Os primeiros administradores do Novo Testamento

O ministério pastoral vem com muitas dificuldades, incluindo os desafios da administração da igreja. Faz parte do chamado a sermos “ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” (1Co 4.1; cf. 2Co 11.23–33).

 

Eu tive minha porção de desafios administrativos ao longo dos anos. Muitas vezes eles vêm sem avisar, exigindo atenção imediata. Em 2008, o mercado de ações despencou na semana em que me mudei para Atlanta. As doações diminuíram e a igreja tinha mais de um milhão de dólares em dívidas. A maioria da equipe de apoio renunciou três meses após a nova liderança pastoral. Tive que descobrir as operações da igreja com um caderno de instruções desatualizado. A certa altura, o esgoto voltou para o refeitório infantil em uma manhã de domingo. E o mais doloroso, no meu décimo ano, o assistente financeiro foi pego desviando milhares de dólares.

Esses tipos de desafios e inúmeros outros, grandes e pequenos, podem deixar os pastores desanimados. E isso pode nem ser culpa deles. Suas igrejas podem ter expectativas irrealistas de que eles preguem sermões excelentes e supervisionem as instalações. Alguns pastores ficam desapontados porque têm uma percepção errônea do ministério. Eles acham que o ministério segue dois trilhos que nunca se cruzam – pastoral e administrativo. Quando o administrativo atravessa o pastoral, ficam frustrados porque interrompe o ministério “real” de ensino e discipulado.

 

Os desafios administrativos não são novos para pastores e igrejas. No primeiro século, a igreja em Jerusalém experimentou uma administração mal feita durante sua infância. E a solução dos apóstolos ao nomear servos (vamos chamá-los de primeiros “administradores” do Novo Testamento) é instrutiva hoje. Em Atos 6.1–7, quero mostrar como uma boa administração é um serviço inestimável tanto para a saúde da igreja quanto para a liderança dos presbíteros.

 

Atos 6.1–7: Os primeiros administradores do novo testamento

 

Ao longo do livro de Atos, Lucas resume como o evangelho se espalhou: 

 

“A Palavra do Senhor crescia”. (At 19.20; cf. 6.7; 9.31; 12.24; 16.5; 28.30 –31). 

 

Mas algo sempre ameaçou a igreja. Assim que nasceu em Jerusalém, a corrupção e a perseguição testaram seu compromisso (At 5.1–42).

Em Atos 6.1–7, os apóstolos enfrentaram um novo desafio. Eles se esforçavam para cuidar das viúvas enquanto “os discípulos cresciam em número” (v.1). E com tempo e energia limitados, os apóstolos não podiam cuidar da benevolência e do ministério da palavra (vv.2,4). Ambos eram importantes. Mas eram demais para um só grupo. Como resultado da má supervisão administrativa, houve desunião entre os membros (v.1). Eles não eram mais “um só coração e alma” (At 4.32 tradução livre).

Os apóstolos também estavam em uma encruzilhada. Eles não podiam abandonar seu chamado principal. Eles foram comissionados para pregar o evangelho, não “servir às mesas” (v.2). Mas cuidar das viúvas e restaurar a unidade eram essenciais para a saúde da igreja. O amor e a união estariam em jogo se “servir as mesas” não recebesse a devida atenção administrativa

Na providência de Deus, os apóstolos conceberam um plano. Eles pediram à igreja que escolhesse homens piedosos e sábios para administrar a benevolência para que pudessem se dedicar à “oração e ao ministério da Palavra” (vv. 3–4). A congregação viu a sabedoria nisso: “o que eles disseram agradou a toda a congregação” (v.5; ênfase adicionada). Eles “escolheram” sete homens e os colocaram diante dos apóstolos para serem comissionados para o serviço (v.6). A igreja manteve o ministério da palavra e da misericórdia em um relacionamento adequado.

O ministério administrativo dos sete foi um empreendimento significativo. Eles foram encarregados de restaurar a unidade que fora fraturada ao longo das linhas culturais entre crentes helenistas e hebreus. Eles precisavam de sabedoria para resolver problemas. A solução não poderia ignorar a dor de uma viúva que foi ferida por ser negligenciada. A igreja era composta por milhares de crentes. Era um custo alto se não administrassem adequadamente a distribuição diária. Uma solução administrativa ruim aprofundaria a fissura. Eles estavam lidando com capital relacional essencial para a saúde de uma igreja – amor e unidade. Então eles tinham que estar cheios do Espírito.

Seja qual for o meio que os sete usaram para suprir a necessidade, o Senhor o abençoou. Lucas escreveu:

 

“Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé”. (Atos 6.7)

 

O desafio administrativo do ministério de benevolência de uma igreja em crescimento, por fim, não desviou a atenção do evangelho. O serviço dos sete provou ser um presente inestimável para o ministério dos apóstolos e a unidade da igreja.

