Como a igreja deve dar ajuda financeira aos membros e não membros?

Para ser um um cristão é preciso reconhecer que se é alguém necessitado. É uma das marcas que lemos no Sermão do Monte: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5.3). Para seguir Jesus, você deve reconhecer que está espiritualmente quebrado e incapaz de salvar a si mesmo.

Uma igreja, portanto, é um ajuntamento de pessoas necessitadas. Todo membro reconhece a sua necessidade da justiça de Cristo (Rom 3.20), da graça de Deus (Ef 2.5) e do perdão divino (Cl 1.13-14).

Apesar de sermos espiritualmente necessitados de uma maneira igual, as nossas necessidades físicas serão diferentes. Podemos estar no mesmo oceano, mas não estamos no mesmo barco. Alguns de nossos barcos tem furos, em outros faltam os remos. O ministério de benevolência da igreja começa aqui: demonstrando misericórdia uns com os outros em meio às nossas diferentes necessidades físicas.

Em outras palavras, benevolência não é apenas dar dinheiro às pessoas para ajudar a resolver os seus problemas. Trata-se de mostrar aos outros a misericórdia e o amor que nos têm sido mostrados. Esse entendimento permite evitar tanto o “complexo de salvador”, quanto que pisemos na dignidade uns dos outros, a qual é dada por Deus.

Aqui estão princípios importantes para manter em mente enquanto você começa a desenvolver a sua própria política.

CINCO SUGESTÕES

1. Designe um diácono ou um grupo de diáconos

Algumas igrejas encarregam um diácono específico de supervisionar a benevolência. A Capitol Hill Baptist Church, por exemplo, nomeia um diácono para o cuidado com os membros. Minha própria igreja distribui essa responsabilidade entre todos os diáconos. Uma vez que estão amplamente conscientes das necessidades e dos recursos do corpo, sentimos que eles estão mais preparados para ministrar e discernir a melhor maneira de abordar cada situação. Uma igreja pode pedir a um não-diácono que seja responsável por um determinado caso de benevolência. No entanto, certifique-se de que quem assume a responsabilidade por estas tarefas cumpre os critérios dos “sete” em Atos 6 e dos diáconos em 1 Timóteo 3. Além disso, o processo será beneficiado se houver um indivíduo ou uma equipe consistente que conheça as políticas e os procedimentos de supervisão.

2. Orçamento para benevolência—ou pelo menos ter um fundo

Algumas igrejas têm fundos de benevolência para doações designadas, ou recebem ofertas especiais. Uma vez que a nossa igreja tem necessidades frequentes de benevolência, incluímos uma sessão para benevolência no orçamento anual. Os diáconos supervisionam essa sessão orçamental e estão habilitados a tomar decisões sobre a forma como esses fundos são distribuídos. Para necessidades maiores de benevolência que vão para além do que está orçamentado, eles consultam os anciãos.

3. Construa uma cultura de vulnerabilidade que ajude na comunicação

As igrejas devem lembrar continuamente aos membros que existe um fundo de benevolência e qual é o processo para obter o auxílio. Mas a comunicação tem dois sentidos. Os membros também têm de comunicar as suas necessidades.

Como tal, precisamos de uma cultura de vulnerabilidade em que partilhemos a compreensão de que todos nós somos necessitados de alguma forma. Esperemos que isto ajude as pessoas a pedir ajuda quando devem e as proteja de sofrerem em silêncio. Isto também significa que os diáconos devem saber como envolver o corpo, construir relações e, de um modo geral, serem acessíveis e abordáveis.

4. Avaliar cada situação de maneira específica

Cada pedido de benevolência e ajuda financeira deve ser avaliado cuidadosamente. A ajuda financeira pode não ser a resposta. Os nossos diáconos pedem às pessoas que preencham um formulário, ao qual se segue uma consulta pessoal, antes de determinarem a melhor forma de ajudar o indivíduo ou a família que pede ajuda.

O pedido obriga o indivíduo ou a família a resumir as suas necessidades e pedidos. A consulta permite que a equipe considere quais os serviços e recursos do corpo que podem fornecer soluções sem recorrer a meios financeiros. Por exemplo, se uma pessoa precisa de ajuda para um tratamento dentário, talvez um dentista da congregação possa ajudar.

A consulta também constitui uma oportunidade para colocar questões sobre os padrões orçamentais gerais ou outras fontes externas de ajuda. Existem despesas insensatas que contribuem para a necessidade atual e que poderiam resolver o problema? Há algum membro cristão da família que deveria ajudar, para que a igreja, ao assumir a responsabilidade, não tente esse membro da família a pecar (ver 1 Timóteo 5.8)? Essas conversas podem ser desconfortáveis, mas são necessárias e amorosas para o bem a longo prazo. Sem dúvida, muitas destas situações requererão alguma habilidade pastoral, e é por isso que os seus diáconos devem ser pessoas “cheias do Espírito e de sabedoria” (At 6.3).

