A ordem da salvação: Como Deus opera a redenção na vida do pecador

A ordem da salvação: Como Deus opera a redenção na vida do pecador

Quando uma pessoa entrega sua vida a Cristo, raramente ela para para pensar em tudo o que Deus realizou para torná-la participante da salvação. O pecador ouve o evangelho, arrepende-se de seus pecados, deposita sua fé em Jesus e experimenta a transformação operada pelo Espírito Santo. Contudo, por trás dessa experiência existe uma profunda obra divina que envolve a iniciativa da graça, a atuação do Espírito Santo, a resposta humana de fé, a justificação, a regeneração, a adoção, a santificação e, finalmente, a glorificação. Os teólogos costumam chamar essa sequência de Ordo Salutis, expressão latina que significa “ordem da salvação”. Trata-se de uma tentativa de organizar logicamente os diversos aspectos da obra salvadora de Deus na vida do crente. Como observa Roger Olson, a Ordo Salutis procura explicar a relação entre os eventos que antecedem, conduzem e sucedem a experiência da salvação.

Entretanto, é importante compreender desde o início que a Ordem da Salvação não deve ser entendida como uma sequência rígida de acontecimentos separados por intervalos de tempo. Quando Deus salva uma pessoa, muitos desses elementos ocorrem simultaneamente ou estão tão intimamente ligados que não podem ser completamente isolados. O objetivo da Ordo Salutis não é dividir a salvação em compartimentos artificiais, mas ajudar-nos a compreender a beleza e a profundidade da obra divina. Ela procura responder perguntas como: o que vem primeiro, a fé ou a regeneração? O pecador é regenerado para crer ou crê para ser regenerado? Como a graça de Deus e a responsabilidade humana se relacionam no processo da salvação?

Curiosamente, o debate moderno sobre a Ordem da Salvação é muito mais recente do que muitos imaginam. Embora a Bíblia apresente claramente os diversos elementos da obra salvífica, a preocupação em organizá-los sistematicamente surgiu apenas muitos séculos depois. Diversos estudiosos observam que os reformadores do século XVI estavam muito mais preocupados com a obra objetiva de Cristo realizada na cruz do que com a elaboração de esquemas detalhados sobre os aspectos subjetivos da experiência da salvação. A própria expressão Ordo Salutis só passou a ser utilizada de forma técnica no século XVIII. Isso não significa que a discussão seja desnecessária, mas nos lembra que devemos abordar o tema com humildade, reconhecendo que a Bíblia nem sempre apresenta a salvação através das categorias sistemáticas que os teólogos posteriores desenvolveram.

Ao examinarmos as Escrituras, percebemos que tudo começa com a graça de Deus. A salvação não nasce da iniciativa humana. O homem caído não procura naturalmente a Deus nem possui recursos espirituais para produzir sua própria redenção. Paulo declara que todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus (Romanos 3.23) e afirma que o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus (1 Coríntios 2.14). Isso significa que ninguém pode salvar-se por seus próprios esforços. A iniciativa pertence inteiramente ao Senhor. É Deus quem envia seu Filho ao mundo. É Deus quem envia o Espírito Santo. É Deus quem faz o evangelho chegar aos pecadores. É Deus quem convence do pecado, da justiça e do juízo (João 16.8).

Nesse ponto encontramos uma das diferenças mais importantes entre as principais compreensões da Ordem da Salvação. Alguns teólogos entendem que Deus regenera primeiro e somente depois concede fé ao pecador. Outros compreendem que Deus age previamente por meio de sua graça, capacitando o pecador a responder ao evangelho sem, contudo, obrigá-lo a fazê-lo. Essa atuação é frequentemente chamada de graça preveniente. Nessa perspectiva, a graça de Deus antecede qualquer movimento humano e torna possível a resposta de fé, mas não substitui essa resposta. O pecador continua responsável por aceitar ou rejeitar o chamado divino.

A própria história da teologia reformada demonstra que a discussão é mais complexa do que muitas vezes se imagina. Os primeiros reformadores não utilizavam necessariamente os mesmos conceitos técnicos empregados pelos sistemas posteriores. Diversos estudiosos observam que Lutero e Calvino frequentemente usavam o termo “regeneração” em um sentido muito mais amplo do que o utilizado atualmente, abrangendo não apenas o novo nascimento, mas também elementos como arrependimento, fé e santificação. Isso significa que nem sempre podemos ler os escritos dos reformadores utilizando definições desenvolvidas séculos depois.

Essa observação torna-se especialmente importante ao estudarmos o pensamento de Jacó Armínio. Alguns intérpretes modernos tentaram utilizar determinadas declarações de Armínio para argumentar que ele acreditava na regeneração anterior à fé. Contudo, uma análise cuidadosa de seus escritos revela algo diferente. O teólogo holandês enfatizava constantemente a incapacidade do homem caído de realizar qualquer bem espiritual sem a graça divina. Ele afirmava que o pecador necessita da atuação do Espírito Santo para ser capacitado a entender, desejar e realizar aquilo que agrada a Deus. Todavia, quando falava sobre regeneração, frequentemente utilizava o termo em um sentido muito mais amplo do que o atual, incluindo nele a própria fé e outros dons espirituais concedidos por Deus.

