1 Coríntios 15.24; Efésios 1.20–21; 6.12).

A convicção de Paulo no mundo angelical está em harmonia tanto com a tradição do Antigo Testamento quanto com a tradição judaica mais ampla. Entretanto, sua percepção dos poderes foi radicalmente reconfigurada pelo evento Cristo, que em sua crucificação desferiu um golpe mortal nos poderes (Colossenses 2.15). Em muitos aspectos, a cosmovisão da “filosofia vazia e enganosa” era semelhante à de Paulo e à da Bíblia como um todo. A preocupação principal do apóstolo, no entanto, não foi detalhar sua compreensão do mundo angélico, mas proclamar a supremacia de Cristo sobre o reino das trevas e mostrar como os crentes deveriam se perceber em relação aos poderes.

Como observamos acima, sociedades ocidentais contemporâneas tendem a descartar a realidade de uma dimensão espiritual da existência. Assim, com uma pressuposição anti-sobrenatural em mente, para explicar esse aspecto da Bíblia, alguns desmitologizaram as referências ao sobrenatural nas Escrituras, interpretando-as meramente como exemplos de superstições antigas. Aqueles que adotam essa abordagem tendem a ignorar a fonte de tal atitude para com o sobrenatural, a saber, a leitura do texto mediante as lentes do racionalismo — uma ideologia predominante no Ocidente desde o Iluminismo na qual não há espaço para o sobrenatural. Mas, se submetermos nossa mente ao escrutínio das Escrituras e permitirmos que elas moldem nosso entendimento, o entendimento que obtemos da realidade é bem diferente.

Em contrapartida, a mensagem de Paulo aos colossenses é recebida sem espanto em várias partes do mundo – como no Brasil – onde o reino espiritual é, em geral, visto como parte integrante da existência. Há até mesmo algo semelhante à deisidaimonia romana no Brasil. Somos um país supersticioso em que o medo e o fascínio por seres espirituais são características intrínsecas à nossa visão de mundo. Assim como os colossenses do primeiro século, brasileiros não têm dificuldade em acreditar na existência de poderes espirituais malignos e sua influência sobre acontecimentos e indivíduos. Nesse aspecto, a cosmovisão do Brasil está mais alinhada com a dos colossenses do primeiro século do que muitas cosmovisões que encontramos no Ocidente.

Supremacia cósmica de Cristo

A supremacia de Cristo é descrita com linguagem elevada em Colossenses 1.15–20, um texto em forma de poema no qual Paulo apresenta uma das reflexões mais profundas no Novo Testamento sobre a natureza e a obra de Jesus Cristo. Nela, ele celebra Cristo como Soberano tanto sobre a criação original (vv. 15–17) quanto sobre a criação reconciliada, ou nova criação (vv. 18–20).

O “poema” constitui uma unidade teológica crucial sobre a qual Paulo constrói boa parte de sua reflexão e exortação teológica em Colossenses. Ele o introduz lembrando aos crentes que Deus resgatou seu povo de maneira semelhante ao êxodo (cf. Êxodo 12), cujo resultado é vitória sobre o “reino das trevas” e perdão dos pecados (Colossenses 1.12–14; cf. Atos 26.18). Conforme Paulo expande a ideia da redenção dos crentes nesses versos (vv. 15–20), ele declara a supremacia de Cristo sobre o domínio das trevas usando como argumento a agência de Cristo na criação original de “todas as coisas.” Os poderes foram criados em Cristo, por meio de Cristo e para Cristo (Colossenses 1.16; cf. v. 17).

O apóstolo retoma a relação entre o Filho de Deus e os poderes no versículo 20. Agora, ele declara a supremacia de Cristo sobre o universo em sua obra de reconciliação, ou nova criação. Paulo diz que “nele [Cristo], aprouve habitar toda a plenitude [de Deus],” e por meio de Cristo, Deus reconciliou “todas as coisas” com Cristo, quer na terra quer no céu, “fazendo a paz mediante o sangue da sua cruz” (Colossenses 1.19–20). O escopo da reconciliação de Deus é “todas as coisas,” o que Paulo deixa claro ao acrescentar a expressão mais abrangente “quer sobre a terra, quer nos céus” (retomando a ideia de “todas as coisas… nos céus e sobre a terra,” ou seja, “a totalidade da criação,” do versículo 16).