5. Para situações de benevolência a longo prazo, dê prioridade ao discipulado 

Alguns pedidos são para assistência pontual. Talvez uma família se encontre numa situação financeira difícil e precise de um colete salva-vidas. O pedido é claro e específico, e uma ajuda financeira resolverá rapidamente o problema. No entanto, muitas situações de benevolência requerem mais tempo e assistência contínua. Estas situações proporcionam uma oportunidade para uma relação contínua de discipulado.

Algumas pessoas não foram ensinadas a pensar no dinheiro de uma perspectiva bíblica. Por isso, é útil incluir nas políticas de benevolência coisas como aulas de educação financeira, desenvolvimento de orçamentos, memorização das Escrituras e outras ferramentas práticas. Cada caso é um caso, mas, em alguns deles, a utilização dessas ferramentas como pré-requisitos para a assistência contínua pode ajudar.

6. Se possível, pagar diretamente aos fornecedores 

[Nota do editor: nesta seção o autor aconselha que as ajudas financeiras sejam feitas, na medida do possível, diretamente à empresa ou prestador de serviço que atenderá o membro. Por exemplo, se precisa de um recurso financeiro para um exame, a igreja deve fazer o pagamento diretamente ao laboratório.]

Este procedimento ajudará a garantir que o dinheiro é usado diretamente para financiar a necessidade, bem como ajudará o ministério a manter bons registros financeiros e até mesmo fiscais. Isto pode parecer uma falta de confiança, mas, em última análise, o objetivo é estar acima de qualquer suspeita, criando um ambiente que não deixe espaço para a carne (Rm 13.14).

7. Responsabilização dos diáconos?

A fim de cuidar do(s) diácono(s) que gere(m) a política de benevolência, é crucial ter uma estrutura de responsabilização financeira em vigor. O(s) diácono(s), ao tomar(em) decisões de distribuição de recursos, deve(m) fazê-lo sob a supervisão de um presbítero/pastor. As verificações e atualizações sobre os casos de benevolência na congregação devem ser regularmente partilhadas com os presbíteros.

E QUANTO AOS NÃO MEMBROS?

E quanto à ajuda financeira aqueles que não são membros da nossa igreja?

Muitas pessoas consideram as igrejas como lugares onde se pode pedir ajuda. Se o edifício da sua igreja se situa numa zona com muito movimento pedestre, tenho a certeza de que, inevitavelmente, receberá estranhos pedindo ajuda financeira. Devemos agradecer ao Senhor por este fato, mas também pode ser algo bastante complicado.

Eis alguns princípios a levar em conta nestas circunstâncias.

1. Se possível, evite distribuir dinheiro

Em vez de dinheiro, tenha à mão cartões de oferta para restaurantes (tipo um vale-refeição) ou cartões de transporte coletivo, bem como alimentos não perecíveis, kits de higiene e roupas. Deve ser possível dar algo às pessoas, mas evite dar dinheiro se puder.

2. Determine uma quantia única que está disposto a dar a estranhos

Isto é útil se alguém precisar de transporte, abrigo ou ajuda com um serviço público. Se o pedido estiver dentro do seu limite, não são necessários passos adicionais. Pode-se prestar ajuda imediata. Certifique-se apenas de que esteja pagando diretamente ao fornecedor em vez de dar o dinheiro à pessoa que precisa de ajuda.

3. Mantenha uma lista atualizada de recursos na área

Algumas pessoas precisarão de mais assistência do que aquela que você pode prestar. Por isso, tenha à mão uma lista de abrigos locais de confiança, algum programa de alimentação da região e outros serviços para os quais possa indicar às pessoas.

4. Errar pelo lado da misericórdia

Depois de lidar com uma série de casos de benevolência, é fácil ficar cansado e até cético em relação a todos os pedidos. Seja sábio e perspicaz, mas lembre-se também de que, se você nunca foi enganado, talvez você não esteja sendo tão misericordioso ou generoso como deveria.

5. Partilhe o Evangelho e convide-os para a igreja

Gosto muito do exemplo de Pedro em Atos 3, quando ele e João encontram o mendigo coxo na Porta Formosa. Depois de o homem lhes pedir dinheiro, Pedro responde: “Não possuo nem prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!” (At 3.6). Podemos não ter sempre algo para dar, mas podemos sempre dar Jesus às pessoas.

E é esse o objetivo. Queremos ter uma política de benevolência que procure mostrar às pessoas o amor e a misericórdia de Cristo. Porque é ele que satisfaz todas as nossas necessidades.

Autor: Philip Duncanson

Fonte: Voltemos ao Evangelho

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