Para Armínio, a união com Cristo pela fé ocupava posição central na experiência da salvação. Em seus escritos, ele afirma que é pela fé que somos enxertados em Cristo e passamos a participar de sua vida. Somente a partir dessa união com Cristo os benefícios da salvação são plenamente recebidos pelo crente. Entre esses benefícios encontra-se a própria regeneração. Isso ajuda a compreender por que muitos teólogos arminianos entendem que a fé precede logicamente a regeneração. Não porque a fé seja uma obra meritória capaz de produzir salvação, mas porque ela é o meio estabelecido por Deus para a união com Cristo, de quem procedem todas as bênçãos espirituais.

Biblicamente, a fé ocupa um lugar central na experiência da salvação. O Novo Testamento repete inúmeras vezes que somos justificados pela fé (Romanos 5.1), que recebemos a vida eterna mediante a fé (João 3.16) e que nos tornamos filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus (Gálatas 3.26). A fé não é apresentada como um mérito humano, mas como a resposta ao evangelho produzida sob a influência da graça divina. Deus toma a iniciativa, Deus chama, Deus convence, Deus ilumina, mas o pecador é chamado a responder crendo em Cristo.

Após a fé vem a justificação. A justificação é o ato pelo qual Deus declara justo o pecador que crê em Jesus. Não significa que a pessoa se tornou moralmente perfeita naquele instante, mas que seus pecados foram perdoados e a justiça de Cristo lhe foi imputada. Trata-se de uma mudança de posição diante de Deus. O condenado é absolvido. O culpado é perdoado. O inimigo torna-se reconciliado com o Pai. Essa é uma das mais gloriosas verdades do evangelho.

Unida à justificação está a regeneração, o novo nascimento anunciado por Jesus em João 3. A regeneração descreve a transformação interior realizada pelo Espírito Santo. Deus não apenas perdoa o pecador; Ele também começa a transformá-lo. Surge uma nova disposição para amar a Deus, obedecer sua Palavra e buscar a santidade. O coração de pedra é substituído por um coração sensível à vontade divina. O homem continua enfrentando a luta contra o pecado, mas agora possui uma nova natureza orientada para Deus.

A partir daí inicia-se a santificação, que é o processo contínuo de crescimento espiritual. Diferentemente da justificação, que ocorre de forma instantânea, a santificação desenvolve-se ao longo de toda a vida cristã. O Espírito Santo trabalha progressivamente para conformar o crente à imagem de Cristo. Há quedas, lutas, fracassos e desafios, mas também há crescimento, amadurecimento e transformação. O objetivo de Deus não é apenas levar pessoas ao céu, mas formar nelas o caráter de seu Filho.

Finalmente, a Ordem da Salvação culmina na glorificação. Aquilo que começou com a graça preveniente, passou pela fé, pela justificação, pela regeneração e pela santificação alcançará sua plenitude quando Cristo retornar. Nesse dia, os crentes serão completamente libertos da presença do pecado, receberão corpos glorificados e viverão eternamente na presença de Deus. A salvação que hoje experimentamos parcialmente será então consumada em toda a sua plenitude.

A grande lição da Ordem da Salvação é que do começo ao fim a redenção pertence ao Senhor. A iniciativa é de Deus. O plano é de Deus. O sacrifício é de Deus. A graça é de Deus. O Espírito é enviado por Deus. Entretanto, essa mesma salvação não trata o homem como um ser passivo ou mecânico. O evangelho chama pessoas reais ao arrependimento e à fé. Deus opera, mas o homem responde. Deus chama, mas o homem deve crer. Deus oferece sua graça, mas o pecador é responsável por não rejeitá-la. É justamente nesse equilíbrio entre a soberania divina e a responsabilidade humana que encontramos a beleza da obra salvadora de Deus revelada nas Escrituras.

Referências Bibliográficas

  • OLSON, Roger E. Arminian Theology: Myths and Realities.
  • ARMINIUS, Jacobus. The Works of James Arminius.
  • VAILATTI, Carlos Augusto. Estudos sobre Ordo Salutis e Arminianismo.
  • COTTRELL, Jack. The Faith Once for All.
  • PICIRILLI, Robert E. Grace, Faith, Free Will.
  • BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática.
  • CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã.
  • GAFFIN JR., Richard B. Estudos sobre União com Cristo e Ordo Salutis.
  • SHEDD, William G. T. Dogmatic Theology.
  • MARSHALL, I. Howard. Kept by the Power of God.

Soli Deo gloria