O que Paulo está dizendo é que a obra de reconciliação realizada por Deus abrange todo o universo criado, incluindo os poderes espirituais hostis a Cristo (cf. v. 16). Em outras palavras, toda a criação foi trazida de volta a um relacionamento apropriado com Deus e seu Cristo mediante a obra de reconciliação de todas as coisas que Deus realizou por meio de Cristo. No entanto, não há aqui nenhuma ideia de universalismo. Paulo deixa claro que reconciliação não significa a mesma coisa em relação à humanidade e ao mundo dos poderes espirituais malignos. Em relação aos seres humanos, reconciliação significa a restauração de um relacionamento amigável com Deus para aqueles que respondem com fé ao evangelho (cf. Colossenses 1.21–23). Por outro lado, para os poderes, reconciliação significa pacificação por meio de conquista, como sugerido pela frase “fazendo a paz mediante o sangue de sua cruz” (v. 20a) e explicitado mais adiante, em Colossenses 2.15.

Em Colossenses 2.15, Paulo desenvolve a ideia de “fazer a paz mediante o sangue de sua cruz” (Colossenses 1.20a) utilizando-se das imagens do “triunfo” romano. As vitórias romanas eram geralmente seguidas por um desfile público pelas ruas de Roma chamado “triunfo.” Nela, o triumphator, o líder romano vitorioso, conduzia seus cativos de guerra diante dos olhos de uma multidão extasiada reunida para assistir ao espetáculo. O objetivo do ritual era duplo: por um lado, exibia a glória do triumphator e, por outro, a completa humilhação dos cativos. Escrevendo sobre a humilhação daqueles conduzidos em procissões triunfais, a especialista em Roma Antiga Mary Beard diz: “não é difícil imaginar o que a vítima sentia enquanto a multidão barulhenta de espectadores se deleitava ao ver que finalmente levava vantagem sobre (nas palavras de Cícero) ’aqueles a quem outrora temiam’” (The Roman Triumph [Cambridge, MA: Harvard University Press, 2007] 133). Foi exatamente isso o que Paulo diz ter acontecido no momento da crucificação de Cristo. Levando a vitória de Deus ao um clímax, Paulo diz que “Deus fez um espetáculo público dos poderes, desarmando-os e conduzindo-os em uma procissão triunfal em Cristo na cruz” (Colossenses 2.15, tradução minha).

Colossenses 2.15 revela a absoluta impotência dos poderes descrevendo-os como prisioneiros capturados e conduzidos em procissão triunfal em Cristo pelo Deus vitorioso, o general triumphator. Eles foram pacificados ao serem conquistados, um conceito familiar para aqueles que viviam sob a Pax Romana (um ideal imperial e propaganda romana que prometia paz e estabilidade em todo o império), algo estabelecido através da pacificação de inimigos romanos mediante vitórias militares. De forma semelhante, Paulo nos diz que Deus pacificou os poderes ao conquistá-los em Cristo na cruz.

Por que então os colossenses deveriam temer seres tão deploráveis e indefesos como esses?

O Impacto das Imagens do Triunfo Romano

A maneira como Paulo usou as imagens do triunfo romano para retratar a vitória definitiva de Deus em Cristo sobre os poderes confrontou a percepção da realidade dos colossenses em pelo menos três aspectos:

(1) O triunfo de Deus confrontou a percepção que eles tinham dos poderes: de principados e autoridades a prisioneiros de guerra. Os colossenses devem ter percebido a ironia por trás de tudo isso. Pois a cruz, precisamente o instrumento usado pelos governantes deste mundo para humilhar Jesus Cristo, foi ironicamente cooptada por Deus para humilhar e derrotar os poderes de uma vez por todas. Não as ruas de Roma, mas a cruz foi a via pela qual Deus conduziu os poderes em total humilhação. Na cruz, Deus os expôs envergonhados diante dos olhos do mundo inteiro — já que o evangelho do triunfo de Deus foi proclamado “em toda a criação debaixo do céu” (Colossenses 1.23). Ao invés de temê-los, os colossenses, bem como os leitores modernos desta carta, são convidados a assistir com júbilo ao desfile dos prisioneiros impotentes de Deus.

