Salvação | A certeza verdadeira da vida eterna

Num mundo onde as pessoas torcem o nariz ao simplesmente afirmamos que temos certezas sobre alguma coisa, afirmar ter certeza do destino eterno de sua própria alma pode soar um tanto prepotente. Entretanto, por mais estranho que pareça termos certeza a respeito de nossa salvação eterna, devemos analisar o que as Escrituras afirmam e ensinam a respeito da obra de Cristo por nós e em nós.

Se a Palavra de Deus afirma que podemos viver com essa certeza, então, podemos. Todavia, uma doutrina que afirma que podemos ter este tipo de paz e confiança não poderia vir dissociada de diversas outras, como a doutrina da santificação, bem como a doutrina da santidade de Deus. Pensar que Deus pode nos dar tal confiança deve nos fazer pensar também que tal status espiritual vem acompanhado de algumas realidades e responsabilidades, não sendo apenas uma ideia abstrata, uma simples crença, uma simples opinião sobre Deus e o que ele pensa de nós.

Aonde quero chegar com essa reflexão? Quero chegar à realidade da certeza da salvação baseada nas Escrituras, que nos apontam um tipo de coração, comportamento e fé que o que são salvos eternamente possuem enquanto vivem seguramente para a eternidade. A certeza da salvação não é obtida pelo simples assentimento a alguma doutrina, ela é uma consciência que se desenvolve à medida que um cristão verdadeiro caminha verdadeiramente com Cristo, e esse caminhar indiscutivelmente testemunha a presença da vida eterna em sua vida.

Logo, assim como se pode afirmar que é possível ter certeza da salvação, é possível também ter uma certeza errada, mentirosa, sobre a própria salvação, e a primeira epístola de João pode nos ajudar nesse assunto. Essa epístola foi escrita em um contexto em que a igreja estava sofrendo com divisões e êxodos frequentes entre seus membros; muitos estavam indo embora para o mundo ou para alguma seita de cristologia duvidosa. João, apóstolo e pastor que era, exorta sua comunidade a permanecer na sã doutrina e em meio ao povo da sã doutrina, além de esclarecer que esse permanecer se dá por meio da divina semente (1Jo 3.9) que habita nos crentes verdadeiros, a qual os faz viver em purificação de pecados e amadurecimento constantes, com amores ordenados pelo amor de Deus, por meio de uma fé no Cristo verdadeiro. João mostra como é possível ter certeza da vida eterna de maneira verdadeira, já que esses dissidentes afirmavam ter também a vida eterna (1Jo 1.6). 

Enquanto o Evangelho de João (que foi escrito primeiro) teve o propósito de levar as pessoas à fé em Cristo (João 20.31), sua primeira epístola foi escrita para que elas pudessem provar se possuíam de fato a vida eterna prometida por Cristo, como vemos em 5.13. Comparemos os dois textos e os destaques:

Estes [sinais], porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. (Jo 20.31)

Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus. (1Jo 5.13)

A fim de não sermos enganados acerca de nossa própria salvação, vamos analisar, por meio do ensino de João, pelo menos três realidades que devem estar presentes em nossas vidas e que são provas da presença da graça salvadora de Cristo Jesus em nós (foram inclusos alguns destaques em negrito para facilitar a compreensão):

1. FÉ CORRETA NO CRISTO CORRETO

A dissidência de muitos no contexto imediato da carta se devia a ataques de falsos mestres, chamados por João de “anticristos” (2.18), os quais estavam persuadindo muitos a aderirem aos seus falsos ensinamentos sobre Cristo, principalmente no que tange à humanidade verdadeira de Cristo e sua plena divindade. Aderir aos falsos ensinos desses mestres significava desembarcar da comunidade apostólica joanina, da Igreja de Cristo, para viver o engano, bem como o estilo de vida mundano desses anticristos. João deixa bem claro em diversos versículos que não podemos fabricar um Cristo à nossa própria maneira, mas crer naquele que verdadeiramente desceu da eternidade e se fez homem, morrendo na cruz pelos nossos pecados para a nossa salvação. Um verdadeiro salvo crê sinceramente que Jesus Cristo é Deus encarnado, Filho de Deus Pai, Salvador do mundo por meio do seu sangue. Vejamos:

  • Jesus verdadeiramente veio em carne

…o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida. (1.1b)

Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus (4.2)

  • Jesus é o Cristo, o Messias, prometido no AT, o Filho de Deus

Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho. Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai. (2.22-23)

Aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele, em Deus. (4.15)

Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus? (5.5)

  • Jesus é o único e suficiente Salvador

Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro. (2.1-2)

Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus. (5.1a)

Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida. (5.12)

Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna. (5.20)