 

Lições para supervisão dos desafios administrativos.

 

Haverá desafios administrativos quando os crentes estão em aliança para amar e prover as necessidades uns dos outros. Ao invés de os pastores relutarem com esses desafios, eles devem encontrar maneiras de supervisionar e utilizar os membros para superá-los. Aqui estão algumas maneiras pelas quais eles podem fazer isso:

 

  • Encontre servos qualificados e talentosos.

 

Atos 6 é um bom modelo para separar as responsabilidades de presbíteros e diáconos. Os diáconos devem salvaguardar a unidade da igreja ao atender às necessidades físicas para que os presbíteros possam se dedicar à oração e ao ministério da Palavra.

Os pastores geralmente ficam sobrecarregados com as demandas administrativas porque subestimam o ofício de diácono e os dons de serviço dos membros. Eles assumiram muita responsabilidade pelas necessidades físicas que deveriam ser atendidas pelos diáconos e membros. Servos qualificados e talentosos libertam o pastor de muitos fardos garantindo que os membros sejam cuidados e os ministérios sejam coordenados.

É uma bênção para os pastores ter servos que dedicadamente mantêm o ministério da Palavra como o centro. O instinto de um servo deve ser aliviar o pastor dos encargos administrativos e das necessidades físicas dos membros para que ele esteja bem preparado para pregar. Eles devem perguntar: “Que tarefas podemos fazer para que os professores da escola dominical tenham aulas excelentes? Como podemos coordenar voluntários para que os professores das crianças e dos jovens estejam prontos para os envolver com a Palavra? As pessoas certas estão envolvidas na administração das finanças para que nossos presbíteros estejam livres para ministrar as Escrituras aos membros pessoalmente?” Encontrar servos qualificados e talentosos ajuda a garantir que a Palavra permaneça central e as necessidades físicas sejam atendidas.

 

  • Identificar as implicações pastorais da administração.

 

Nem todas as responsabilidades administrativas têm implicações pastorais. Se o ar condicionado quebrar, alguém precisa consertá-lo. Mas se quebrar e a igreja tiver que descobrir meios alternativos para a reunião, um pastor ou alguns presbíteros devem pensar nas implicações pastorais desses meios. A preocupação pastoral em Atos 6 era a desunião relacional causada pela administração falha. A solução dos sete tinha como objetivo restaurar a unidade.

Os pastores devem se preocupar com as operações administrativas de sua igreja. Eles devem conhecer o suficiente para identificar suas implicações pastorais. Isso é especialmente verdadeiro para comunicações, finanças e reformas de instalações.

Veja as finanças, por exemplo. Tesoureiros e diáconos podem apresentar relatórios financeiros úteis e informativos nas reuniões dos membros. Mas esses relatórios são mais do que finanças? Eu acredito que sim. São oportunidades para definir um tom pastoral e fornecer instrução bíblica sobre doações e prioridades da igreja. Portanto, é bom que um presbítero forneça o relatório financeiro e quaisquer implicações pastorais.

 

  • Delegue com direção e encorajamento.

 

Delegar envolve o humilde reconhecimento de que nenhum pastor é competente por si só. Ele precisa de outros. E sua igreja pode estar cheia de membros com diversos dons dispostos a ajudar (1Co 12.4–11). Eles apoiam a liderança do pastor e ficam felizes em servir “onde quer que seja necessário”. Eles só precisam de um trabalho com direção e encorajamento.

É responsabilidade do pastor explicar porque um ministério precisa de coordenação. Por que os membros devem usar seu tempo e energia? Qual é o propósito de supervisionar tarefas administrativas? Se os membros entenderem a visão dos presbíteros para um ministério, eles frequentemente usarão com alegria seus dons para esse fim. Suas mãos são fortalecidas para servir quando recebem orientação clara.

 

Os membros também precisam de encorajamento. Costumo dizer à equipe de apoio: “Seu trabalho é equipar e fornecer recursos aos membros para o ministério na igreja”. Às vezes, o melhor incentivo é fornecer às pessoas as ferramentas certas para o trabalho. Uma palavra encorajadora de um pastor também ajuda muito. A administração geralmente passa despercebida e subestimada. Então, um “obrigado!” ou “Eu louvo a Deus por seu serviço!” encorajará seus corações.

 

Conclusão

 

Satanás é astuto. Ele usará todos os meios necessários para ameaçar o compromisso de uma igreja de pregar a Palavra e manter a unidade. Sua arma preferida pode até ser um processo administrativo ruim para subverter o compromisso de uma igreja. E mesmo assim, o Espírito de Deus dá a ela todos os dons suficientes para o seu bem, incluindo o serviço inestimável da boa administração.

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