(2) O triunfo de Deus confrontou a percepção que eles tinham de si mesmos: de “cativos de guerra” a conquistadores. Paulo adverte os crentes colossenses sobre o risco de se tornarem eles próprios “cativos” ao ensino falso e enganoso, o qual era “segundo os espíritos elementares do mundo” (Colossenses 2.8). A ironia da cruz continua. Pois mediante o triunfo de Deus em Cristo, foram os espíritos elementares que se tornaram cativos (Colossenses 2.15). Por meio de sua identificação com Cristo, os crentes também compartilham dos resultados e despojos da vitória (cf. e.g., 2.10, 20; 3.1). Assim, os crentes do primeiro século em Colossos, bem como nós, os leitores modernos, são desafiados a se imaginarem presentes no desfile cósmico de Deus não apenas como espectadores, mas também como conquistadores. Nós, que estamos em Cristo, somos convidados a descer das arquibancadas e desfrutar o passeio de carona na carruagem do triumphator.

(3) O triunfo de Deus confrontou a percepção que eles tinham do Precursor da Paz: da espada de César à cruz de Cristo. Os não-romanos que viviam sob a Pax Romana estavam acostumados com a prática imperial da imposição de “paz” mediante a ruína e pacificação de seus inimigos. Mas agora Paulo diz que Deus, o triumphator todo-poderoso, estabeleceu paz em todo o universo por meio do sangue de Cristo na cruz (Colossenses 1.20). Semelhante à Pax Romana, a paz de Cristo também é paz através de violência — afinal, é uma paz forjada numa cruz romana. No entanto, a violência que nós, seres humanos inimigos de Deus (cf. Colossenses 1.21), deveríamos (e merecíamos) suportar, Deus mesmo suportou na pessoa de seu Filho amado na crucificação (Colossenses 1.20). A única “violência divina” envolvida no processo foi dirigida contra os poderes espirituais malignos, que foram pacificados por Deus. Os colossenses, assim como nós, leitores modernos desta carta, podem agora desfrutar da verdadeira paz, da paz de Cristo (ou Pax Christi, se você preferir). Esta paz está disponível a todos que respondem com fé ao evangelho do Deus Reconciliador e Conquistador (cf. Colossenses 1.21–23).

Nós, cristãos brasileiros, recebemos a mensagem de Paulo com um profundo suspiro de alívio: ela proclama liberdade tanto do poder do pecado quanto do reino das trevas (Colossenses 1.13–14). Embora uma batalha espiritual continue em curso, não precisamos mais temer espíritos malignos, pois entendemos corretamente que eles são, em um sentido mais profundo, impotentes contra o povo de Deus. Portanto, precisamos ter cuidado para não enfatizarmos indevidamente a ameaça representada por seres espirituais, o que tem sido uma fonte de todo tipo de ideias equivocadas sobre guerra espiritual, tal como a ideia de “espíritos territoriais.” Os poderes espirituais foram conquistados e pacificados por Cristo e, de certa forma, isso é tudo o que importa. Infelizmente, em nosso fascínio pelo sobrenatural, corremos o risco de ir “além do que está escrito” (1 Coríntios 4.6).

Por outro lado, os leitores ocidentais modernos das Escrituras precisam ter cuidado para não menosprezar a existência da batalha espiritual que continuará até o retorno de Cristo. Caso o façam, correrão o risco de não se prepararem adequadamente para enfrentá-la (Efésios 6.11–20). Embora não possamos testar o mundo espiritual em um laboratório, as Escrituras testificam que a realidade é bem mais ampla do que os olhos podem ver.

É verdade que os poderes continuam em ação. No entanto, eles não passam de poderes moribundos conduzindo ataques desesperados contra o povo de Deus enquanto aguardam o inescapável golpe final (cf. Romanos 16.20).

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Esse artigo foi originalmente publicado em inglês por www.tyndalehouse.com

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