O Senhor que deseja a prática humilde do perdão

Humildade

A súplica pelo perdão de nossas dívidas aponta para a nossa total incapacidade de pagar-lhe: somos total e irreversivelmente devedores. Portanto, a nossa postura é de humildade diante de Deus, o Senhor que tudo nos dá e perdoa todas as nossas dívidas. Ele mesmo em seu amor eterno providenciou o pagamento por intermédio de seu único e Amado Filho.

“Somos devedores de Deus. Não lhe devemos algo, nem pouco nem muito senão pura e simplesmente tudo: nossa pessoa em sua totalidade, a nós mesmos como criatura que somos, sustentadas e nutridas por sua bondade”, conclui Barth (1886-1968).[1]

O perdão de Deus mostra a nossa necessidade de sua misericórdia e a nossa total incapacidade de atingir o padrão de Deus, por isso, só nos resta suplicar humildemente: “perdoa as nossas dívidas” e, mais humildemente ainda, recebermos o perdão, prosseguindo em nossa caminhada, com plena consciência de que tudo que temos é pela graça de Deus.

Lutero (1483-1546), comentando o Pai Nosso, diz:

Isso, porém, deve servir a que Deus nos quebre o orgulho e nos mantenha na humildade. Pois reservou para si a prerrogativa de que, se alguém quiser jactar-se de sua probidade e menosprezar outros, examine-se a si mesmo e ponha diante dos olhos essa petição: verá então que sua probidade é igual à dos outros. Diante de Deus todos temos de baixar o topete e estar contentes de que alcançamos o perdão. E ninguém pense que na presente vida vai chegar ao ponto de não precisar desse perdão. Em suma: se Deus não perdoa continuamente, estamos perdidos.[2]

Disposição para perdoar

O Senhor Jesus Cristo nos ensinou a orar:

Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores (…) 14 Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; 15 se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas. (Mt 6.12,14-15).

O perdão concedido por Deus é um imperativo à concessão de perdão ao nosso próximo.

Aquele que foi perdoado é conduzido invariavelmente à disposição de perdoar o seu próximo. Quando perdoamos estamos nos abrindo ao perdão de Deus.

O perdão concedido pela graça, é capacitante: “O perdão de Deus, quando é recebido, faz ao perdoado capaz de perdoar”, interpreta Barth (1886-1968).[3]

A nossa disposição em perdoar é um atestado de nossa gratidão a Deus pelo seu perdão.

Calvino comenta:

Porque não devemos pedir a Deus que nos perdoe os nossos pecados se também, de nossa parte, não perdoamos da maneira expressa no texto a todos os que nos ofenderam ou nos ofenderem. E se retivermos algum ódio em nosso coração, abrigarmos algum desejo de vingança, ou se pensarmos em como prejudicar nossos inimigos, malfeitores ou pessoas mal-intencionadas, não peçamos nesta oração que Deus perdoe os nossos pecados. Como tampouco devemos pedir seu perdão se não nos esforçarmos quanto pudermos para contar com o favor e a amizade dos que nos ofenderam, reconciliando-nos com eles, vivendo em paz e amor com eles, prestando-lhes todo o serviço que pudermos e procurando agradá-los. Porque o que pedimos é que Deus nos perdoe como também nós perdoamos aos outros. Isso é o mesmo que pedir que Ele não nos perdoe, se nós não perdoarmos aos outros. Os que procedem desta maneira, que poderão obter por seu pedido, senão mais grave condenação?[4]

Quando nos propomos a nos vingar de nossos inimigos, tomamos o direito de Deus para nós e, deste modo, nos privamos da assistência divina.[5] Neste caso, declaramos a nossa autossuficiência. A prática da vingança e a oração se excluem mutuamente.

Calvino vai além:

Embora Deus declare que executará vingança contra nossos inimigos, não temos o direito de nutrir sede de vingança quando somos injuriados. (…) Os fiéis não devem ser vistos como a expressar algum desejo de serem saciados com a visão do derramamento de sangue humano, como se nutrissem muita avidez pelo mesmo.[6]

Jesus Cristo, de forma corretiva e instrutiva, ensina em lugares diferentes:

E quando estiverdes orando, se tendes alguma cousa contra alguém, perdoai, para que o vosso Pai celeste vos perdoe as vossas ofensas. (Mc 11.25).

Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe. Se por sete vezes no dia pecar contra ti, e sete vezes vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe. (Lc 17.3-4).

Como vimos, a base do nosso perdão é o perdão concedido por Deus. Ele não somente nos perdoa, como também nos capacita a perdoar.

Deus faz o nosso perdão possível. “É Deus quem semeia em nossos corações a semente da fé e o ânimo perdoador, conclui Hendriksen (1900-1982).[7]

Paulo escreve aos Colossenses e aos Efésios respectivamente:

Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós. (Cl 3.13).

Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus em Cristo vos perdoou. (Ef 4.32).

A base do nosso perdão é o perdão concedido por Deus. Ele não somente nos perdoa, como também nos capacita a perdoar.

A vingança pertence a Deus, não a nós. Manter os olhos fixos nas promessas de Deus e aguardá-la com paciência é um estímulo à perseverança na fé e à prática da Palavra.  O perdão é resultante da confiança no Deus justo e perdoador.

Testemunho

Portanto, todo o labor evangelístico da Igreja se ampara nesse pressuposto fundamental: Todos os homens pecaram distanciando-se de Deus, o seu Criador, em quem somente há vida. (Jo 10.10; 1Jo 4.9).

A Igreja anuncia o Evangelho sabendo que o homem nada pode fazer para voltar à vida; todos estão mortos em seus delitos e pecados (Ef 2.1,5).

Lloyd-Jones está correto ao declarar que “é completamente antiescriturístico favorecer qualquer tipo de evangelização que negligencie a doutrina sobre o pecado”.[8]

A cruz fornece o fundamento de pregação. Não há pregação sem a conscientização da gravidade do pecado e de redenção definitiva por meio de Cristo, o Deus eterno, na cruz.

A Igreja evangeliza consciente de que o pecado envolve de forma terrível e desumanizante toda a raça humana. Ela sabe que a cura para o homem não está nele mesmo, mas, em Jesus Cristo, Aquele que restaura a nossa verdadeira humanidade.

Somente o Deus Criador pode restaurar definitivamente as suas criaturas. Ele se dispôs a isso por meio de seu Filho amado que deu a sua vida pelo seu povo (Jo 3.16; 1Jo 3.16), confiando esta mensagem à Igreja, que proclama o Evangelho do poder de Deus (Rm 1.16), reivindicando que todos os homens se arrependam de seus pecados e, por graça, tornem-se para Deus.

É isso que ensina Paulo:

Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus. Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus. E nós, na qualidade de cooperadores com ele, também vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus (porque ele diz: Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação; eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação). (2Co 5.18-6.2).

O perdão concedido por Deus em Cristo torna-nos responsáveis pelo testemunho desta mensagem.

À igreja cabe a tarefa intransferível de anunciar o perdão de Deus para todos aqueles que sinceramente se arrependerem e receberem a Cristo como Salvador. (Lc 24.47; At 10.42-43; 13.38).

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[1] K. Barth, La Oración, Buenos Aires: La Aurora, 1968, p. 75.

[2] Martinho Lutero, Catecismo Maior: In: Os Catecismos, São Leopoldo; Porto Alegre, RS.: Concórdia; Sinodal, 1983, §§ 90-91, p. 469.

[3]  Karl Barth, La Oración, Buenos Aires: La Aurora, 1968, p. 78-79.

[4] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 129.

[5]  Cf. João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 1999,  v. 2, (Sl 38.13), p. 187.

[6] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 3, (Sl 79.10), p. 259. “Sempre que os ímpios, em favor de quem nos devotarmos fazendo-lhes o bem, nos retribuírem mal por bem, Deus certamente será o Juiz deles” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 1999, v. 2, (Sl 38.19-20), p. 192).

[7]G. Hendriksen, El Evangelio Segun San Mateo, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana, 1986, p. 350.

[8]D.M. Lloyd-Jones, Santificados mediante a verdade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas (Certeza Espiritual, v. 3), 2006, p. 115.

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