2. VIDA CRISTÃ VERDADEIRA

Antes de desenvolver este ponto, é importante deixar claro que uma vida cristã verdadeira não é o mesmo que impecabilidade. Não é isso que se pretende neste artigo sobre salvação, muito menos no que o apóstolo João disse (1.18). Entretanto, assim como Paulo diz em Efésios 2.10 que “fomos criados em Cristo Jesus para as boas obras”, Deus nos dá, em Cristo, de fato, uma nova vida; uma vida diferente dos que vivem sem Cristo. Logo, não é possível que aquele que carrega consigo a divina semente tenha um comportamento e estilo de vida parecido com o do mundo; o esperado, e mais importante, é que busque um estilo de vida parecido com o de Cristo. O que deixamos de fazer por sermos do Senhor é muito importante, mas o que fazemos por causa do Senhor e por pertencermos a ele é o que mais nos distingue. Vejamos abaixo os versículos que demonstram essa realidade na salvação:

  • Consciência e confissão contínua dos próprios pecados

Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. (1.8)

Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. (1.9)

Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós. (1.10)

  • Estilo de vida condizente com a luz, com os mandamentos de Deus

Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. (1.6-7)

Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade. Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele, verdadeiramente, tem sido aperfeiçoado o amor de Deus. Nisto sabemos que estamos nele: aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou. (2.3-6, grifos meus)

Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca. Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno. (5.18-19)

  • Não odeia as pessoas, mas as ama

Aquele que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até agora, está nas trevas. Aquele que ama a seu irmão permanece na luz, e nele não há nenhum tropeço. Aquele, porém, que odeia a seu irmão está nas trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos. (2.9-11)

Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte. (3.14)

Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino; ora, vós sabeis que todo assassino não tem a vida eterna permanente em si. (3.15)

  • Permanência na sã doutrina

Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos. (2.19)

Permaneça em vós o que ouvistes desde o princípio. Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também permanecereis vós no Filho e no Pai. E esta é a promessa que ele mesmo nos fez, a vida eterna. Isto que vos acabo de escrever é acerca dos que vos procuram enganar. (2.24-26)

  • Tem a justiça e retidão como marca em sua vida

Se sabeis que ele é justo, reconhecei também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele. (2.29)

Todo aquele que permanece nele não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu. (3.6)

Filhinhos, não vos deixeis enganar por ninguém; aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo. Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo. Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus. Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão. (3.7-10)

  • Exerce generosidade e cuidado com os irmãos

Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos. Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade. (3.16-18)

  • Tem uma consciência tranquila diante de Deus

E nisto conheceremos que somos da verdade, bem como, perante ele, tranquilizaremos o nosso coração; pois, se o nosso coração nos acusar, certamente, Deus é maior do que o nosso coração e conhece todas as coisas. (3.19-20)

3. AMORES ORDENADOS PELA VERDADE

A realidade da salvação, da presença do amor de Deus na vida de uma pessoa, faz com que este amor transborde em amor pelos outros, bem como em um desamor pelo mundo e pelas coisas que são deste mundo, as coisas pecaminosas. Um coração regenerado de fato possui uma predisposição em amar seus irmãos e se afastar do que não é de Deus, do que não condiz com a santidade de Deus. A partir do momento em que a divina semente cai no solo do nosso coração e germina, há eternidade e amor em nosso ser como fruto dessa semente, de maneira que somos impelidos a amar os outros e também constatamos que tudo aquilo que não é eterno não condiz mais conosco. Na salvação, nossos amores são afetados, transformados; nossas afeições passam a ser redimidas.

Novamente, isso não implica em impecabilidade, em não ter dificuldade alguma em amar as pessoas e em não amar o mundo. Podemos ser e, de fato, seremos tentados nessas áreas. Todavia, nosso coração sempre saberá o que amar — a Deus e ao próximo — e não encontrará jamais descanso no ódio e no mundanismo. Vejamos abaixo os versículos que corroboram essa ideia:

Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente. (2.15-17)

  • Inclinação ao amor ao próximo

Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado. (4.7-12)

Nós amamos porque ele nos amou primeiro. Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ora, temos, da parte dele, este mandamento: que aquele que ama a Deus ame também a seu irmão. (4.19-21)

SOMOS OU NÃO SOMOS

Após todos os testes mencionados, concluímos que é possível termos certeza de nossa salvação, a qual, embora (ainda bem!) seja totalmente pela graça por meio da fé somente (Ef 2.8-9), se evidencia interna e externamente por meio de crenças, comportamentos e amores próprios da luz, e não das trevas; de Deus, e não de Satanás. Não há como Deus tocar em nós sem que não mudemos por completo. Também cabe salientar que há um fator importante dentro dessa certeza, a saber, o testemunho interno do Espírito de Deus:

Nisto conhecemos que permanecemos nele, e ele, em nós: em que nos deu do seu Espírito. (3.13)

Se há uma voz em seu ser que lhe diz que você é um filho amado de Deus (Rm 8.16), e essa voz também o impulsiona a viver essas realidades mencionadas acima, mesmo que não em sua plenitude, mas em uma luta diária e sincera diante de Deus e na dependência de Deus, acredite, confie, creia: você é um salvo por Cristo, e ninguém nunca poderá roubá-lo das mãos dele.

 

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Fonte: https://voltemosaoevangelho.com/blog/2024/02/a-certeza-verdadeira-da-vida-eterna/

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